Gravadora: Motown
Data de Lançamento: 21 de maio de 1971
Quando Marvin Gaye apresentou pela primeira vez a versão de “What’s Going On” para Berry Gordy Jr., o chefão da Motown, ele praticamente a ridicularizou, dizendo que ninguém ia ter saco para ouvir “essa merda”. Foi uma discussão sem precedentes: Marvin ficou irritado e chegou a pedir a rescisão do contrato com a mais prolífica gravadora negra de todos os tempos.
Entretanto, Gordy Jr. nutria uma afeição muito grande com Marvin; afinal, ele era seu ex-cunhado, casado com sua irmã Anna Gordy até 1975.
Meio às avessas, lá foi ele chamar Smokey Robinson depois de sair injuriado da sala em que discutia com Marvin. “Temos um single de merda pra gravar!”. Todavia, Smokey via potencial na canção. Como principal compositor da gravadora, Smokey confiava na voz de Marvin Gaye e sabia identificar com primor uma música de qualidade.
“Percebi que eu devia deixar minhas fantasias em segundo plano se quisesse escrever canções que tocassem as almas das pessoas. Queria que elas tivessem uma visão do que estava acontecendo com o mundo”, revelou Marvin Gaye.
Motivações de Marvin Gaye
Existia um outro triste paradoxo que contribuiu para que a canção fosse gravada: Marvin Gaye estava devastado com a inesperada morte de sua companheira de composição, Tammi Terrell, que faleceu em 16 de março daquele ano vítima de um câncer no cérebro. Ele chegou a ficar dois anos sem se apresentar ao vivo e pensou em abandonar a carreira como músico.
Em meio a essas turbulências pessoais, nasceram os primeiros singles de um dos maiores discos de soul de todos os tempos. Além de “What’s Going On”, Marvin já tinha as letras de “God Is Love” (que, de acordo com Gordy Jr., era jazzística demais e não tinha o apelo público das canções de três minutos) e “Mercy Mercy Me (The Ecology)” (“absolutamente sem sentido, você não tem noção sobre o que é ecologia”, disse Gordy Jr. quando a ouviu pela primeira vez).
Por mais que a composição questionasse a ordem dos acontecimentos em um contexto universal, “What’s Going On” era mais o reflexo de um difícil período existencial na vida do músico. E, quando ele chegou na Motown para sugerir a gravação do single, estava certo de que era esse o caminho a seguir. Ou então, só Deus sabe o que aconteceria se Berry Gordy Jr. não fosse condescendente.
Marvin Gaye também já estava cansado de gravar os singles que Berry Gordy pedia. Ele precisava dessa ruptura para se encontrar artisticamente.
Contrariado, Gordy Jr. gravou o single. O surpreendente é que, por mais que a Motown temesse, foi um estouro. Quando foi recém-lançado nas lojas, Berry Gordy Jr. ficou pasmo com a notícia de que “What’s Going On” havia vendido mais de 100 mil cópias. Voltando de férias, o nº 1 da Motown decidiu que o álbum deveria ser lançado o mais rápido possível.
Com a permissão concedida, lá foi o músico preencher esse vazio com faixas (além das já citadas) como “What’s Happening Brother”, uma espécie de continuação de “What’s Going On”, e “Save The Children”, que ia absolutamente contra qualquer proposta comercial sugerida pelo ‘chefe’ – as vibrantes percussões ao fundo formando um contraponto à voz lúgubre de Marvin. Talvez fosse exatamente esse o contraste necessário para enfatizar o otimismo da canção.

What’s Going On: guerra e esperança
Todos esses acontecimentos já seriam um ótimo pano de fundo para a mística envolta de What’s Going On. Outro fator que contribuiu imensamente para a submersão pessoal de Marvin Gaye foram as tristes cartas de seu irmão enviadas da Guerra do Vietnã, sem contar os problemas familiares, principalmente com seu pai (que o assassinou em 1º de abril de 1984).
Ele estava com a alma afetada, e percebeu que tinha que tocar a alma de seus ouvintes através da música. “Percebi que eu devia deixar minhas fantasias em segundo plano se quisesse escrever canções que tocassem as almas das pessoas. Queria que elas tivessem uma visão do que estava acontecendo com o mundo”, revelou o músico.
What’s Going On, o disco, revela a esperança de um soldado recém-chegado do Vietnã, que se depara com uma América devastada pelas falsas esperanças. É a visão particular de um guerreiro que teve que repensar sobre a vida depois de passar pela triste experiência de ver as mais horrendas formas de morte. De acordo com Marvin Gaye, o amor seria a única saída para tais destrezas.
Em “Right On”, por exemplo, o violino clássico remonta à tristeza da guerra. Entretanto, as flautas e o piano se sobrepõem aos contidos versos de Marvin Gaye, garantindo a deixa perfeita para o início de “Wholy Holy”. Fica evidente a transcendência da reflexão, oriunda de uma tragédia, à luz no fim do túnel, sugerindo que tudo pode melhorar.
O incrível é que, mesmo 40 anos depois do lançamento de What’s Going On, ainda precisamos nos apoiar nas mensagens de Marvin Gaye. Este é um disco que se renova a cada ano que passa. Sábia a decisão da Motown em lançar uma edição de luxo do álbum.
Abaixo, ouça What’s Going On na íntegra:
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