Gravadora: Rosa Flamingo
Data de Lançamento: 22 de julho de 2016
O FingerFingerrr já está na estrada há três anos. Apenas com o EP The Lick It (2012) e algumas faixas avulsas, o duo hoje firmado por Flavio Juliano (baixo, guitarra e voz) e Ricardo Cifas (bateria, teclado e voz) já realizou turnês fora do país, exportando um som garageiro lo-fi com muitos riffs e distorções – incluindo, na soma, teclados saturadíssimos e uma eletrônica destilada, tudo da forma mais ácida possível.
O primeiro álbum de fato, Mar, não tem nada da calmaria que aplainou a música brasileira. Eles lançaram o trabalho pelo selo Rosa Flamingo, de propriedade de Tiê, o que dá vazão para mais um equívoco. Todavia, o FingerFingerrr segue via contrária à suavidade.
Hiperbólica e esfuziante, a sonoridade do duo tem bastante da cena beatnick norte-americana – tanto que algumas das composições são em inglês, como a dobradinha “Hypnotize” (que muito agrada fãs de Parquet Courts) e “Make You See”, um indie-rock à lá Girls que vai se agigantando como as boas músicas da cena grunge: começa quietinha, explode e retorna ao normal.
Apesar de ser uma estrutura bastante explorada no rock, o duo afirmou ter testado novos instrumentos, como um synth compacto, para complementar o baixo e bateria tão característico. O resultado, em “Make You See” ficou bastante instigante, embora não seja uma canção tão original quanto “Pyrrhic V”, que faz com que o peso e a dinâmica das guitarras e baixo tomem os holofotes num estouro bem mais rasgado, mais convincente, mais estratosférico.
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Hiperbólica e esfuziante, a sonoridade do FingerFingerrr tem bastante da cena beatnick norte-americana – tanto que algumas das composições são em inglês
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As músicas de Mar raramente ultrapassam os dois minutos, e isso se deve mais à percepção temporal de como explorar a linguagem do rock’n roll, do que uma essência punk. A agilidade do hard-core, os urros amalucados e as distorções musicais são intrínsecos ao FingerFingerrr, mas não porque respondem a uma demanda carente dos preceitos roqueiros, e sim por resultados mais nevrálgicos da cena lo-fi paulistana.
Antes de ganhar expressividade como forte candidata à banda garageira, o FingerFingerrr não se distancia daqueles projetos que descobrimos deliberadamente ao explorar a tag Brazilian do BandCamp. Isso pode ser percebido, principalmente, na segunda metade de Mar. Em “Kanye”, por exemplo, a jam guitarras vs. synths é protagonista, enquanto “X” mimetiza robôs que exclamam ‘Mente, deite, fode, foge’ antes da estranha aparição de Luiza Lian cantando: ‘Pra cada palma, penso se vai chegar/Mas nunca volta, nem consegue gozar’. É o mundo de Ela, de Spike Jonze, se aproximando, e a gente lidando com o sexo de formas nunca dantes vistas.
Uma crítica à Mar seria a suposta falta de coesão. Sob uma outra perspectiva, talvez essa seja uma das grandes qualidades do disco, e não porque o afasta das cartilhas do mainstream, mas porque mostra que a falta de obviedades ainda é a principal sacada de um disco original e de qualidade.
