Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 10 de janeiro de 2019
Avaliação: 7.5/10
A geografia já não importa tanto para o rap ser aceito no mainstream, o que é uma coisa boa. Talvez porque as distinções estéticas de um Don L ou Diomedes Chinaski não sejam mais tão pautadas pela naturalidade. Afinal, o rap é combativo em Minas, Ceará, Pernambuco, Rio, SP, onde estiver.
Isso gera uma bifurcação menos óbvia: um rapper não necessariamente precisa dar de bandeja seu endereço para ser aceito; por outro lado, se estamos falando de um gênero que abraça a comunidade regional, quer dizer então que existe uma homogeneização das problemáticas?
Na música de Nego Gallo, essa bifurcação resulta em um caminho paralelo que se encontra em várias quadras.
O cearense de Fortaleza traz histórias de amigos e vizinhos, como o prazer pela música tem a ver com a vivência nas ruas e muitas observações do que acontece nas favelas.
Nego Gallo e a empatia com as ruas
Ao contrário do que se convencionou a ser enfatizado no rap, Gallo não enaltece sua cidade ou seu bairro repetindo o nome da quebrada.
Essa ênfase é reforçada pela empatia que ele cria em suas letras: diz compreender o ecossistema do tráfico em “Onde Há Fogo Há Fumaça” e celebra a fusão com o funk em “DVD”.
Depois da introdução, Don L faz as honras de apresentar Gallo num som em alta combustão.
A próxima, “O Bagui Virou”, tem todos os elementos para se tornar o hit mais memorável de sua obra até aqui: um refrão pegajoso, um grave de estremecer e uma letra que reforça sua vontade de fazer as coisas acontecerem: sair com a garota que paga um pau, ganhar dinheiro e ter horas frutíferas em estúdio.
A pretensão musical de Gallo está na justaposição de batidas e letras sensatas. A produção de Léo Grijó e Côro MC bebe na fonte do rock, da eletrônica e do trap, na maioria das vezes inflamando o discurso do rapper, que soa enérgico tanto ao criticar a falsa devoção dos ‘cidadãos de bem’ quanto agradecer por um simples dia em que pode curtir o som de boa na quebrada.
Gallo sabe como ajustar seu flow a batidas de diferentes matizes sonoras. “Downtown”, por exemplo, tem uma levada ragga que aproxima sua música aos ritmos caribenhos. Já em “Acima de Nós Só o Justo”, o upbeat se alterna com notas soltas do que parece uma guitarra psicodélica.
É usando a dinâmica da pluralidade a seu favor que Nego Gallo convence de que é um Veterano pronto para chacoalhar a cena em seus próprios termos.
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