Gravadora: Boogie Naipe
Data de Lançamento: 9 de dezembro de 2016
Avaliação: 7.5/10

O que nomes como o do escritor José de Alencar e a composição “Sinfonia nº 3”, de Beethoven, têm a ver com Mano Brown? São todos românticos, mas numa acepção voltada para o campo artístico.

O Romantismo tem impregnada a ideia de confrontar uma injustiça. No caso de Alencar, seu objetivo era colocar a figura do índio como a origem de uma cultura nacional vasta e complexa. Beethoven inspirou-se nos discursos de Napoleão Bonaparte e seu ideário de justiça social após a Revolução Francesa. E Mano Brown, desde os anos 1980 com os Racionais, acreditava que o rap seria a poesia de consciência social diante de tanto preconceito contra pobres, negros e favelados.

Uma das características dos românticos, de acordo com o crítico Antonio Cândido, é “acompanhar a diferenciação da sensibilidade local”.

Beethoven ficou puto quando soube que Napoleão iria tornar-se imperador, e mudou o nome da composição que inaugurou o Romantismo na música; Alencar tinha um projeto nacionalista em relação à literatura, tanto que acabou transitando para o realismo. E Mano Brown, agora, conclui uma mudança de abordagem já apontada desde 2009, quando o single “Mulher Elétrica” caiu na rede e fez com que muitos fãs dos Racionais questionassem a direção artística a ser seguida depois de Nada Como Um Dia Após o Outro Dia (2002).

Mano Brown romântico

Em Boogie Naipe, primeiro disco solo de Brown, estamos diante de uma expressão romântica do Romantismo. É uma transição: o homem que gritou ferozmente contra um sistema excludente agora passa a cantar o que diz o seu coração em canções repaginadas com o soul-funk-disco dos anos 1970 e 80.

Da preocupação com o coletivo, finalmente Brown se despiu para falar de amor, paqueras, frustrações e de rolês em bailes black.

O resultado é que essa transição não é assim tão impactante. Como é comum aos detratores de Brown, não há incoerência com o que ele disse anteriormente – a não ser que voltemos a canções como “Mulheres Vulgares”, de Holocausto Urbano (1990), que tem uma perspectiva misógina. (Quanto a isso, uma recente entrevista do cantor à revista Trip ajudou a elucidar: “A gente acaba sendo criado num sistema machista. É difícil pra gente admitir todos os direitos iguais. As mulheres vão assumir os melhores lugares”, disse o rapper, quando perguntado se era machista.)

Mas, como aliar o romantismo antissistêmico com algo próximo de uma paixão amorosa? A resposta está em Boogie Naipe.

Boogie Naipe: nova vibe

No disco, Brown não nega ser combatente de uma batalha contra as injustiças. Em “Gangsta Boogie”, ao mesmo tempo em que diz ‘Meu mau humor crônico/Longe do lar/A luto das ruas/Várias horas no ar’ – sintomático de seu comprometimento com uma causa, e não importa saber qual ela seja – ele tenta agradar uma mulher fruto de desilusão: ‘Falei pra ela/Comprei sapato de salto/Te trouxe colar/Não pergunte nem julgue de onde vem’.

Adotar esse lado mais sentimental pode ser percebido como duas coisas: uma tentativa de recuo diante da agressividade das letras dos Racionais; e uma forma de fugir da previsibilidade, uma preocupação tipicamente romântica.

Desde que surgiram os primeiros rumores de que Mano Brown ensaiava uma nova linguagem musical, as referências foram dichavadas aos poucos. Obviamente Tim Maia e Cassiano seriam dois ídolos a serem perseguidos – algo que quem vai atrás dos samplers dos Racionais já supunha. A última faixa de Cores e Valores (2014), “Eu Te Proponho”, sob um som funkeado de teclado, era a deixa perfeita: a canção termina com um trecho de “Castiçal”. Algumas canções de Boogie Naipe têm versos da música de 2014, mas nem tudo se resume a Cassiano.

Convidados especiais

Quanto a isso, é importante ter ciência dos parceiros convidados. O principal deles é Lino Krizz, que bem poderia ter seu nome estampado ao lado de Brown no álbum. Ele ajuda a imprimir versatilidade no trabalho: em “Mal de Amor”, ele segue uma linha meio Isley Brothers; ao lado de Hyldon, em “Baile Black”, ele serve o pano de fundo de um som à lá Sly Stone; e no principal single, “Amor Distante”, Krizz desfila com sua voz como se tivesse num teste para entrar na Motown.

William Magalhães, da Banda Black Rio, sabe como criar o dinamismo perfeito para injetar velocidade e sensualidade no canto de Brown. Em “Boa Noite São Paulo”, sua voz ao fundo lembra a movimentação das cidades, enquanto em “Louis Lane”, com Seu Jorge, ele se inspira nas pistas black que jamais sairão de moda. E o baile continua com “Dance, Dance, Dance”, com ajuda de Don Pixote.

O fato de ter vários participantes diz duas coisas de Boogie Naipe. A boa: ajuda a dar ritmo e balanço, evitando que o romântico soe piegas. O ruim: não vemos Brown por em desafio seu ímpeto de cantor. Os grandes louvores estão nas faixas menos eclipsadas, como é o caso de “Flor do Gueto” (com aqueles arranjos que remetem ao melhor de Gene Page) e com a melancolia de “Nova Jerusalém”.

Boogie Naipe tem canções radiofônicas poderosas, como “Felizes/Heart 2 Heart”, com participação e produção de Leon Ware, famoso por seu trabalho com gigantes como Marvin Gaye e Michael Jackson. Embora não seja tão nova assim, “Mulher Elétrica” é outra ponta de lança desse lado romântico de Mano Brown – algo pouco óbvio, que tem muito a ser lapidado, mas que ainda assim não foge da forte personalidade que tanto associamos ao rapper que agora assumiu a aura de cantor.

Leia também: Crítica do álbum Cores e Valores, dos Racionais (2014)