01 Espinha de Bacalhau02 Notícia03 Bicho Papão (Tema do Zeca da Cuíca)04 Carimbó do Moura05 Se Algum Dia06 Peguei a Reta07 Amor Proibido08 Dois Sem Vergonha09 Eu Quero é Sossego10 Dia de Comício

11 Pedra na Lua

Gravadora: RCA Victor
Data de Lançamento: 1976

As intersecções entre samba e jazz geralmente vão parar na bossa nova, mas quando se fala de Paulo Moura, choro, gafieira e blues (sim, blues) também entram na contagem.

Conhecido por ser um dos melhores instrumentistas brasileiros de todos os tempos, o clarinetista e sax-altista ajudou a dar força às canções interpretadas por Maysa, de 1969 a 1975.

Nesse período, lançou discos solo, sendo o mais comercializado Paulo Moura Interpreta Radamés Gnatalli, lançado pela gravadora Continental, em 1959.

Foi com Confusão Urbana, Suburbana e Rural, todavia, que ele evidenciaria um requinte sofisticado. 

Já conhecido em circuitos estrangeiros do jazz, Paulo Moura assimilou regionalismos brasileiros, incluindo música do Norte, Clube da Esquina, samba e música afrobrasileira em temas que dificilmente associaríamos aos compositores originais.

“Espinha de Bacalhau”, de Severino Araújo, ganhou um contorno de samba com solos impressionantes do sax-soprano de Paulo Moura.

A densidade de Nelson Cavaquinho é absorvida com admirável fluência de seu instrumento em “Notícia”: a cuíca, os cavacos e as percussões formam um baralho rítmico ligado ao morro, mas é o sax, na falta dos vocais, que domina o jogo.

[pullquote]A diversidade estética é a principal justificativa do título Confusão Urbana, Suburbana e Rural, mas o grande elo que conecta tudo isso é o do instrumentista Paulo Moura[/pullquote]

Mistério que remete à natureza, “Bicho Papão” traz resquícios do Clube da Esquina – movimento em que Wagner Tiso participou ao tocar ao lado de Milton Nascimento, com o Som Imaginário, anos antes do lançamento deste disco. A composição é assinada por Wagner, Paulo e um dos grandes feitores do disco: o sambista Martinho da Vila, que fornece a vertente sambista.

É importante a menção e a produção de Martinho da Vila no que se configurou Confusão Urbana, Suburbana e Rural: ele faz prevalecer a aura popular do disco. 

Então com 42 anos, Paulo Moura já tinha grande experiência com gafieira, maxixe e choro. Ao chamar Tiso (piano e órgão) e Toninho Horta (violão), houve a união de muitas experiências sonoras ligadas à brasilidade, termo que, apesar de muito gasto ao especificar música popular, tem importante teor interpretativo para definir as raízes de sua música instrumental. O samba de Martinho não só reforça o termo; dá, também, uma abordagem inovadora ao jazz (mais ou menos o que Dizzy Gillespie quis fazer neste projeto perdido).

Cada tema possui os traços demarcados dos músicos envolvidos. No “Carimbó do Moura”, o clarinete de Paulo dialoga com trompa e cuícas. As notas do sax-alto de “Peguei a Reta” (Porfino Costa) possuem a extravagância de quem está determinado a fazer o que precisa para atingir seu objetivo; é a base rítmica do violão de Horta, porém, que mantém essa ‘reta’, esse ‘objetivo’ ali, assinalado. “Notícia” e “Dois Sem Vergonha” evidenciam o célere instrumento de Zeca da Cuíca, sem deixar de destacar a envolvente pegada percussiva, que vai do lamurioso (“Se Algum Dia”) ao pré-carnavalesco (“Dia de Comício”)

A diversidade estética é a principal justificativa do título Confusão Urbana, Suburbana e Rural, mas o grande elo que conecta tudo isso é o do instrumentista Paulo Moura. É complicado destacar um solista quando se trata de música com uma base rítmica tão singular quanto a brasileira. Em Confusão Urbana… todos os envolvidos deixam suas marcas, mas é Moura, afiadíssimo e virtuoso, que faz deste um dos melhores registros instrumentais brasileiros.