Gravadora: Ceia
Data de Lançamento: 15 de março de 2019
Disco da Semana: Djonga | Ladrão
Quando Djonga surgiu no cenário, o rap de Minas Gerais já dava cara de que iria estourar. Heresia (2017) acelerou este processo por conta de característica rap-holofote que forma o elo de ligação entre ele, Baco Exu do Blues e Don L – todos fora do eixo Rio-São Paulo, que desde os anos 1980 mantêm a hegemonia da cena.
Em seu terceiro disco, Ladrão, o estilo de desencadeamento de flow e composições sobem alguns degraus de evolução.
A ideia por trás do título é bem clara: se apropriar o termo, muito utilizado no senso comum (racista), para descrever o negro que considera ‘suspeito’ de ‘ladrão’, antes mesmo de se comprovar os fatos.

Por um novo patrimônio
Na alegoria de Djonga, se ‘ladrão’ é sinônimo de ser negro no Brasil, que tal usar esta acepção negativa para reparar aquilo que há de mais negativo em nossa história: séculos de roubo da dignidade dos negros por colonizadores brancos.
Nesse sentido, não se pode negar o caráter de manifesto da faixa-título: ‘Pronto pra roubar o patrimônio do cuzão/Que só se multiplica e ele não sabe dividir’.
Para Djonga, rap é a expressão do esforço de quem precisa fugir das estatísticas para não ser preso após os 18 anos. Vem do gueto e se fortifica no gueto para mostrar o retrato empírico de como a exclusão social, vinculada ao preconceito racial, forma a estrutura de um país que está longe de ser igualitário.
Como combate, o rapper propõe uma importante etapa de autoconhecimento. Sua maior referência está no próprio seio familiar.
Em “BENÇA”, ele começa narrando a história da avó, que criou três mulheres sozinha na época da Ditadura, e se vê como privilegiado por ter tido pai e mãe presentes: ‘Olhe pra sua preta veia e entenda/Que não é em blog de hippie boy que se aprende sobre ancestralidade’.
O empirismo de Djonga
O profundo olhar para o passado é mais importante que a atuação no presente, segundo Djonga. Mais que reverência, trata-se da coleta in loco de valores e práticas que não estão nos livros de História.
Essa ancestralidade está intrínseca à sentimentalidade e apoio coletivo. O fato de Djonga ser pai, aos 24 anos, fortalece esse elo.
Por isso, na mesma medida em que fala com contundência sobre oportunismo e ideologia de ocasião de quem nunca esteve perto de vivenciar o que ele vivenciou, Djonga preocupa-se em falar de lealdade, família e esforço. Pouco importa que tenha sido ovacionado como um dos melhores rappers de sua geração.
Como diz em “VOZ”, as coisas não acontecem do jeito que queremos. O importante é saber qual a sua verdadeira essência enquanto indivíduo e manter seus valores.
Clique aqui e saiba mais sobre o disco.
Outros lançamentos relevantes:
• Danger Mouse & Karen O: Lux Prima (30th Century Records/BMG)
• Stephen Malkmus: Groove Denied (Matador)
• The Comet Is Coming: Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery (Impulse!)
• Vijay Iyer & Craig Taborn: The Transitory Poems (ECM)
• Snarky Puppy: Immigrance (Ground Up Records)
Leia também: Baco Exu do Blues e a intensa procura do ser em seu segundo disco: Bluesman (2018)
