Gravadora: Straight/Bizarre/Reprise
Data de Lançamento: 16 de junho de 1969

Das duas, uma: ou Trout Mask Replica pode ser o pior disco que você vai escutar na vida (mas isso pode e deve mudar); ou simplesmente estará fácil na sua lista de top 10. Sim, é aquele velho clichê: entre uma obra magistral e ridícula, a linha é muito tênue.

Clichês, para falar bem a verdade, são a verdadeira antítese desta obra-prima de Captain Beefheart and His Magic Band.

Como o próprio líder da banda já disse, “quero romper com o estado catatônico das coisas”. Isso inclui acabar com a batida ‘tum-tum-pah’ que viciou a bateria do rock (‘batida de coração de mamãe’, segundo Beefheart, aka Don Van Vliet), subverter a estética do blues com guitarras anacrônicas e explorar vocais não-usuais em composições estranhíssimas (‘Não quero matar meu porco chinês’, de “China Pig”, por exemplo).

A primeira audição de Trout Mask Replica é desconcertante. “Frownland” pode ser um soco no estômago para quem aprecia boas guitarras. Elas se entrecruzam, a bateria faz questão de evitar um senso rítmico e os vocais de Captain Beefheart soam aterrorizantes, como forma de expulsar o ouvinte logo de cara.

O universo de Captain Beefheart

É preciso enfrentar Captain Beefheart para gostar de Trout Mask Replica.

Para tanto, a melhor forma é esvaziar a mente e deixar fluir. Ou, se quiser levar a experiência mais a sério, chame uma criança e tente desvendar qual a reação dela diante do álbum. (Ainda não tentei, mas fica para uma futura experiência familiar.)

O melhor jeito de se adentrar na obra de Captain Beefheart é começar por “Moonlight On Vermont”. Os solos da guitarra blueseira de Zoot Horn Rollo (aka Bill Harkleroad) contrastam com os solavancos metálicos da guitarra de Antennae Jimmy Semens (aka Jeff Cotton). Nela, Beefheart clama pela ‘religião dos velhos tempos’ num lamento que se encontra com a bizarrice como forma única de expressar a admiração por uma lua bonita – onde até ‘elefantes escapam do zoológico com amor’.

O único single extraído do disco foi “Pachuco Cadaver”, onde a voz de Beefheart segue para uma poesia truncada que vai encontrar paralelo na obra da escritora Kathleen Winsor e gírias de motoqueiros dos anos 40 e 50. Aí, os contrabaixos explosivos de Rockette Morton (aka Mark Boston) tomam a frente das guitarras, e a bateria de Drumbo (John French) busca referências no free-jazz para criar uma sonoridade que poderia ser anárquica, mas em diversas audições revelam ser apenas o pavio que antecipa o solo absurdamente freakout de Beefheart no sax soprano.

“Ella Guru” pode ter uma letra que foge de padrões convencionais, mas é grande exemplo de como a estrutura de instrumentos de cordas podem dialogar mesmo de forma arrítmica. Poderia ser o verdadeiro ensaio do que se convém chamar avant-garde, mas nas próximas faixas a ouvir logo se descobre que é uma das canções mais próximas do blues aqui encontradas.

“Wild Life”, que chegou a se tornar single somente na França, é um choque de virtuosismos, ritmos e firulas sonoras onde ‘life‘ (vida), ‘wife‘ (esposa) e ‘wild‘ (ira) se confundem e entremeiam de forma que não se entende muito bem qual a pretensão de Beefheart: ele gosta da esposa? Tá irado? Desapontado por conta da dura vida depois de se casar? O ouvinte pode encontrar a resposta caso consiga decifrar as linhas de sax ou a bagunça das guitarras. Mas a grande verdade é que o compositor ofusca suas ideias; ele diz mesmo é que ‘uma vida irada é nossa melhor amiga’. E aí, a canção acaba por ganhar contornos ecológicos. Viu sentido nisso? Ouça pra conferir.

Caso goste da linha ecológica, preste bem atenção na complexa letra de “Fallin’ Ditch”, onde Beefheart supõe que nossas expressões dialogam diretamente com a natureza: ‘Quando eu chegar solitário, o vento vai começar a gemer’, já começa o músico.

Trout Mask Replica: sons (e diálogos) estranhos

Injustamente esquecido como um dos melhores vocalistas de todos os tempos, Captain Beefheart experimenta e muito seu poder, desleixo e experimento vocal em Trout Mask. Soa como um general mantendo a calma em “Steal Softly Thru Snow” (uma das melhores faixas do disco), ancião que admira a obscuridade em “Dachau Blues” e até simula a voz de um monge chinês em “Hobo Chang Ba”, estranhamente uma de minhas canções favoritas do álbum por ir de encontro a referências orientais.

Muitos diálogos e poesias que provavelmente seriam descartadas pelo primeiro desavisado que tem preguiça de ver a arte como confronto permeiam o disco. “Neon Meate Dream Of An Octafish” fala sobre copulação como metáfora de vivência natural, brincando com palavras como ‘tubes’, ‘tubs’ e ‘bulbs’. E, por falar em ‘bulbs’, olha só essa conversa entre Beefheart e o baixista The Mascara Snake (aka Victor Hayden):

– Fast’n bulbous? – That’s right, The Mascara Snake, fast’n bulbous. – Bulbous also tapered?

– Also, a tinned teardrop.

É assim que começa “Pena”, certamente um dos flashes mais estranhos do disco (sem deixar de captar os erros iniciais de pronunciação; por motivos misteriosos, Beefheart dizia adorar essa expressão). Jeff Cotton assume uma voz horrivelmente aguda, enquanto Beefheart rosna como um animal incontrolado ao fundo. O resultado é bizarro e divertidamente perturbador. “Nossa, não aguento mais ouvir aquilo”, chegou a dizer Cotton, de tão agoniada e exaustiva que deve ter sido a experiência.

Apesar de ter o nome de Frank Zappa como produtor, Trout Mask Replica é fruto de uma preocupação meticulosa de Beefheart com a sua música.

Cansado de ser comparado a Howlin’ Wolf por conta de sua voz nos discos anteriores, ele rompeu com a Magic Band tradicional depois de muitas brigas, criou a maioria das composições ao piano (muito inspirado pelas ideias de Music of Changes, de John Cage) e chamou uma horda de novos músicos para fazer Trout Mask sair do papel.

Se por um lado eles aceitaram a ideia de tocar linhas dificílimas de canções como “My Human Gets Me Blues” e “When Big Joan Sets Up” (exibindo mais um dos rosnados indefectíveis do cantor), por outro sofreram com o comportamento ególatra que beirava o tirano de Captain Beefheart. Dentre muitas lendas, há histórias de que ele prendia músicos dentro do banheiro e os obrigava a passar o dia inteiro ouvindo Lightnin’ Hopkins, Mississipi John Hurt e John Lee Hooker com a intenção de ‘purificá-los’ da música psicodélica que havia ‘infectado’ o pop.

Zappa praticamente cresceu junto com Beefheart, mas os dois nunca se deram bem por conta da acirrada disputa de egos. Sendo assim, a principal contribuição dele foi garantir um pouco de marketing pelo (e para o) selo Bizarre.

Se você reparar, vai perceber que a mixagem do disco é desprovida de toques profissionais – poucas horas foram necessárias para a edição final. Para uma obra tão iconoclasta, diversa e experimental como Trout Mask Replica, provavelmente muitos detalhes seriam deletados se caísse em mãos de experientes engenheiros sonoros, e o disco perderia a mágica que carrega no nome: palavras do próprio Zappa.

Obviamente o disco não obteve muito sucesso comercial; foi reconhecido tardiamente, como costuma acontecer a verdadeiras obras-primas. Apesar de ser o erigir de novas ideias na mente de Captain Beefheart, Trout Mask é o maior exemplo de como a arte pode ser elegante, intrigante, visceral e mente aberta ao mesmo tempo.

Muito já se disse que o álbum é viajante demais, experimental demais, doido demais, difícil demais ou subversivo demais. Concordo com todas essas declarações, e ainda me atrevo a complementar: sabendo de tudo isso, você ainda não teve curiosidade de bater de frente com Trout Mask Replica?

Tracklist:

01 Frownland 02 The Dust Blows Forward ‘N The Dust Blows Back 03 Dachau Blues 04 Ella Guru 05 Hair Pie: Bake 1 06 Moonlight on Vermont 07 Pachuco Cadaver 08 Bills Corpse 09 Sweet Sweet Bulbs 10 Neon Meate Dream of a Octafish 11 China Pig 12 My Human Gets Me Blues 13 Dali’s Car 14 Hair Pie: Bake 2 15 Pena 16 Well 17 When Big Joan Sets Up 18 Fallin’ Ditch 19 Sugar ‘N Spikes 20 Ant Man Bee 21 Orange Claw Hammer 22 Wild Life 23 She’s Too Much For My Mirror 24 Hobo Chang Ba 25 The Blimp (Mousetrapreplica) 26 Steal Softly Thru Snow 27 Old Fart at Play

28 Veteran’s Day Poppy

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Confira vídeo falando sobre a essência do que chamamos de música experimental:

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