Melodrama fala sobre a complexidade de ser uma mulher recém-adulta num mundo que adora oferecer escapismos. 4:44 é mais que a redenção de uma figura pública; é um olhar melancólico sobre alguém que entendeu e faturou com o capitalismo. DAMN. é a resposta política a uma onda avassaladora de conservadorismo e Awaken, My Love sintoniza soul e hip hop em direção a um futuro que consagra as evoluções estéticas do passado.
Venceu, porém, 24k Magic, um ‘apanhado de músicas boas’. Quando recebeu o Grammy de “Álbum do Ano”, Bruno Mars nem tratou de escapar dessa premissa: disse que o talento dos indicados é que fez com que “quebrasse a cabeça” nos estúdios para… entregar um disco de músicas que possam fazer os outros dançarem.
Nada contra um disco ‘alegre’, ‘pra cima’, como é a proposta de Bruno Mars, aliás bem talentoso quando se trata disso. Mas o Grammy optou pela segurança de um trabalho que não contesta política, estética, individualismos ou, ao menos, enfrenta as muitas injustiças da indústria do entretenimento.
Janelle Monáe, que fez o melhor discurso da noite ao falar sobre como o universo musical é tão fétido quanto o do cinema (que deu voz ao movimento #MeToo no último Globo de Ouro), pode ter ficado feliz com a premiação de Bruno, mas ficaria mais feliz se qualquer outro dos indicados levasse.
Afinal, 24k Magic foi a pior de todas as escolhas, porque reduz a proposta de álbum a um mero apanhado de ‘músicas boas’ (conceito, inclusive, discutível). (Veja a lista completa das categorias, indicados e vencedores no final do post.)
Partidarismo de botequim
De todas as premiações de gala de entretenimento, o Grammy é a que carrega facilmente a pecha de ‘partidarismo de botequim’. Foi boa a ideia de ler alguns trechos da recente biografia “Fire and Fury”, de Michael Wolff, sobre o presidente dos EUA Donald Trump. Mas, colocar Hillary Clinton no meio de artistas como Cher, Cardi B e Snoop Dogg foi um tropeço dos grandes: simplesmente deu holofotes a um partidarismo político que nada contribuiu para a mensagem posta.
Seria Hillary a melhor solução a Trump? Foi exatamente isso que o vídeo deu a entender, infantilizando ainda mais quem tem o poder de causar destruição com o simples apertar de um dedo…
Mas, tratando-se de questões políticas, talvez o melhor discurso tenha sido o de Camila Cabello. A pop star de “Havana” reforçou o orgulho que sente de ter nascido na capital cubana, lembrou a batalha dos pais, que procuraram melhores condições nos Estados Unidos e falou bonito sobre como a imigração foi importante para o desenvolvimento do país. Isso, sim, é um ataque mais efetivo à mensagem xenófoba de Trump.
E, por falar em xenofobia, Bono acabou pagando mico em apresentação do U2 ao dizer “abençoe os países de merda”, em alusão ao recente discurso de Trump, que classificou países africanos como Nigéria e Namíbia como ‘shithole countries’. Repetir o termo só deixou as coisas mais constrangedoras. Mas nada, infelizmente, supera o constrangimento da decisão da equipe do Grammy em colocar para discursar um frontman masculino que reclamou que o pop anda “muito feminino” ultimamente.
Pois, se isso fosse realmente verdade, haveriam mais indicadas e vencedoras no 60º Grammy, algo que não aconteceu.
#TimesUp: protesto fraco
Na premiação, muitas artistas se vestiram de preto e levaram uma rosa branca, para simbolizar a solidariedade com o movimento #TimesUp, que fala sobre assédio no meio do entretenimento.
Lana Del Rey, Lady Gaga e Miley Cyrus deram coro, mas foi algo de menor comoção se comparado ao #MeToo, que rolou no Globo de Ouro.
Tudo bem, a indústria musical não tem um vilão à lá Harvey Weinstein, mas não podemos esquecer dos executivos que já abusaram do poder na indústria musical. Ninguém mencionou o nome de Russell Simmons, chefão da Def Jam acusado de estuprar pelo menos 3 mulheres. Mas a presença de Kesha ao lado de Cyndi Lauper, Camila Cabello, Bebe Rexha, Julia Michels, Andra Day e o coro das Resistance Revival cumpriram muito bem o papel de lembrar as artimanhas que seu ex-empresário, Dr. Luke, fez para forçá-la a ficar sob seu controle artístico após cometer abusos sexuais e psicológicos contra a cantora.
A apresentação de “Praying”, canção que fala justamente dessa experiência, certamente foi um dos grandes momentos da noite:
Powerful performance… @Kesha, @BebeRexha, @Cyndauper, @AndraDayMusic, and @Camila_Cabello on stage at the #GRAMMYs. pic.twitter.com/wEMrVUzH3l
— Mike Adam (@MikeAdamOnAir) January 29, 2018
Rap no Grammy
Outro momento indiscutivelmente alto do Grammy foi a apresentação de Kendrick Lamar, claro. Muitos rostos impressionados após contemplar o intermédio com o comediante Dave Chapelle, a execução de “XXX” com Bono e The Edge e a coreografia com vários dançarinos vestindo de soldados, como se fossem instrumentos de uma brincadeira de guerra pela nação mais poderosa do globo.
O poderoso medley, que incluiu versos de “DNA” e da sua participação em “King’s Dead”, de Jay Rock, foi sucedido por algumas vitórias importantes por parte do rapper, como melhor performance de rap, por “LOYALTY” (com Rihanna), e melhor disco de rap, por DAMN.
Em todas as categorias de rap que disputou, Kendrick Lamar saiu como vencedor. Embora seja um título impressionante, essa é a forma do Grammy deixar bem claro que prefere deixar o rap do jeito que está: preso a um nicho que não se compete, por exemplo, com o pop de Bruno Mars.
E, por falar em rap, deve ter sido uma noite não muito agradável a JAY-Z. Com o álbum 4:44 e as músicas “The Story of O.J.” e “Family Feud”, ele concorreu a 8 categorias da premiação. A verdade é que o mais indicado não levou uma estatueta sequer pra casa – algo que, infelizmente, também aconteceu com SZA, que pelo menos brindou o público com ótima performance de “Broken Clocks”:
.@SZA giving us everything we wanted and more during her #GRAMMYs performance. Earpiece problem? No sweat for #SZA. pic.twitter.com/1KUBJ3cfFC
— Mike Adam (@MikeAdamOnAir) January 29, 2018
Música latina no Grammy
Outro feito que simboliza a preferência do Grammy pelo habitual é dar à música “24k Magic”, de Bruno Mars, o título de melhor canção, atropelando os favoritos da noite pelo público, Luís Fonsi e Daddy Yankee, por “Despacito”.
A última canção não cantada em inglês a faturar melhor canção foi “Nel Blu Di Pinto Di Blu (Volare)”, de Domenico Modugno. Sabe quando? Em 1958, ou seja, há exatos 60 anos.
Quanto a isso, nada melhor que um tweet para explicar:
If “Despacito” isn’t good enough for a Grammy, then no Spanish-language song will ever be good enough for a Grammy https://t.co/G75QZqhNCI
— Vulture (@vulture) January 29, 2018
“Se “Despacito” não é boa o suficiente para um Grammy, então nenhuma música cantada em espanhol jamais será boa o suficiente para um Grammy”.
Lorde disse ‘não’
Premiações não mudam a indústria do entretenimento, mas gosto de pensar que algumas atitudes possam servir de exemplo. As performances de Childish Gambino e Lady Gaga deram tons emocionais. Kesha, por outro lado, foi o símbolo do que gostaríamos que fosse o #TimesUp: um verdadeiro movimento de conscientização sobre os abusos no mundo da música.
Kesha foi fabulosa, mas pena que o eco de sua mensagem não encontre respaldo na própria premiação que a convidou. Afinal, o Grammy não quis que Lorde, a única mulher indicada a melhor álbum da noite, se apresentasse de maneira isolada, conforme seus concorrentes.
Lorde foi chamada para uma homenagem a Tom Petty, ao lado de Chris Stapleton. Disse “não, obrigado” e, silenciosamente, mostrou que, além dos abusos sexuais, é preciso combater essas “pequenas coisas” que fazem com que os homens sejam os mais indicados e vencedores de uma premiação que, de igualitária, não tem nada.
Vencedores do Grammy 2018
Os ganhadores de cada categoria aparecem em negrito:
Álbum do ano
• “Awaken, My Love!” — Childish Gambino • “4:44” — JAY-Z • “DAMN.” — Kendrick Lamar • “Melodrama” — Lorde
• “24K Magic” — Bruno Mars
Gravação do ano
• “Redbone” — Childish Gambino • “Despacito (Remix)” — Luis Fonsi & Daddy Yankee feat. Justin Bieber • “The Story of O.J.” — JAY-Z • “HUMBLE.” — Kendrick Lamar
• “24K Magic” — Bruno Mars
Música do ano
• “Despacito (Remix)” — Luis Fonsi & Daddy Yankee feat. Justin Bieber • “4:44” — JAY-Z • “Issues” — Julia Michaels • “1-800-273-8255” — Logic feat. Alessia Cara & Khalid
• “That’s What I Like” — Bruno Mars
Álbum de Rap
• “4:44” – Jay-Z
• “Damn” – Kendrick Lamar • “Culture” – Migos • “Laila’s Wisdom” – Rapsody
• “Flower Boy” – Tyler, the Creator
Revelação
• Alessia Cara • Khalid • Lil Uzi Vert • Julia Michaels
• SZA
Performance solo de pop
• “Love So Soft”, Kelly Clarkson • “Praying”, Kesha • “Million Reasons”, Lady Gaga • “What About Us”, P!nk
• “Shape Of You”, Ed Sheeran
Álbum de pop com vocal
• “Kaleidoscope EP”, Coldplay • “Lust For Life”, Lana Del Rey • “Evolve”, Imagine Dragons • “Rainbow”, Kesha • “Joanne”, Lady Gaga
• “Divide”, Ed Sheeran
Álbum de rock
• “Emperor of Sand”, Mastodon • “Hardwired … to Self-Destruct”, Metallica • “The Stories We Tell Ourselves”, Nothing More • “Villains”, Queens of the Stone Age
• “A Deeper Understanding”, The War on Drugs
Colaboração em rap
• “Prblms” – 6lack • “Crew” – GoldLink featuring Brent Faiyaz & Shy Glizzy • “Family Feud” – Jay-Z featuring Beyoncé
• “Loyalty” – Kendrick Lamar featuring Rihanna
• “Love Galore” – SZA featuring Travis Scott
Música de rap
• “Humble” – Kendrick Lamar • “Bodak Yellow” – Cardi B • “Chase Me” – Danger Mouse, Run The Jewels & Big Boi) • “Sassy” – Rapsody
• “The Story of O.J.” – Jay-Z
Performance de rap
• “Humble” – Kendrick Lamar • “Bounce Back” – Big Sean • “Bodak Yellow” – Cardi B • “4:44” – Jay-Z
• “Bad and Boujee” – Migos featuring Lil Uzi Vert
Performance de duo ou grupo
• “Feel It Still” – Portugal. The Man • “Something Just like This” – The Chainsmokers and Coldplay • “Despacito” – Luis Fonsi and Daddy Yankee featuring Justin Bieber • “Thunder” – Imagine Dragons
• “Stay” – Zedd and Alessia Cara
Álbum com vocal de pop tradicional
• Tony Bennett Celebrates 90 – Dae Bennett, producer (various artists) • Nobody but Me (deluxe version) – Michael Bublé • Triplicate – Bob Dylan • In Full Swing – Seth MacFarlane
• Wonderland – Sarah McLachlan
Gravação dance
• “Tonite” – LCD Soundsystem • “Bambro Koyo Ganda” – Bonobo featuring Innov Gnawa • “Cola” – CamelPhat & Elderbrook • “Andromeda” – Gorillaz featuring DRAM
• “Line of Sight” – Odesza featuring WYNNE & Mansionair
Álbum dance ou de eletrônica
• 3-D The Catalogue – Kraftwerk • Migration – Bonobo • Mura Masa – Mura Masa • A Moment Apart – Odesza
• What Now – Sylvan Esso
Performance R&B
• “That’s What I Like” – Bruno Mars • “Get You” – Daniel Caesar featuring Kali Uchis • “Distraction” – Kehlani • “High” – Ledisi
• “The Weekend” – SZA
Performance tradicional de R&B
• “Redbone” – Childish Gambino • “Laugh and Move On” – The Baylor Project • “What I’m Feelin’” – Anthony Hamilton featuring The Hamiltones • “All the Way” – Ledisi
• “Still” – Mali Music
Música R&B
• “That’s What I Like” – Bruno Mars • “First Began” – PJ Morton • “Location” – Khalid • “Redbone” – Childish Gambino
• “Supermodel” – SZA
Performance Urbana contemporânea
• “Starboy” – The Weeknd • Free 6lack” – 6lack • “Awaken, My Love!” – Childish Gambino • “American Teen” – Khalid
• “Ctrl” – SZA
Álbum R&B
• “24K Magic” – Bruno Mars • “Freudian” – Daniel Caesar • “Let Love Rule” – Ledisi • “Gumbo” – PJ Morton
• “Feel the Real” – Musiq Soulchild
