Gravadora: Stereomono/Skol Music
Data de Lançamento: 6 de maio de 2016
Avaliação: 7.5/10

Mahmundi ouviu conselhos de Liminha e Miranda antes de largar o emprego como técnica na casa de shows Circo Voador, no Rio de Janeiro, mas me parece que ela devia estar com outro produtor em mente antes de partir para uma carreira musical.

O soul que remete àquele feito pelos cantores cariocas nos anos 1980, com letras fáceis de cantar, numa riqueza harmônica de falsa simplicidade. Claro, é Lincoln Olivetti.

Mas se é o produtor de hits como “Lança Perfume” (Rita Lee) e “Amigo Branco” (Marcia Maria) que plana na opção por sintetizadores melancólicos da cantora, vale a pena frisar: Olivetti aqui adentra outra planície.

Demorou muito tempo para que a música pop do Rio de Janeiro se desvencilhasse de sua técnica. Mahmundi, disco de estreia da jovem Marcela Vale, de 29 anos, atualiza Olivetti num contexto global pelos caminhos estéticos do R&B.

Referências de Mahmundi

Os anos 1980 podem permear o clima de canções como “Eterno Verão” e “Azul”, mas só poderiam ser concebidas num mundo pós Frank Ocean, How to Dress Well e James Blake.

A absorção dos novos rumos trilhados pelo pop fora do Brasil se encaixa tão bem na proposta de Mahmundi, que só ela poderia ter esse tino. (Ela declarou que Miranda auxiliou na produção, mas apenas em alguns toques. É tudo mérito dela mesmo.)

Os synths futuristas de “Desaguar” parecem coisa de Kassin, mas guardam certa proximidade com Janelle Monáe.

A ondulada construção melódica de “Leve” a coloca no nível da adorada Kelela, porém remete também a algo que Maria Rita já cantou.

Mahmundi é fruto de uma contemporaneidade que curte se fixar em distintas referências, mesmo que não tenha vivenciado aquilo. Na ausência do empirismo, ficam os ecos. E são esses ecos, que vão de “Hit” a “Sentimento”, que ajudam a criar a idoneidade da cantora.

O termo pop globalizado traz consigo uma pancada de clichês, mas ajuda a despertar interesse inicial em Mahmundi. Audições sucessivas provam, noutra medida, que a cortina musical esconde uma mulher de cotidiano simples que enxerga a vida como um plano infinito de diversos pontos coloridos. É essa impressão que tive ao ouvir “Quase Sempre”, um R&B de notas cromáticas no teclado (que soa como piano). Nela, a falta da convivência com um(a) parceiro(a) reflete na percepção das coisas à sua volta. Jantar não tem graça, a janela dá para um cinza. Essa poesia incolor tem todo traço de música pop; porque a entrega, por mais pessoal que seja, precisa gerar uma identificação com o ouvinte.

“Quase Sempre” é imbuída de um preceito que produtores há muitos anos tentam martelar nos artistas. Para Mahmundi, flui com uma naturalidade que nem Miranda, nem Liminha, nem Olivetti poderiam domar.

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