Gravadora: Bad Seed Ltd.
Data de Lançamento: 9 de setembro de 2016
A música é uma forma de se comunicar. Para Nick Cave, ela foi apenas mais um dos meios. No ano passado, ele perdeu de forma trágica o filho Arthur, de 15 anos, que caiu de um penhasco.
Naquela época ele estava gravando Skeleton Tree, até que o incidente mudou tudo. Semanas depois da morte de Arthur, a imprensa britânica divulgava que ele havia ingerido LSD antes de morrer, e isso acabou contribuindo para que o músico permanecesse silenciado sobre a tragédia.
Por isso, além do disco, Cave registrou um documentário 3D, One More Time With Feeling, que, como o próprio título sugere, tenta reavivar momentos de felicidade com a família, despedaçada após o triste incidente com Arthur.
“Não é que ele não queira falar sobre o que aconteceu com Arthur, mas eu acho que ele apenas não quer fazer isso com um monte de estranhos”, disse o diretor do longa, Andrew Dominik, à Reuters. “Então, a solução dele foi fazer o filme, que vai dar um espaço mais seguro.”
Se o filme serve como aspecto imagético da saudade, o disco, Skeleton Tree, serve como espelho da dor de Nick Cave.
A tragédia de Nick Cave
Diferentemente de Eric Clapton, por exemplo, que também perdeu o filho de forma trágica, e concentrou toda essa dor na canção “Tears in Heaven”, Nick Cave optou por fazer com que as expressões artísticas (música e cinema) ajudassem ele próprio a compreender o que aconteceu.
A “informação emocional” gerada por Cave em Skeleton Tree é resultado de duas consequências pós-tragédia: 1ª e mais importante: a perda do filho; 2ª, a forma como o filho morreu.
E surgem as perguntas não respondidas: Como? Por quê?
Viver a experiência terrível é diferente de simular experiências terríveis. A própria ciência distingue isso. A vivência dá a congruência, algo que nem sempre se adquire quando, por exemplo, um artista pop tenta criar uma obra triste por se identificar com o tema. “A congruência facilita a compreensão da comunicação”, disse em uma pesquisa Paula Niedenthal, psicóloga social da Universidade Clermont-Ferrand (França). “Já a incongruência prejudica a compreensão”. E por incongruência podemos pensar nas inúmeras composições sobre perda e dor de artistas que nem chegaram perto de passar por isso.
Por isso Skeleton Tree é um disco que merece ser isolado das demais obras de Nick Cave.
São muitas coisas para lidar, e a linguagem musical deixa de ser um campo de experimento estético para se tornar um meio de transmissão. Parafraseando um estudo de George H. Pollock, “o parentesco carrega um fardo adicional: ter de lidar com a própria dor e ainda confortar os filhos vivos”. Pollock continua: “O equilíbrio entre a pouca comunicação e a comunicação elevada é uma tarefa que exige força hercúlea”.
Por outro lado, é diante de situações como a de Nick Cave que sua identidade artística é reforçada. Nota-se que a edificação sombria de suas músicas não se distancia, por exemplo, do que ele fez no anterior Push The Sky Away (2013).
A identidade é um elemento indissociável de um artista, mesmo que ele transgrida suas próprias convicções. Skeleton Tree certamente faz com que o ouvinte aproxime-se muito mais de um Nick Cave fragilizado, afinal, ele está passando por uma dor familiar. Nem que quisesse estaria incólume a essa dor. A canção inicial, “Jesus Alone”, deixa isso bem explícito: ‘Com a minha voz/Estou te chamando’.
Ouvir o disco é como ceder o ombro para que ele despeje sua tristeza. “Girl in Amber” é a prece particular do artista. “Anthrocene” faz um trocadilho com o termo paleontológico antropoceno, usado para descrever a era mais recente da Terra, e o classifica como um período trágico (‘Eis que os animais e as aves de todo o céu/Ouvi dizer que você foi lá fora à procura de algo para incendiar/A cabeça das crianças cai até os joelhos/Humilhado na era antropocena’). “I Need You” é o choro direto de Cave: ‘Porque nada mais me importa’.
A própria racionalidade do artista pode ser colocada em questão – mas não por seus ouvintes ou por seus admiradores artísticos. Somente Nick Cave, mais tarde, poderá olhar pra trás e quantificar o real significado de Skeleton Tree.
Porque, por enquanto, resta a dor. A dor compartilhada, que não nos gera prazer, mas nos ajuda a entender os sentimentos de um ser humano que, infelizmente, teve a família destroçada por uma tragédia. Seria um erro, uma injustiça comparar o álbum que expressa toda essa tristeza com sua vasta discografia.
Leia também: Crítica do disco Push The Sky Away (2013), de Nick Cave & The Bad Seeds
