Prince Roger Nelson é o nome dele. Gênio da guitarra e multi-instrumentista de mão cheia, ele rompeu as barreiras do que seria um rock star e um astro pop, em tempos em que tribos se dividiam.
Viva a união, viva o sexo, viva a diversão, dizia ele repetidas vezes em canções que não distinguiam solos eletrizantes, efeitos malucos de sintetizadores e, claro, um groove que se tornou marca registrada de tudo que fez em quase 40 anos de carreira.
Dono de uma grandiosidade que contrasta com sua baixa estatura, Prince esteve à frente do tempo em inúmeros aspectos. Quando pouco se falava do machismo predominante no rock, ele já contava com a The Revolution arregaçando nas turnês, com performances impressionantes da tecladista Lisa Coleman e da guitarrista Wendy Melvoin.
Seus shows, claro, são espetáculos à parte. Ele lotava o palco com cenário futurista, músicos de diferentes escolas e os preenchia com danças intrépidas, baladas arrasadoras e uma dinâmica que, desde então, continua influenciando as apresentações do mundo pop.
Ao lado de Michael Jackson, Prince ensinou toda uma geração de artistas a montar verdadeiras apresentações. Ele é a ponte que liga Stevie Wonder a Beyoncé, Sly and Family Stone a Madonna, Marvin Gaye a Bruno Mars.
Dois anos após sua sentida partida, Prince tem despertado cada vez mais interesse nas novas gerações, principalmente após seu catálogo ter entrado nos principais sites de streaming – primeiramente, em uma parceria que fez com o TIDAL, ainda vivo, que contém não apenas seus grandes clássicos, mas bootlegs raros, como o ‘maldito’ The Black Album (explicamos aí embaixo o motivo).
Quanto aos demais discos e videografia – incluída há pouco tempo no YouTube – foram décadas de rejeição. Ainda nos anos 1990, ele pediu a seus advogados que ficassem de olho em seu material publicado sem autorização na rede. Diante dos vários vazamentos de discos, Prince diria a célebre fase: “a internet está acabada”. Sua precoce partida, em 21 de abril de 2016, é a prova de que estava equivocado.
No dia em que completaria 60 anos, postamos parte de sua discografia comentada. Este é um projeto que o Na Mira idealiza há um bom tempo – na esteira do que fizemos com David Bowie e Tim Maia, por exemplo – mas digerir e reprocessar tudo que ele fez é algo que leva tempo.
Para ajudar, eis uma playlist com vários clássicos e pérolas de sua discografia (confira e siga dezenas de playlists no perfil do Na Mira no Spotify):
Para não perder o timing de uma data tão importante, reavaliamos a discografia de sua fase áurea, até o lançamento da trilha de Batman (1989). Vamos atualizar este artigo mais tarde, a fim de completar todas as suas obras de estúdio.

For You
Gravadora: Warner Bros
Data de Lançamento: 7 de abril de 1978
Avaliação: 3.5/10
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Quando tinha apenas 14 anos, Prince já era o que chamamos de multi-instrumentista: tocava piano, guitarra, baixo e bateria. Com 17, já era tido como uma promessa da pequena Minneapolis, detalhe que chamou atenção da gravadora Warner, que já fez questão de assinar uma tríade com o então jovem músico de R&B.
Mas, se tem uma coisa que For You deixa bem claro é: credenciais são insuficientes quando não se tem foco. Prince assume praticamente todos os instrumentos em seu álbum de estreia e, por mais que ele surfasse um pouco na onda do funk de Sly Stone e George Clinton e da eletrificação da disco-music de Donna Summer, ainda engatinhava rumo à idoneidade sonora.
Ele manda bem nos sintetizadores Moog, mas acaba falhando em preencher determinados espaços na longa “Just As Long As We’re Together”, por exemplo. Quando propõe um uníssono entre baixo elétrico, synths e clavinete, temos “Soft and Wet”, um dos bons exemplos de onde ele queria chegar no quesito sensualidade. Claro que tratava-se de um broto, mas a ousadia de For You já dava os primeiros passos de onde Prince estava afim de chegar. Porque criatividade, todos sabem, também vem com o tempo.

Prince
Gravadora: Warner
Data de Lançamento: 19 de outubro de 1979
Avaliação: 5/10
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No fim dos anos 1970, o funk se aproximava ao esgotamento no quesito inventividade. Seu swing nunca morreu, mas era difícil pensar em alguém com o mesmo direcionamento de James Brown, Bootsy Collins ou George Clinton se não tivesse um appeal a mais. Os que ajudaram Prince a figurar na 28ª posição das paradas de soul e R&B com o álbum de estreia sabiam que ele tinha algo a mais. E, quem duvidava de sua versatilidade, provavelmente deve ter mudado de opinião ao ouvir o segundo disco de Prince.
Não que o flerte com a música romântica, o slow -funk e o foco nas melodias salvem Prince de ser um bom álbum. Isso porque a teoria ainda estava longe de materializar um álbum realmente inovador. Mas, claro, tem os quases. A quase empolgação de “I Wanna Be Your Lover”, o quase estouro de “Bambi”, o quase acerto na dose de sensualidade do funk de “Sexy Dancer”…
São exemplos de um desajuste incompatível com seu virtuosismo. Talvez a demora para engrenar justifique a solidez dos resultados posteriores de Prince, que ainda engatinhava em seu segundo álbum.

Dirty Mind
Gravadora: Warner
Data de Lançamento: 8 de outubro de 1980
Avaliação: 8/10
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Na teoria, é difícil explicar a mudança estética de Prince para Dirty Mind, seu primeiro grande álbum. O entrosamento do baixo, da guitarra e dos efeitos parecem multiplicar o swing de suas 8 musicas, mas é na ousadia que está a grande sacada. Uma coisa é você ser sexy e garantir boa posição nas paradas Billboard com “I Wanna Be Your Lover”; outra totalmente diferente é revelar um tipo de dupla sexualidade, bem explícito em “Sister”, em que ele canta ‘incesto é tudo aquilo que eles dizem ser’, ao revelar que ela, aos 32, só fazia sexo com ele, aos 16. Seria a típica situação favorável a ele, se não houvesse laços familiares.
Entretanto, o ponto não é este. Embora houvessem rumores de Prince estar mencionando a meia-irmã Sharon Baker, “Sister” revela a fantasia de um sujeito que esteve cedo em contato com os aprendizados do sexo. E eles são levados às últimas consequências em Dirty Mind. A faixa-título, que praticamente definiu a sonoridade do pop dos anos 1980, deixa bem claro que Prince só quer dar uns pegas, transar e depois ficar na dele: ‘não quero te machucar/Só quero te por pra deitar’.
Enquanto rolavam as primeiras comparações com o ‘bonzinho’ Michael Jackson, Prince estava confrontando seus próprios desejos, chegando a um estilo próprio de funk-rock e se distanciando das sombras de suas influências com o nível de testosterona lá no talo (duvida? Ouça “Do It All Night”). MJ até que tentou ser valentão em Bad (1987), mas, sete anos antes, Prince já tinha dado a verdadeira aula do que é ser bad boy com autenticidade.

Controversy
Gravadora: Warner
Data de Lançamento: 14 de outubro de 1981
Avaliação: 8.5/10
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A obra de Prince atingiria seu ápice nos anos 1980, e Controversy teria uma imensa contribuição nesse sentido. A partir daqui, ele começa a trazer participações mais ativas dos músicos em estúdio. Ele, claro, está a par de toda a instrumentação, mas também contou com vocais e teclados de Lisa Coleman em três faixas (a faixa-título, “Ronnie, Talk to Russia” e “Jack U Off”, que também foi gravada com Dr. Fink e Bobby Z nos teclados e bateria).
O que era libido em Dirty Mind tornou-se clamor por uma liberação sexual mais abrangente. Estamos falando de um período em que o rock ainda estava fortemente associado ao conservadorismo (permanece ainda hoje, infelizmente), principalmente com o estouro da disco e da eletrônica, movimento que, para alguns, não podia estar associado à brutalidade das guitarras.
A faixa-título, por exemplo, menciona as dubiedades da sociedade e da imprensa diante de temas polêmicos – em que Prince, claro, passava a ser o centro das atenções, principalmente quando se falava em religião e sexualidade. Com “Ronnie, Talk to Russia”, ele nos apresentaria sua posição política em uma de suas músicas mais roqueiras até então. A seguinte, “Let’s Work”, perde em inspiração, mas ganha em simbologia por sua associação mecânica do funk com o trabalho.
A partir de Controversy, Prince parece imbuído de maior energia em seu canto. “Sexuality” permanece chamuscando até os dias de hoje, e até takes mais estranhos, como “Do Me, Baby” e “Annie Christian”, se diferenciam pela abordagem cósmica de seus experimentos anteriores.

1999
Gravadora: Warner
Data de Lançamento: 27 de outubro de 1982
Avaliação: 10/10
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Quem achava que disco-music e rock não poderiam coexistir, provavelmente não escutou 1999. Existe um bom motivo para que este 5º álbum seja visto como um dos grandes destaques de sua discografia: finalmente estava sedimentada a estética Prince – tanto que ele já não precisava se aventurar sozinho em estúdio.
Já experiente em fazer turnês, ele contou com Dez Dickerson na segunda guitarra, Wendy Melvoin nas percussões e guitarras e a já grande parceira Lisa Coleman nos teclados.
O título fazia jus à proposta: com o devido destaque, sua sonoridade ia direto para os anos 2000. Era uma expressão artística totalmente andrógina, em que a faixa-título era uma espécie de hino. ‘Mas quando acordei esta manhã/Poderia ter jurado que era dia do julgamento/O céu estava todo púrpura/Tinha pessoas correndo por toda parte‘, diz um trecho da canção, que logo revela: ‘Mas a vida é só uma festa/E festas não são feitas para durar/A guerra está em nossa volta/Minha mente diz: prepare-se para lutar‘.
A faixa-título, por si só, seria o protótipo do som cyberfunk. Mas aí entra a baladaça “Little Red Corvette” na sequência, a fuzarca de “Delirious” e um de seus melhores takes para as pistas, “Let’s Pretend We’re Married”, com o baixo permanentemente acelerado. Comparado aos antecessores, 1999 chega a ser longo. “D.M.S.R.”, “Automatic” e “Lady Cab Driver” têm, cada uma, mais que 8 minutos, por exemplo. Mas, nada disso importa. Demorou 4 álbuns, algumas reformulações na banda que criou, The Revolution, e umas boas milhas de estrada para que as várias fusões resultassem na idoneidade Prince.
Leia também: 1999, de Prince, na seção Grandes Álbuns

Purple Rain
Gravadora: Warner
Data de Lançamento: 25 de junho de 1984
Avaliação: 10/10
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Quando mostrou a primeira versão do single “Purple Rain” para os integrantes da The Revolution, Prince tinha em mente uma música country. “Então, um dia ele decidiu dar um tapa nela em uma gravação”, contou Lisa Coleman sobre a música. “Wendy Melvoin começou a bater aquelas grandes cordas e isso remodelou a ideia que ele tinha para a canção”.
A primeira vez que “Purple Rain” foi apresentada, em Minneapolis, foi registrada e acabou entrando no filme que popularizaria de vez a persona de Prince, levando a mais de 20 milhões de cópias vendidas do disco.
Em Purple Rain, Prince já começa a assinar com a The Revolution, dando papel mais ativo aos músicos durante as gravações. Ter acertado no principal hit do próximo trabalho levou o músico a redefinir a ideia do disco. Mais baladas e temas desacelerados preponderam – mas sem perder aquele ar de funk-de-ficção-científica que ele havia burilado tão bem, vide “Take Me With U” e “Computer Blue”.
Entretanto, as grandes joias do álbum estariam em seu lado B. A linha de produção que resultou na sequência de “When Doves Cry”, “I Would Die 4 U”, “Baby, I’m a Star” e, claro, “Purple Rain” é de uma qualidade raramente atingida no universo pop. Verdadeiro clássico.

Around The World in a Day
Gravadora: Paisley Park/Warner
Data de Lançamento: 22 de abril de 1985
Avaliação: 9.5/10
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Junto ao filme, Purple Rain tornou-se o megahit de Prince, o seu próprio Ziggy Stardust. E, assim como o colega de profissão David Bowie, ele decidiu que tinha que seguir outro caminho o quanto antes. Antes mesmo da turnê mundial de 1984 terminar, ele já estava com o projeto em mente – tanto que o título do álbum alude a essa viajeira toda.
Mas, engana-se quem achava que Prince seguiria a rebarba do sucesso. Aqui, guitarras se alternam com theremins, flautas, free-jazz e notas minimalistas de piano. Até mesmo o ambient tem lá sua força em temas como “Condition of Time”, que poderia muito bem ser o interlúdio de uma peça avassaladora na Broadway.
Around The World in a Day é o primeiro exemplo de tortuosidade de Prince. Incrível não é testemunhar ele redefinindo a si próprio em seu mix de Magical Mystery Tour com Here, My Dear; incrível é saber que ele gravou o álbum em pouquíssimos dias, no final de dezembro de um ano bem conturbado (que, se por um lado lhe rendeu o estrelato, por outro rendeu tristeza por ser o ano de morte de Marvin Gaye, uma de suas influências).
Prince redefiniu o que já havia elevado ao ápice de balada pop com “Paisley Park” e “Raspberry Beret”. “Pop Life” é o mais próximo do radiofônico que se poderia encontrar por aqui, o tipo de slow-funk que só Prince saberia fazer. “America” é uma de suas composições mais genuínas, porque confunde o desejo de ‘liberdade, amor, alegria, paz’ com as grandes ausências. Será que os EUA eram realmente para todos? Não dá pra dissociar o Prince otimista do Prince político, portanto, há de se questionar se a canção era mesmo uma saudação ou uma ironia.
Foi na contramão do que se esperaria de uma grande estrela que Prince trilhava, agora sim, o caminho mais interessante de sua carreira. Sexo e religião, para ele, eram a mesma coisa. Assim também era o direcionamento de suas músicas: joias e grandes hits confundiam os ouvintes que buscavam o melhor de Prince.

Parade
Gravadora: Paisley Park
Data de Lançamento: 31 de março de 1986
Avaliação: 8/10
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A segunda jornada músico-cinematográfica de Prince não foi tão bem-sucedida. Isso se olharmos apenas as vendagens do filme Under the Cherry Moon, em que o músico interpreta um interesseiro que se apaixona por uma jovem garota.
Ainda bem que não é preciso assistir ao longa para apreciar a trilha: a faixa que dá título ao filme é uma balada-thriller soturna. Boa, sim, mas pequena diante da linda “Sometimes It Snows in April”, uma espécie de folk gélido em que cada nota é supervalorizada. Poucos estavam percebendo, mas Prince estava se tornando um dos maiores compositores de baladas de todos os tempos, e eis aí um bom ponto de partida para quem duvida.
Outra prova de amadurecimento do Púrpura na composição pop veio com “Kiss”, até hoje uma de suas músicas mais celebradas. Deu muito certo minimalizar as intersecções entre funk, rock e ficção científica que ele burilou bem no início da carreira.
Inteiramente composto em 1985, pouco depois da turnê de Purple Rain, Parade trouxe a psicodelia de Around The World in a Day em sua bagagem – especialmente em “Christopher Tracy’s Parade” e “Do U Lie?”, que parece um single de Natal subvertido em história de romance pitoresco. É em “Girls & Boys” e “Anotherloverholenyohead”, porém, que Prince direciona o pop a um caminho mais inventivo, com mais uso de metais e distorções.

Sign O’ The Times
Gravadora: Paisley Park
Data de Lançamento: 30 de março de 1987
Avaliação: 10/10
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Após romper com a nomenclatura The Revolution, Prince decidiu dar um gás no projeto de lançar um álbum duplo – ideia que já tinha desde 1985, ainda antes de Parade. Já com seu estúdio montado em Minneapolis, ele começou a gravar alguns esquetes do que se tornaria seu maior clássico, o álbum duplo Sign O’ The Times.
“The Ballad of Dorothy Parker”, por exemplo, foi do sonho à concretude em 24 horas. Ele brincou bastante com um sintetizador emprestado por Dr Fink, o Prophet-5, que redefiniu totalmente a sonoridade da baladinha “If I Was Your Girlfriend” e injetou força bruta no sci-funk de “Hot Thing”.
O ágil processo de criação de Prince dá a entender que muito de suas canções surgem da espontaneidade. A real é que ele dedicava muitas horas em suas músicas, portanto não há quem o acompanhe integralmente. De certa forma, isso justifica tirar o The Revolution da banda que, por mais que tenha se mostrado impecável nas execuções da porrada “Play in the Sunshine” ou da bela “Starfish and Coffee”, pouco participou do processo criativo de Sign O’ The Times. “Para ser bem claro, muito do que está nesse disco ele fez por conta própria”, disse Dr. Fink à BBC anos depois.
E tinha que ser ele mesmo. Quem mais conseguiria unir rock, funk, psicodelia e eletrônica sci-fi dentro de uma proposta pop única, jamais atingida? Há muito a se discutir se Sign O’ The Times seria realmente o melhor disco de Prince – afinal, o Púrpura é muito mais complexo do que o álbum que a revista TIME selecionou como o definitivo de toda a década de 1980. Mas que disputa o topo, não tenha dúvidas disso.
Leia também: 30 anos depois, Sign O’ The Times, de Prince, continua com vários questionamentos

The Black Album
Gravadora: Warner
Data de Lançamento: dezembro de 1987 (1ª versão)
Avaliação: 9.5/10
A história por trás do álbum ‘proibido’ de Prince é cheia de mistérios e especulações. Após a turnê de Sign O’ The Times, o músico ficou decepcionado pela baixa popularidade. Além de dar um tom funky mais agressivo, ele retomou várias faixas antigas que havia guardado. Naquele final de 1987, de inédito mesmo, ele tinha “When 2 R in Love”; as demais datam do período entre setembro de 1986 e março de 87. Por isso mesmo esta linda balada (também inclusa no posterior Lovesexy) acaba se destoando do funky-gangsta de “Le Grind” ou de toda excentricidade lisérgica de “Superfunkycalifragisexy”, maluca demais até mesmo para o repertório de um Parliament.
Mas, o que tem de demoníaco no disco? A não ser que você encare seus trejeitos malucos como o ápice da depravação sexual ou a freneticidade dos ritmos e efeitos (resultando em seu álbum mais avant-garde já feito) como um desvio comportamental pra lá de agudo, não tem nada de ‘oculto’ que remonte a algo malévolo, por exemplo.
Dizem as boas línguas que, quando apresentou o álbum pela primeira vez, em 1º de dezembro de 87, Prince trocou uma ideia com Ingrid Chavez, futura esposa do músico David Sylvian. “Aparentemente, Prince tinha algumas dúvidas sobre se deveria ou não lançar o disco”, descreveram os editores de uma página especial sobre o disco. “Em algum momento daquela noite, ele decidiu contra o lançamento”.
Segundo biógrafos, eles tomaram ecstasy na sede de sua gravadora, a Paisley Park. Prince parece ter ficado tão chapado, que viu as letras G-O-D e decidiu que as crianças não deviam entrar em contato com toda a maluquice de seu disco. Das 500 mil unidades que deveriam ser prensadas, sobraram pouco mais de 50 na edição alemã e 8 da versão americana original. Até chegou a sair uma edição em 1994 – talvez porque a Warner quisesse faturar por trás de todo o misticismo de raridade do álbum – mas ela não chegou a durar muito tempo nas prateleiras também.
Tratava-se de uma obra atemporal, obviamente. Pelo seu desvio de conduta e por toda verve experimental e tresloucada, prova de que Prince era mais incrível que as posições nas paradas Billboard supunham. Uma pena que ele tenha torcido o nariz deste grande disco de seu legado.

Lovesexy
Gravadora: Paisley Park
Data de Lançamento: 6 de maio de 1988
Avaliação: 9/10
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Para se redimir ao que chamou de ‘disco do demônio’, Prince propôs um tipo de som paradisíaco. Seus preceitos permaneciam: sexo e religião como o caminho à divindade.
Por mais que pareça antítese do Black Album, em Lovesexy as doses de excentricidade continuam em alta, e não digo isso pela não separação das músicas em faixas. A dinâmica de “Alphabet St.”, com os backing vocals e a intensidade entre baixo-percussões, de certa forma, anteciparam a batida do hip hop.
O single seguinte, “Glam Slam”, colocou Prince em competição com os rock stars da época – Aerosmith e Guns’N Roses, por exemplo – mas é em “Anna Stesia” que vemos o Púrpura se aproximar de uma abordagem mais ‘sacra’ de religião.
Mas, não se engane: Lovesexy ainda tem muito do Prince que mais gostamos, aquele pecador mesmo, lascivo, experimental e cheio de testosterona. Tudo isso exala na maioria das faixas do disco: na dinâmica torta de “Dance On”, na excitante jam da faixa-título e no encerramento com “Positivity”. Parece piegas diante de Black Album, mas a persona que depois ele enxergaria como errática estava incrustada demais no seu modo de fazer arte. Por isso mesmo, Lovesexy soa deliciosamente transgressor, mesmo que tenha surgido com o objetivo de ser totalmente o contrário disso.
Leia também: Como Prince moldou sua estética musical em Lovesexy

Batman
Gravadora: Warner
Data de Lançamento: 19 de junho de 1989
Avaliação: 7.5/10
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A essa altura do campeonato, Prince já era um mestre nas trilhas sonoras. Quando Tim Burton preparou o personagem de Jack Nicholson para o Coringa, se inspirou em “Baby l’m a Star” e “1999”. Cabisbaixo após a malfadada recepção do incompreendido Lovesexy, Prince visitou os sets de filmagem e decidiu criar uma trilha inspirada no filme. Poucas musicas do álbum entraram na edição final de Batman, mas Prince conseguiu o que queria: chegar ao topo das paradas.
Sim, ele tocou tudo e pensou em tudo, mas não executou da forma que se esperaria. O obscuro, aqui, adquire contornos de humor – isso significa que Prince captou bem a essência do que se tornaria o Batman de Tim Burton, vide a intensidade de “Electric Chair” e o drama inerente ao personagem principal bem assimilado em “Scandalous”. O dueto com Sheena Easton, em “The Arms of Orion”, demora pra convencer – diferente de “Partyman”, por exemplo, tema que melhor se aproxima ao doidivanas Coringa.
Tratando-se de método composicional, Batman é a obra mais cinemática de Prince. Estranhamente, o disco rompe com o modismo da indústria fonográfica em colar a carreira de artistas nas telonas. Prince era um ás no palco, mas não mandava muito bem como ator. Por mais que tenha redespertado o interesse em sua obra, Batman mirava algo totalmente diferente. Fez com que Prince se desviasse de temas polêmicos, como sexo e religião, para se aventurar em uma narrativa mais fantasiosa. Até hoje eu me pergunto: como ele conseguiu fazer de uma música tão estranha e cheia de experimentos, como “Batdance”, chegar ao topo das paradas? Mesmo após uma década tão prolífica em sua carreira, Prince continuava a nos surpreender, surfando em sua própria inventividade.

Graffiti Bridge
Gravadora: NPG/Warner
Data de Lançamento: 21 de agosto de 1990
Avaliação: 6/10
Ouça no Spotify (incompleto)
A trilha de Batman fez bastante sucesso e, embora Prince estivesse com mais um filme em mente, para o início da década de 1990 ele retoma o funk futurista de Lovesexy e parte para uma jornada em busca de novas intersecções estéticas.
Tudo bem, Graffiti Bridge deu início a uma trilha tortuosa que culminaria, lá na frente, em Prince tentando fazer rap. Mas o que o Púrpura institui aqui é uma jam certeira: chega com força no funk-rock “New Power Generation”, gerando sua primeira comunicação com os novos consumidores de música daquela época – além de atualizar as explorações do passado, que faz muito bem ao lado de George Clinton, em “We Can Funk”.
“Tick Tick Bang” retoma o tipo de som galopante de “Housequake” (de Sign O’ The Times). As participações de integrantes de sua antiga banda, The Time, fazem de “Love Machine” um dos takes mais sexy do disco – tanto que Prince acompanha apenas na guitarra. Há pouco espaço para melancolia: em “Melody Cool”, a cantora Mavis Staples comanda um mix de gospel e jazz cheio de vibe positiva.
*Os demais discos de Prince serão incluídos posteriormente.
