Estamos em 2011, e o que mais ouvimos falar é que 2001 foi um bom ano por conta de Is This It, dos Strokes, e The Blueprint, de Jay-Z. Com o aniversário de 20 anos de Nevermind, o Nirvana realocou sua importância no âmbito do rock e, com isso, veio a avalanche nostálgica de discos de 1991: The Low End Theory, Achtung Baby, Screamadelica, Black Album… o Na Mira até fez uma seleção de 10 discos essenciais desse ano.

Outro ano que também deveria ser lembrado é 1971, também um dos ótimos períodos de que se tem notícia quando se trata de música. Tudo bem que o ano posterior, 1972, pode ter sido mais emergente por trazer clássicos brasileiros (Novos Baianos, Caetano Veloso, Rita Lee, Milton Nascimento) e internacionais (Lou Reed, David Bowie, Bob Marley, Exile On Main Street e uma porrada de outros), mas tem muito disco essencial desta data, como você pode conferir na lista a seguir.

Leia também:
• A segunda parte da lista de álbuns essenciais de 1971

Confira a primeira parte da lista de 20 discos essenciais de 1971, em ordem alfabética:

Just As I Am

Bill Withers

Gravadora: Sussex
Data de Lançamento: 1º de maio de 1971

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Olhando hoje, parecia ser impossível que a Sussex não conseguisse implacar a carreira de Bill Withers. Na produção, ninguém menos que Booker T. Jones para tocar teclados e alguns riffs de guitarra. Stephen Stills, outro músico experiente (de Crosby, Stills and Nash), fornecia o pano sonoro perfeito com suas guitarras para que Withers soltasse sua voz adocicada, com forte influência de Sam Cooke.

“Ain’t No Sunshine”, talvez mais conhecido por aqui naquela impecável interpretação de Michael Jackson quando ele ainda estava na Motown, é um dos grandes pontos altos, além do confessional single “Grandma’s Hands”, estabelecendo um belo diálogo com o R&B talvez devido às cordas espaçosas de Stills. Todas as músicas deste disco foram compostas por Withers, exceto os covers “Let It Be” (The Beatles) e “Everybody’s Talkin’” (Fred Nail).

Caetano Veloso (London, London)

Caetano Veloso

Gravadora: Polygram
Data de Lançamento: 1971

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O primeiro disco de Caetano Veloso no exílio após passar uma curta temporada na prisão durante a Ditadura Militar exibe um flerte natural do cantor e compositor baiano com referências estéticas europeias. Ele estava em Londres, talvez passando por uma transição da Tropicália para um gênero mais solidificado.

Aqui, a maioria das composições são em inglês, com destaque para “London London”, com uma viola joãogilbertiana e uma linda flauta transversal que transporta Caetano para as doçuras brasileiras. A única canção em português é a sua releitura de “Asa Branca”, clássico popular de Luiz Gonzaga, com pequenos surtos em sua voz que mostram a linha tênue entre equilíbrio e emoção que o cantor devia estar passando em terras estrangeiras.

Leia também: Transa, de Caetano Veloso (1972), na seção Grandes Álbuns

Tapestry

Carole King

Gravadora: Ode
Data de Lançamento: 10 de fevereiro de 1971

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Este foi o disco que marcou uma das fases mais produtivas de Carole King; momento em que James Taylor a encorajou a compor e gravar suas próprias canções. Mas não é só isso: Tapestry tem o peso de ser um disco que remodelou a forma feminina de gravar músicas, injetando voz, piano, sentimentalismo, descontração e, o melhor de tudo, a sinceridade.

Das faixas escritas pela própria Carole, destacam-se o boogie-woogie “I Feel the Earth Move”, a singela “So Far Away” e os vocais arrastados da cantora em “Way Over Yonder”. Releituras como “(You Make Me Feel Like a) Natural Woman” (popularizada por Aretha Franklin) e “Where You Lead” trouxeram novas perspectivas aos vocais femininos que, ainda hoje, permanecem atuais como nunca. Ouça Carole King e você saberá de onde vieram as referências de Adele e Lana Del Rey. Só pra registrar: foi considerado um dos 50 melhores discos de todos os tempos pela Rolling Stone.

Construção

Chico Buarque

Gravadora: Phonogram/Philips
Data de Lançamento: 1971

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Construção faz todo o sentido quando se contextualiza à sua época: o Brasil estava em um período complicado de repressão na Ditadura. Os músicos de bossa nova e da música de protesto ousavam nas letras confrontadoras, mas Chico foi quem melhor podou os versos para atacar por vias irônico-poéticas.

Na faixa-título, ele conta a história de um cidadão comum que serve como motor para o ‘desenvolvimento’ acelerado do país mas, quando ele morre ‘na contramão atrapalhando o público‘, vem a reflexão: é somente o governo quem negligencia o próximo? E o nosso papel de cidadão comum? “Desalento”, escrito em parceria com Vinícius de Moraes, prossegue densa, mesmo com a cuíca de fundo. E em “Samba de Orly”, Chico induz o ouvinte ao exílio ao falar ‘pegue esse avião‘ e me ‘traga uma notícia boa’.

Roots

Curtis Mayfield

Gravadora: Curtom
Data de Lançamento: outubro de 1971

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Jungle-fever total: na faixa inicial, “Get Down”, as percussões entram em vapor e a voz de Curtis Mayfield surge docemente, mas ainda assim incitando algo fervoroso, que te pega pelos solos bem sobrepujados de guitarra ou pelos ritmos africanos muito bem alinhados ao rhytm’n blues.

Só essa canção já justificaria o título do disco por buscar origens africanas, experimentando e remexendo tessituras sonoras em “Underground” e atingindo uma beleza rara em “Beautiful Brother of Mine”, provavelmente uma das faixas mais bonitas de Curtis Mayfield. Impossível não cair no gingado.

Live!

Fela Kuti & Africa ’70 with Ginger Baker

Gravadora: Regal Zonophone
Data de Lançamento: 30 de agosto de 1971

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Fela Kuti era um músico peculiar: ele mostrou o mundo a potência do afro-beat ao fortificar suas idiossincrasias políticas contra a corrupção que assolava sua terra-natal, a Nigéria. Suas apresentações ao vivo eram viscerais, evocando um ritual tribal que contagiava quem estivesse próximo.

Com o excelente baterista Ginger Baker (Cream) assumindo percussões, congas, bateria (é claro!) e até algumas incursões vocais intrépidas, tudo isso ficou ainda mais pungente. Não que o encontro entre Ginger e Fela tenha resultado em uma soma de influências: aqui, o roqueiro era um mero aprendiz de novas possibilidades musicais que estavam acontecendo no mundo. Deve ter ficado pasmo com a fúria de “Egbe Mi O” e entrado em êxtase com o solo de bateria em “Ginger Baker & Tony Allen”, fazendo direitinho a lição de casa ao injetar a aura afro-beat em um instrumento de destaque na música pop.

Leia também: O arrepiante musical de Fela Kuti na Broadway

Maggot Brain

Funkadelic

Gravadora: Westbound
Data de Lançamento: 12 de julho de 1971

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George Clinton tornou-se uma figura anacrônica da música funk e seguiu caminhos mais psicodélicos pelo gênero do que seus contemporâneos James Brown e Sly Stone. Boa parte de suas incursões ele conseguiu com o Funkadelic, grupo paralelo ao Parliament que tinha uma verve mais roqueira.

A faixa-título é uma abstração lunar instrumental que te põe em um foguete com os solos viajantes do guitarrista Eddie Hazel. Clinton soa quase esquizofrênico nas experimentais “Can You Get To That” e “Back In Your Minds”. Mas é “Super Stupid” que melhor contextualiza o Funkadelic em um cenário funk-rock que, até então, ainda não havia sido estabelecido por ninguém. Les Claypool (Primus), provavelmente, deve adorar essa música.

Leia também: Mothership Connection, do Parliament (1975), na seção Grandes Álbuns

Pieces of a Man

Gil Scott-Heron

Gravadora: Flying Dutchman/RCA
Data de Lançamento: 1971

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Você não está disponível para permanecer em casa, brother‘, começa o prolífico poeta das ruas Gil Scott-Heron em um de seus maiores clássicos, “The Revolution Will Not Be Televised”. Escrevi sobre Pieces of a Man em uma seção para o #Grandes Álbuns, mas é sempre bom ressaltar a importância daquele que é tido como principal referência no âmbito do rap, ainda que ele não tenha gravado músicas deste gênero.

Gil parte para o R&B e o blues neste registro, celebrando o otimismo através do sol em “I Think I’ll Call It a Morning” e a importância de mostrar a todos quem você realmente é em “When You Are Who You Are”. Infelizmente, o músico faleceu no início deste ano. Apenas um, entre os milhões de motivos para você não deixar de ouvir Pieces of a Man (e toda a discografia de Scott-Heron).

Leia também: Pieces of a Man, de Gil Scott-Heron (1971), na seção Grandes Álbuns

Led Zeppelin IV

Led Zeppelin

Gravadora: Atlantic
Data de Lançamento: 8 de novembro de 1971

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É quase unanimidade que este é o melhor registro do Led Zeppelin. Nem tanto pela balada religiosamente imoral de “Stairway to Heaven” ou pelos riffs de “Black Dog” que, como disse certa vez um jornalista do Pitchfork, te transporta para um “face a face com Deus”. Talvez o Divino realmente tenha feito das suas com uma banda como o LZ: afinal, todos os integrantes são absurdamente virtuosos, da tonalidade semi-estridente (só que duplamente agradável) de Robert Plant ao estilo de John Bonham na bateria que força um diálogo entre o jazz e o heavy metal.

Mas aqui há surpresas que não podem passar despercebidas nem mesmo por um mero adolescente que diz gostar de rock. Falo da orquestral “When the Levee Breaks”, da clássica “Rock And Roll”, do vigor gospel de “Misty Mountain Hop”… Até os ateus devem concordar que algum deus tem a ver com tudo isso.

Leia também: Por que Led Zeppelin III é um dos grandes discos de rock dos anos 1970

Songs of Love and Hate

Leonard Cohen

Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 19 de março de 1971

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Não é possível amor sem ódio; sabendo que o ódio é ruim, podemos decidir amar na tentativa de sair de uma miséria sentimental. Ou até vice-versa, só depende do ponto de vista. Dar uma explanação a tudo isso talvez só seja possível na música de Leonard Cohen. Logo ele, que tem uma voz anasalada e não é habilidoso em nenhum instrumento.

Entretanto, sua veia poética encaixa-se perfeitamente em nossos ouvidos por conta da densidade de suas letras. Este disco faz parte de uma trilogia, que começou com os intensos Songs of Leonard Cohen (1968) e Songs from a Room (1969). Aqui, ele evita a melancolia excessiva e até evoca o ouvinte, como é o caso de “Dress Rehearsal Rag”. Cohen não facilita muito mas, quando você entra de cabeça em seu universo, é como se estivesse flutuando em uma bolha.

Leia também: Crítica do álbum Popular Problems (2014), de Leonard Cohen

Confira também: 20 álbuns essenciais de 1971 (parte 2).