Era de se imaginar que, ao ser apresentada no Programa do Chacrinha, em 1985, a canção “Fricote” se tornasse o principal carro alegórico a carregar o que se tornaria a axé music.

O já experiente músico baiano Luiz Caldas, chamado de ‘Rei’ pelo apresentador, estava com pés descalços, roupas coloridas, exibindo toda a animosidade da canção. Estava inaugurado um movimento que se tornaria símbolo do Carnaval.

Na época em que Luiz Caldas e Paulinho Camafeu compuseram o clássico hit, o gênero axé ainda não existia. Foi mencionado, em tom de deboche, dois anos depois pelo crítico Hagamenon Brito. (Hoje em dia, ele reconhece o erro: “Acrescentei de forma pejorativa, achando que aquele som, que tinha a pretensão de ganhar metade do planeta, jamais conseguiria se tornar algo realmente forte e tão grande. Quebrei a cara”.)

É praticamente unânime o fato de que “Fricote” marca algo inaugural na música brasileira – tanto que esse é o motivo para, em 2015, comemorar-se os 30 anos da axé music.

Mas vale observar outro registro histórico.

Bem lá atrás, os pesquisadores de música engenharia acústica Dodô e Osmar foram responsáveis pela criação do primeiro trio elétrico, no Carnaval de 1950, em Salvador, tocando frevos do Pernambuco em cima de um Ford 1929.

Antes de lançarem, com Armandinho, o álbum Chame Gente (1985), hoje um clássico pouco reconhecido do gênero, eles já tinham desenvolvido melhor infraestrutura de amplificação sonora com seus trios elétricos.

Moraes Moreira, antigo membro dos Novos Baianos e um dos principais instrumentistas da cena que se consolidou como Pós-Tropicalismo, além de tocar guitarra no álbum, ajudou a compor canções como “Chame Gente”, “Guitarra da Terra” e “Casa Amarela”. É possível ouvir o termo axé em algumas faixas, sim. Mas a menção é feita à saudação do candomblé e da umbanda, religiões afro-brasileiras de forte presença na cultura baiana.

Apesar de ser taxada ‘música de festa’, majoritariamente associada ao Carnaval, o axé é um movimento musical legítimo. Ouça Chame Gente e irá perceber assimilações estéticas do reggae, frevo, forró, salsa e merengue, guitarrada paraense, música caribenha, tudo com bastante ênfase na percussão.

No expressivo hit que Luiz Caldas registrou em Magia (1985), há maior presença de ritmos eletrônicos – um trabalho lapidado entre guitarras e teclados, que foi diluído ao máximo e tornou-se um dos principais rascunhos do tecnobrega algumas décadas depois.

Ianá Souza Pereira, mestre em Estudos Comparados da Universidade de São Paulo (USP), assim definiu o gênero em artigo para a Revista África e Africanidades:

“É em meados dos anos 1980 que a música percussiva produzida pelos blocos afros, o samba-reggae e o ritmo ijexá dos terreiros de candomblé são incorporados ao repertório das bandas de trio, através de letras que celebram o universo negro, saindo dos guetos soteropolitanos para ocupar um lugar central no cenário musical baiano, e, posteriormente, se constituir como um polo criativo da música do Brasil. Sintetizando, desta forma, o megafenômeno Axé seria uma mestiçagem estética de frevo, fricote, galope, merengue e salsa com o samba-reggae, sem esquecer da pitada de ritmos oriundos da religião do candomblé”.

Voltemos, então, à apresentação de Luiz Caldas na TV. É salutar observar que a TV teria participação nesse processo.

Na apresentação, Luiz lançou uma coreografia, dançando pra cima e pra baixo, dando maior significado à sua criação. O significado era contundente: não era difícil criar uma composição, tampouco uma dança, como aquela.

Apesar da resistência de acadêmicos e críticos, o axé não demoraria a se agigantar. Cresceu, então, a demanda para que mais artistas como Luiz Caldas surgissem e dominassem a indústria cultural.

Majors como Polygram, Sony e Warner nem precisavam ter trabalho de ‘caçar talentos’ do gênero para catapultar no mercado: o empresário Wesley Rangel criou um dos estúdios de gravação mais modernos de todo o Nordeste, o Estúdios WR, que revelou inúmeros nomes efêmeros dessa cena. Dessa forma, as gravadoras só cuidavam da distribuição (e dos jabás, claro).

Em janeiro de 1992, o crítico e jornalista Aramis Millarch já catalogava o crescimento impressionante do empreendimento de Wesley:

“Somente nos últimos 8 anos, [Wesley Rangel] já gravou mais de 300 artistas, que somados alcançaram mais de 5 milhões de cópias vendidas por inúmeras etiquetas. Só o selo Nova República (…) fez discos com 11 artistas nos estúdios WR. Nomes famosos da moderna música baiana – como Gerônimo, Sarajane, Lazzo, Missinho, Luiz Caldas etc. – ao lado das bandas e blocos que, nestes últimos anos, tem se projetado inclusive internacionalmente – podem ser encontrados normalmente nos corredores e estúdios do WR, no bairro da Canela, em cujos espaços já nasceram centenas de composições”.

Com o sucesso de público, Luiz Caldas e Sarajane passam a ser frequentadores assíduos do quadro Discoteca do Chacrinha, dando abertura para que outros nomes dessem as caras no mercado – nomes como Chiclete com Banana, Asa de Águia e Daniela Mercury.

Antes que o axé chegasse ao esgotamento total, estado em que se encontra atualmente, percebia-se de longe sua relevância. Afinal, o gênero sedimentou a miscigenação rítmica e, aceite ou não, essa possibilidade de mistura ainda hoje é determinante no surgimento de novas cenas musicais.

Forró, música caribenha, reggae, afoxé e, inclusive, samba, são alguns dos muitos ingredientes que cabem no liquidificador da axé music.

Há, claro, efeitos nocivos dessa variante. A menos óbvia é que condicionou vanguardistas musicais a uma metalinguagem de expressões musicais unicamente brasileiras. Não que isso seja culpa do axé. Ora, como o próprio Caetano Veloso já endossou, o axé tem parentesco com o Tropicalismo, que revolucionou a música brasileira dos anos 1960 utilizando essa mesma metalinguagem (mas, por outro lado, dinamizando com referências estrangeiras). Noutras palavras, o axé nada mais é que a antropofagia em prol da alegria (um processo teórico tão controverso que poucos ousariam pregá-lo).

Importante que o termo antropofagia sirva, mesmo como nota de rodapé, quando se fala de axé. Quando Caetano e Gilberto Gil citaram Oswald de Andrade, teorizaram a própria desconstrução da música brasileira naquele momento. O axé, muito pelo contrário, não surgiu com esse propósito. Tendo em mente que sua origem mais tem a ver com a espontaneidade de Moraes Moreira, que decidiu cantar num trio elétrico apenas de música instrumental, do que uma apresentação de Luiz Caldas na TV, vemos que o gênero é fruto comportamental de um momento específico do calendário nacional: o Carnaval (enquanto o Tropicalismo surgiu como antítese da música de protesto e do comportamento conservador que reinava na MPB dos anos 1960).

Houve momentos de inventividade no axé, principalmente entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Os já citados discos de Armandinho, Dodô e Osmar, algumas obras de Luiz Caldas, Olodum e, claro, o também clássico “É d’Oxum”, de Gerônimo, figuram o auge do gênero.

Alguns críticos e teóricos sustentam, ainda, que o axé possibilitou a abertura musical de outros gêneros. O jornalista e escritor Ricardo Alexandre é um deles:

“Se quer saber, foi a axé music que tirou o pop brasileiro das ruas com cheiro de gasolina e óleo ‘die-sél’ dos anos 1980 e abriu espaço para Chico Science, Skank, Raimundos e todos esses. Mas fez isso à custa do que o carnaval representou por décadas e décadas, para o povo brasileiro”.

Mas não podemos esquecer que o axé foi praticamente domado pela indústria cultural. Sua grande aceitação de público permitiu o sucesso de nomes como É o Tchan, Cheiro de Amor, Parangolé, entre outros.

Nos anos 1990, era peregrinar por canais abertos e não demorar para se deparar com a apresentação de alguns deles.

Foi esse boom forçado pela TV e pelas grandes gravadoras que transformou o gênero em algo massificado e pobre de conteúdo.

A criatividade não demoraria a ser deixada de lado para dar lugar a qualquer refrão pegajoso como ‘ê ê ê’ e ‘ô ô ô’.

Os hits se tornaram ainda mais efêmeros e a consequência disso tudo é que a qualidade não demorou a decair.

Hoje, o que acontece com o axé é a persistência de um modelo mercadologicamente falido. Poucas canções do gênero marcam presença na lista das mais ouvidas da Billboard – de acordo com relatório de 2014 da Crowley Broadcast Analysis, a melhor posição do gênero é “Amor que Não Sai”, de Ivete Sangalo, na amarga 70ª posição.

Já na primeira metade dos anos 1990, a criatividade do axé era parca. Atualmente, fora grandes nomes vendáveis, como a própria Ivete Sangalo ou Carlinhos Brown, o axé é apenas um bom motivo para compor músicas engraçadas e/ou depravadas na chegada do Verão, de preferência antes do Carnaval, na tosca tentativa de grudar como chiclete.

Uma de suas principais marcas – a ruptura estética, unindo diversas expressões musicais em prol da alegria do Carnaval – perdeu-se facilmente no meio do caminho. A exigência de um modus operandi cada vez mais bárbaro sujeitou o gênero a batidas manjadas, com cada vez menos presença de seu elemento percussivo.

Tornou-se, noutras palavras, um subproduto.

Subproduto que fatura e muito com camarotes cada vez mais opulentos e abadás absurdos de caros (alguns chegam a custar R$900). Tudo isso amplificado pelo alto investimento de patrocinadores, principalmente marcas de cerveja.

Com a interferência cada vez mais sórdida da TV e das grandes gravadoras na pressão por mais expoentes do axé, podemos usar a teoria de Stuart Hall para explicar (citada no artigo de Ianá):

“Existe sempre um preço de cooptação a ser pago quando um lado cortante da diferença e da transgressão perde o fio na espetacularização. Eu sei que o que substitui a invisibilidade é uma espécie de visibilidade cuidadosamente regulada e segregada”.

Defasado, o axé já é há mais de 20 anos. Divertido, deixou de ser há pelo menos uns 10 anos. Vantajoso para o mercado, é algo que significativamente não é há mais de 5 anos.

Pergunte, então, à sua tela: por que persistir?