Um computador com tela grande, um estúdio e um sofá. Foi nesse cenário, depois de ver um lyric vídeo do petardo “The Recipe” (parceria de Kendrick Lamar e Dr. DRE) no YouTube, que os MCs Paulo MSário e Massao receberam o Na Mira para um bate-papo sobre o novo disco do Pentágono: Manhã.
Lançado no dia 27 de outubro como download gratuito, Manhã é o terceiro disco do grupo formado por, além de MSário e Massao, Rael da Rima (que agora adotou o nome artístico Rael), Apollo e DJ Kiko.
Participam do novo disco Projota (“Me Ensinou”), Maomé (do ConeCrewDiretoria em “Incandescer”) e Lívia Cruz (“Não Dá Mais”), com batidas assinadas por Urbandawn, Scott Beats, DJ Caique, A. G. Soares, Laudz, Di Beatmaker, Renan Samam e Nego Flow.
O álbum foi lançado quatro anos depois de Natural, que conquistou relativo sucesso com a bem-sucedida miscelânea de reggae/ragga/hip hop em petardos como “É o Moio”, “Presságio” e “Swing”, cujo refrão tornou-se uma das marcas estampadas em camisetas, bonés e outros produtos relacionados ao grupo do Iporanga, zona sul de São Paulo.
No QG do Pentágono, o Na Mira trocou uma ideia com os dois integrantes sobre o novo disco: como ele foi produzido, a ligação dos projetos solos e paralelos, shows, evolução e alguns dos problemas do Brasil colocados nas composições de Manhã.
(Obs: todas as imagens deste post são de Karin Forti.)
Na primeira música do novo disco, “Tá Teno”, vocês falam sobre o papo de muita gente ter achado que o Pentágono havia acabado. O impacto dessa música permeia todo o CD também?
Paulo Msário: A ideia é essa, a gente fez essa música justamente pensando nisso. No final do ano passado e começo deste ano começou a surgir histórias de que o Pentágono ia acabar, que o Rael iria sair e isso começou a ficar chato e incomodar. Fizemos vários shows juntos e isso continuou. Até que um dia veio o estralo na mente do refrão, aí apareceu a base e casou. E também veio o disco pra consolidar essa ideia.
O disco já estava sendo trabalhado antes desses rumores?
Massao: Na verdade, quando pensamos internamente em fazer o disco, a gente já se comunicava com os beatmakers. Chegou uma hora que estávamos com uma quantidade maneira de bases e falamos: ‘vamos começar a trabalhar’. Aí foram surgindo as músicas. E você pode ver que são bases diferentes uma da outra.
Há quanto tempo mais ou menos o disco vem sendo elaborado?
MSário: A gente já queria ter feito o disco desde o ano passado, porque a última vez que tínhamos lançado um disco foi em 2008, o Natural. Depois o Dodman saiu e lançamos um EP com apenas três músicas inéditas. Começamos a trabalhar nos lançamentos de discos solos: Rael fez o MP3: Música Popular do 3º Mundo, comecei a preparar a #playbeckmixtape, que nem sabia o que seria. E aquela carência de fazer algo novo com o Pentágono já existia.
Só que aí no ano passado tentamos fazer algumas músicas, mas não conseguimos. Demos até uma forçada, falando ‘não, a gente consegue, vamos criar essa parada’, só que elas não tinham aquele sentimento. Demos uma desencanada por conta do fim do ano, e o Rael começou a caminhar com o disco novo. Pensamos em fazer o nosso, o Apollo o dele, e aí falamos: ‘é neste ano, temos que fazer um disco do Pentágono’. Pegamos algumas bases que recebemos no ano passado, e aí separamos quantas seriam e fomos trabalhando.
Então foi a consequência de diversos projetos paralelos que deu nessa ‘congelada’ do Pentágono?
MSário: Nem foi tanto isso. A partir do momento que discutimos os prazos, cumprimos todos eles. Só que emperramos com datas de estúdio, mixagem, o que tocar, gravar de novo alguma voz… Esses foram os principais empecilhos. Porque fazer os trampos solos não atrapalhou em nada as escritas do grupo.
Pro ano que vem, vocês pretendem guinar com shows desse novo CD, ou focar em outros projetos?
MSario: A ideia é fazer muitos shows desse CD e também [encaminhar] os trabalhos solos. No primeiro semestre, queremos fazer muita coisa com esse disco – no caso, nós quatro, sem o Rael, porque ele vai lançar disco novo em breve (Ainda Bem Que Segui as Batidas do Meu Coração). No segundo semestre, eu, Apollo e Massao vamos lançar alguma coisa, e aí vai ter shows que pode não ter eu, mas ter o Rael, não ter o Massao e ter não-sei-quem… Mas a ideia é continuar o Pentágono, independente da carreira solo de cada um.
Às vezes tem show do Rael e eu estou lá, e vice-versa. Mais ou menos como a família Racionais – tanto que no VMB concorreram Racionais e Edi Rock, né? Quando vi isso pensei: bom, não estamos em um caminho tão errado assim. Estamos com o Pentágono, o Rael está com a carreira solo mais em evidência do que nós, então não estamos no caminho errado.
O que vocês sentiram que mudou musicalmente de Natural para o novo disco? Vocês conseguiram agregar pro Pentágono as experiências solo de cada integrante?
MSário: As duas mudanças mais evidentes são as guitarras e os metais. Isso foi uma evolução. Acrescentar esses dois elementos deu um ‘up’ pro disco. Ele segue na mesma linha o disco inteiro. No Natural tem algumas linhas assim, mas elas vão e voltam, outras são mais quadradas. Eles deram um tom mais musical e o disco segue numa linha só, sem tanta variação de ritmo; ele não se perde.
E o título do disco, como foi pensado?
Massao: Tudo desse disco foi totalmente coletivo. Cada passo que a gente pensava em dar, ninguém se premeditou em querer fazer algo por conta própria. Porque é o Pentágono mesmo, não dá pra tomar opinião isolada, sempre tem que ter aquela discussão saudável que sempre acrescentou. Não podíamos deixar isso de lado, é uma característica que vem desde o primeiro disco: experimentar e trocar informações pra ver o que conseguíamos fazer.
MSário: O único nome que veio, assim, de alguém falar, foi o Microfonicamente Dizendo (o primeiro disco, de 2004). Porque não é um nome que dá pra pensar coletivo (risos). Foi o Rael que pensou e todo mundo se identificou na hora. Nele, a gente se estressou, gastou muito dinheiro à toa, tentou correr muito e não saiu do lugar.
Massao: Experimentamos, não tinha o que fazer. Não tinha uma direção, ninguém chegou e falou: ‘vocês vão fazer assim, assim, assado’. Metemos a cara! As situações aconteceram e agimos de acordo com elas. Estávamos trocando uma ideia sobre como chegar ao título do disco, e pensamos ‘pô, já é o terceiro disco, não tem segredo’.
Estávamos tão envolvidos com o trabalho que não nos demos conta de que já fizemos isso várias vezes. Não precisava ficar ansioso a ponto de não encontrar o nome do disco. E ele veio numa conversa, fumando um, trocando várias ideias sobre o grupo, a arte da vida, sobre como nem sempre as coisas aconteciam… Chegamos no denominador comum e fomos trabalhar.
MSário: O cara que é responsável pela arte (Bruno Yano) estava com a gente e surgiu com a palavra. As músicas “Amanhã” e “Viver” falam de uma nova manhã, de um despertar de um novo dia. Conversamos sobre isso e ele disse: ‘Manhã, cara’. Falamos: ‘essa é a palavra’.
Em relação ao primeiro show [no Club Carioca], foi o que vocês esperaram? Foi bem familiar, algo bem Pentágono mesmo. Era a pretensão?
MSário: Queríamos gente de todo lugar, cores e raças, estilos e classes sociais, mas infelizmente não foi o que aconteceu. A festa estava cheia de amigos, pessoas que amam o Pentágono de verdade e que vão a qualquer lugar ver a gente. Mas os simpatizantes não foram – foram só os amantes. Essa energia seria a mesma se a casa estivesse lotada, porque é o que transmitimos no show. É o que o ambiente refletiu: quando fazemos show pra cinco pessoas é daquele jeito; pra 7 mil, 10 mil, é daquele jeito. Quando estamos dedicados flui essa energia, então o show foi foda e a galera retribuiu de forma muito foda! Só achamos que a casa poderia estar mais lotada.
“A ideia é continuar o Pentágono, independente da carreira solo de cada um. Mais ou menos como a família Racionais” – MSário
Vocês acreditam que o Pentágono pode ter uma base de fãs maior?
Massao: Acho que sim. O Pentágono não tem o controle disso, mas isso pode acontecer. Mas também pode não.
É que também vocês trabalham de forma independente.
MSário: Sim, mas vários grupos de rap também. Não é bem essa a questão. Já temos 10 anos ativos de caminhada, não somos grupo novo. Lançamos algo novo, estamos trampando, divulgando.
Massao: Desde o princípio do Pentágono, quando fazíamos rimas no caderninho, as pessoas que ouviam a nossa música passavam a admirar, andar com a gente, a se aproximar, tentar conhecer um pouco mais dessa energia do Time do Loko. Viram e são fiéis, eles gostam do Pentágono. Temos um público.
MSário: Nunca fizemos música com a intenção de ser pop e mais falado. Fizemos para expressar nossos sentimentos. Elas sempre serviram de exemplo pra nós mesmos até em algum momento da vida – você escrever uma coisa aqui e, lá na frente, outras pessoas se identificarem com isso e carregarem consigo. Quanto mais pessoas escutarem, melhor; quanto mais longe chegar [a mensagem], melhor. Mas o importante é que sirva e que realmente mude a vida de alguém. Se mudou a vida daquelas 600 pessoas que estavam no show de lançamento, já foi foda!
Mas é muito fácil gostar do Pentágono. Não por ser pop: às vezes uma rima não te pega, mas os metais ou a base também podem fazer esse serviço de puxar a atenção para outros elementos.
Massao: Nós somos suspeitos pra falar. Não sei, somos influenciados e influenciamos: como MC, ser humano, como pai, filho.
MSário: Talvez a gente ouse mais do que outros grupos, ao usar uma batida diferente…
Do CD gostei bastante da “Nóiz é Nêgo” por ser uma canção eficiente. Tem alguma faixa de Manhã que vocês destacam?
MSário: “Nóiz é Nêgo” teve uma recepção legal, eu não sabia como seria a aceitação. Eu gosto pra caramba! Mas com esse momento do rap eu não sabia o que seria dela, e todo mundo tem comentado bastante.
Massao: E tem outra coisa: falar de negro no Brasil é complicado. É um assunto que deveria ser muito mais discutido. Não só negro, como índio, nordestino… Porque se não tivéssemos o mínimo de informação, ainda hoje veríamos Lampião como pilantra, tá ligado? Porque a mídia da época colocava ele como pilantra. Se não tivesse informação e não tivesse caras anteriores a nós representando o negro, índio, favelado, pobre, excluído, a gente não ia ter referência nenhuma!
MSário: E ainda tem muita coisa acontecendo, com os índios por exemplo, as favelas pegando fogo do nada. A Favela do Moinho pegou fogo quantas vezes esse ano, no ano passado? E no ano que vem? Pode ver que em janeiro do ano que vem alguma favela vai pegar fogo. A gente precisava falar disso. O bom é que a galera tem aceitado e está curtindo. Tem muita gente consciente sobre os assuntos.
Nesses 12 anos de estrada do Pentágono, o que mudou?
MSário: Mudou nossa visão. Crescemos e amadurecemos. No começo a gente queria mais se divertir, curtir a vida e o rap. Hoje em dia queremos passar mais mensagens, libertar o pensamento das pessoas e viver da melhor maneira possível, sem esquecer a responsa com a família: mãe, esposa, pai, filho. E a nossa música também cresceu, está nítida nos discos.
Massao: Comecei batendo lata no colégio. Isso me trouxe muitas responsabilidades – tanto pra mim, como pros meus companheiros. Porque a gente batia lata na escola, depois fomos pra faculdade bater lata, tocar maracatu. E aí já tinha que representar a nossa quebrada, porque era cobrado: ‘Mas qual é? Representa nóis’.
Vocês ainda se veem como porta-vozes do lugar de onde vieram – no caso, o Iporanga, zona sul de SP?
MSário: Com certeza. Esse show nos relembrou nitidamente [o quanto influenciamos]. Você vê moleques bons de bola que poderiam ter virado alguma coisa no futebol, mas não tiveram oportunidades por causa de festinha, de drogas. Hoje em dia eles já trabalham, não ficaram parados no tempo – e isso acontece muito em quebrada.
Massao: Ficam estacionados diante daquela situação. Várias joias: umas são lapidadas, e outras não. E só as que são lapidadas reluzem. As que não são, infelizmente… E você falou do show, lembrei de várias coisas importantes: meu irmão não gosta de sair do bairro porque lá se sente protegido. E ele se dispôs a ir, achei maneiro; pessoas que não saem do bairro do jeito nenhum fizeram questão de ir para viver o show conosco. Firmeza, não lotou, mas essas pessoas que são importantes pra gente supriram isso. Pessoas que acompanham nossa batalha fizeram valer a ausência de outras que não puderam estar por outras coisas – ou por opção.
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Para fechar com chave de ouro, confira a pequena mensagem que Massao mandou aos fãs:
