
Manuela Leal é a produtora musical que dá vida ao projeto Anna-Anna
Em pouco mais de oito meses na cena, Anna-Anna apareceu repleta de mistérios para trazer ainda mais incertezas à música. No esquema do-it-yourself, a produtora musical Manuela Leal deu vida a uma personagem cheia de emoção, ainda que os temas de seu último EP, Last Night I Lit the Moon, traga referências lunáticas, científicas, ficcionais.
“Queria que fosse um projeto completamente autoral, mas não queria usar o meu nome”, disse Manuela em entrevista por e-mail ao Na Mira do Groove. “A ideia inicial foi fazer uma música de ‘pura emoção’”.
A sonoridade de Anna-Anna tem um aspecto lo-fi experimental que trafega numa selva intimista bem sinistra. Por mais que o minimalismo dê as diretrizes, há efeitos de lasers e uma atmosfera espacial futurista que deixa os vocais de Anna-Anna (ou Manuela) ainda mais reconfortantes, como se ela fosse uma espécie de mensageira que veio diretamente do futuro através de uma máquina do tempo.
A coluna de Paul Lester no New Band of the Day, do jornal britânico The Guardian, e o famoso site de streaming NPR já deram aprovação. E o Na Mira do Groove, também.
Confira a entrevista com Anna-Anna:
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Como veio inicialmente a ideia de fazer música, montar o projeto Anna-Anna?
Estudei música ainda criança e adolescente antes de ir morar nos Estados Unidos. Quando me mudei, ‘larguei’ a música e fui fazer outras coisas, mas a ideia sempre esteve presente. Eu estava morando em Nova York e vivia uma vida dupla: tinha um trabalho corporativo pra pagar as contas e um ateliê onde trabalhava como artista plástica. Não estava feliz e não estava indo pra frente. A música surgiu como um resgate e uma maneira de me comunicar com o mundo. Eu sabia que não ia tocar guitarra ou violão; com a tecnologia acessível de hoje em dia, é possível fazer tudo, ou quase tudo sozinha. Vim para o Rio com esse objetivo de gravar música, apesar de não ter a mínima ideia do que seria e de como faria. Trouxe um amplificador, microfone, teclado midi, micro Korg e outras coisinhas. E fui me inteirando melhor e intensamente com a internet para entender esses mecanismos. Engraçado que eu fiz tudo sozinha e não mostrei pra ninguém, a não ser meia dúzia de pessoas próximas. E, ao ler o que as pessoas têm escrito, aprendo bastante. Adorei fazer o projeto gráfico, enfim, foram todos esses pequenos passos. Também estava numa crise em relação às artes (plásticas), que é um meio rarefeito e relativamente fechado. Com música, eu vi que poderia construir imagens acessíveis e abertas a qualquer pessoa.
Quais foram as principais influências para o surgimento de Anna-Anna?
A ideia inicial foi fazer uma música de ‘pura emoção’. As letras são assim. O objetivo inicial foi fazer o vocal ‘close-miked’, ou de forma gravada e sem efeitos da maneira mais intimista possível. Inicialmente, eram só acordes. Tive que descobrir como construir em cima, até porque nunca tinha feito e não tinha a mínima ideia de como fazer nada. Fui influenciada por aquilo que estava ouvindo: Johnny Cash com Rick Rubin, Nick Cave, Nico, Marianne Faithfull, gostava também da produção do John Cale nos últimos discos da Nico… Queria que fosse um projeto completamente autoral, mas não queria usar o meu nome. Engraçado que eu contava pras pessoas que estava fazendo música eletrônica e é claro que as pessoas pensam em música ‘feliz’, pra dançar (rsrs!).
Estou escrevendo letras para um LP em inglês, mas quero fazer um EP em francês para distribuir na França mesmo. Seria uma resposta a Paul Valéry e a Baudelaire, uma carta sobre a vida interior e o mundo fragmentado em que vivemos
Você fala muito de lua, olhos de gato, lasers… essas construções de imagem vêm da ficção científica?
Na verdade, vêm de desenhos animados (rs!). A imagem do laser vem da She-Ra, falo também dos poderes de Greyskul. Mas, falando sério, eu queria ter superpoderes para afetar o mundo físico. Por isso [recrio] essas imagens. A ideia de ficção científica veio depois – com os sons dos sintetizadores, ficou mais evidente.
Ainda que haja muita ciência em Last Night I Lit the Moon, percebemos que há muita sentimentalidade também. É realmente essa a essência do seu som?
Com certeza. Queria também essa tensão entre o quente, da voz e das letras, e o frio da tecnologia (digital, principalmente).
Pensa em lançar algum novo EP ou tem projeções para um álbum?
Tenho vários planos. Estou escrevendo letras para um LP em inglês, mas quero fazer um EP em francês para distribuir na França mesmo. Seria uma resposta a Paul Valéry e a Baudelaire, uma carta sobre a vida interior e o mundo fragmentado em que vivemos. Apesar de tudo, o ‘espírito’ sempre vence a ciência. E quero fazer também um LP em português que descreve a ideia do Brasil e da saudade, da vivência através de uma imagem que vai além da própria imagem. Eu vivo de um país que só existe na memória. Cada um tem uma raiz psíquica que carrega a nossa identidade e o que a gente entende por mundo. Queria fazer uma coisa meio épica, tipo Odisseia, mas com músicas cantáveis. Nada disso ainda é concreto, mas vou realizar. O esquema lo-fi/independente é muito bom por isso.
Quando você define Anna-Anna, diz que ela representa todas as mulheres de filmes fictícios. E o seu som sugere uma humanidade futurista cada vez mais distanciada dos sentimentos. A personagem Anna-Anna serviria como um alerta para os perigos dessa falta de carga emotiva?
Ah, isso eu não sei (rsrsrs!). Na verdade, o nome Anna-Anna veio da Anna Magnani [atriz italiana que, dentre diversos filmes, atuou em Roma, Cidade Aberta] e da ideia de que muitas das mulheres-heroínas, as minhas pelo menos, são ‘Anna’s. Me lembro da adolescência no Rio de Janeiro, onde cheguei a frequentar clubes de rock. Naquela época, sair à noite era viver o seu ideal, o seu imaginário, ao vivo. Apesar do peso da cidade, a gente preserva a fantasia pra sobreviver. A gente sobrevive de semântica, mas só se alimenta a alma de metáfora.
Como você pensa ou trabalha as colagens sonoras para o trabalho de Anna-Anna?
Estou aprendendo, mas começa com os acordes e vou adicionando coisas, depois apagando outras. Prefiro o espaço entre o som e o silêncio. No início [o projeto Anna-Anna] era realmente a voz: gravei os vocais várias vezes. Cada frase foi recortada e recolada, organizada de acordo com a música, que veio depois.
Tem material inédito?
Terminado, ainda não.
E shows ao vivo? Já fez algum, recebeu propostas?
Ainda não fiz shows. Quero gravar (e ensaiar) mais coisas antes de fazer shows ao vivo. Ainda não fiz nem vídeos, estou organizando isso primeiro.
Já pensou em como fazer para apresentar ao público o som de Anna-Anna?
Bom, tenho pensado nisso, quero muito cantar. No momento, teria que fazer um esquema sequenciador com laptop e midis. Eventualmente teria uma “banda”, mas isso bem mais pra frente.
Internacionalmente, você vem chamando atenção, com boas descrições do The Guardian e do NPR. Acha que aqui no Brasil sua música terá essa boa recepção também?
Acho que não. Primeiro porque é em inglês, e as referências tipo Scott Walker são restritas. Além de você, ainda não tive respostas no Brasil. Mas é normal porque, afinal de contas, escrevo tudo em inglês e não posso achar que as pessoas vão gostar disso e daquilo. Mas vamos ver o que aconteceria escrevendo em português.
