Gravadora: YB Music
Data de Lançamento: 29 de setembro de 2015
Download gratuito via site oficial
A audição de Selvática demanda a separação por gêneros: homens e mulheres, independentemente da opção sexual, terão uma percepção diferente do 3º disco de Karina Buhr.
Assim como Karina enfatiza seu feminismo como cantora, eu, ao avaliar o disco, tenho que enfatizar que sou homem. Sou fruto de uma sociedade que cresceu machista, deliberadamente cultua símbolos e clichês machistas e, mesmo sem querer, posso soar machista numa atitude por não ter confrontado com a representatividade daquilo em situações adversas.
Enquanto homem, Selvática, pra mim, tem uma conotação diferente do que teria para uma mulher ativista – ou mesmo uma mulher que ignora a velada opressão a que possa ter se submetido.
Música contra opressão
Primeiramente, o disco é um disparo radical.
A postura de Karina é agressiva, e não apenas pelos riffs punk ou pelo canto urrado: acima dessas características, as composições confrontam com situações corriqueiras, como um churrasco com os amigos (“Pic Nic”), mandando um foda-se oculto aos que se dizem incompreendidos em relação ao muro invisível que divide os privilégios dos homens e as ‘obrigações’ das mulheres. (Tão comum quanto se deparar com mulheres que já foram assediadas é aceitar o discurso de que elas têm que cuidar de casa, dos filhos, preparar a janta, passar roupa e aguentar calada as reclamações dos ‘pais de família’ que se dizem cansados de uma jornada semanal de 44 horas. Seria, realmente, esse o sentido do casamento: rotinizar uma opressão?)
Seria mais simples dizer que Karina Buhr está certa e que, SIM, elas têm o direito de burlar nossos ‘esquemas otários‘. Mas, neutralizemos a razão: não é a imposição do certo e errado que fortalece o disco enquanto manifesto artístico. Há outras discussões a serem levantadas.
Como prever a postura de quem sente na pele a injustiça de não ser tão bem remunerada quanto os homens em qualquer escala de trabalho? Como uma mulher esclarecida encara a divisão que relega a elas os afazeres domésticos? Por que a palavra final tem que ser, sempre, do ‘homem da casa’?
Selvática contra a veia cultural do machismo
Selvática não propõe uma subversão dos valores, apesar da cantora comparar a posição combativa dela (e de muitas outras) como a de um ‘monstro’.
Karina despeja o ardor de quem já acumulou por muitos anos os maus tratos e a diferenciação de uma sociedade que tem no machismo uma forte veia cultural. Pouco importa se ela foi ou não vítima física de um machista: aqui, ela fala por todas, tanto as que sofreram, como as que não sofreram.
Pra ela, isso é urgente e seus motivos são absolutamente justificáveis. A atual liderança da Câmara dos Deputados quer usar o argumento religioso para legislar sobre o corpo das mulheres, enquanto pipocam mensagens do WhatsApp desqualificando Dilma Rousseff, uma mulher no Poder, com adjetivos sexistas bem maldosos.
Crise política
O Brasil vive uma crise de esquerda e meteórica ascensão de um conservadorismo hostil. Com esse ódio generalizado, o debate sobre o papel das mulheres na sociedade fica tão travado quanto a economia de um país em crise política.
As birras partidárias geraram um efeito perverso de polarização. Ok, de um lado a direita; do outro, a esquerda. Mas, na hora de selar os compromissos para reparar a indiferença salarial, para dar liberdade à mulher fazer o que quiser com o seu corpo ou para criar mecanismos eficazes que as protejam da violência doméstica… Quem é quem?
Selvática, nesse sentido, é apolítico. Você não questiona ao assalariado que vive com baixa renda o motivo de ter votado num candidato burocrata, e não naquele ‘do partido de esquerda’. Em algum momento ele pode ter se deparado com um discurso que ele acredita revogar à sua causa (provavelmente, de cunho socioeconômico). A interpretação não pode ser maniqueísta – cada um tem seus motivos que transcendem a ideologia. Da mesma forma, não se pode cobrar uma postura branda de quem NÃO sofreu na pele. O homem e a mulher são seres sociais: somos coletivos, lutamos por aquilo que defendemos.
Karina Buhr, em Selvática, não fala em nome dela. Incorpora os maus tratos milenares que têm tornado as mulheres subjugadas aos homens. Ela devolve essa injusta separação através de um discurso radical, justamente porque o radicalismo é uma das poucas opções para que a mensagem seja efetivamente absorvida.
Nesse caso, qual a grande lição de Selvática? Que, acima de tudo, a liberdade não é exclusiva dos homens. Quando ela se junta a Cannibal (da banda Devotos) no punk-rock de “Cerca de Prédio”, faz uso do mesmo vigor enérgico para defender o feminismo ao atacar o governo do Recife, que pretende abolir a região histórica do Cais José Estelita para a criação de um condomínio fechado (em “Marcha Macia”, Siba também dedicou os versos a este imbróglio).
Em “Cerca de Prédio”, Karina Buhr, que compreende o feminismo como uma problemática brasileira, tece os pontos para outras problemáticas que o país que vivencia. Está tudo relacionado.
Existe um aparelhamento que conecta todos os perrengues sociais pelo qual passamos: o preconceito leva ao mau voto; o mau político favorece empresas que financiam seu partido; as corporações, por outro lado, realizam evasões que criam um rombo fiscal que exige medidas drásticas do alto escalão.
Isso serve como justificativa para estabelecer novos impostos e, assim, danificar setores da população que mal ganham para pagar as dívidas; com isso, aumenta o nível de criminalidade e infla-se o discurso odioso de que ‘bandido bom é bandido morto’, como forma de punir severamente os que não enfrentam o sistema dedicando longas horas a duras jornadas de trabalho.
Por isso, faz todo o sentido que Karina nos apresente “Alcunha de Ladrão”: ‘Não era esse seu ofício/Nem o que sonhava pra si/Mas a fome não mede o porvir/Exige na pança o peso/(…)Só sabe que precisava/Não teme quase nada‘. O reggae meio Congo Natty meio Edson Gomes é entoado como uma correnteza, mostrando quão normal é ser subjugado por fatores externos que deixam o bolso do cidadão mais vazio.
Karina Buhr nem se dá ao trabalho de argumentar o que levou o personagem a ficar sem um tostão e morrer de fome. A vulnerabilidade à escassez já habita o imaginário do brasileiro muito tempo antes da ‘crise’ que se propaga atualmente: esse imaginário fica em uma região escondida do cérebro que não queremos assumir como negligência, ou como problema social que exige nosso empenho.
Analisando a composição, Karina corrobora o egoísmo coletivo sem precisar citá-lo. Essa mesma negligência impede muita gente de entender porque aquele rapaz ‘teme a polícia’. E, também, de entender o ponto nevrálgico de Selvática: o ímpeto feminino.
Selvática é um disco ideológico, porque parte da premissa de que viver é um ato político. A batalha é cansativa (ela deixa isso claro em “Desperdiço-te-me”), por isso ela opta por um armistício pesado que se materializa na politização de seu discurso.
Se alguma coisa precisa ser feita para elevar a discussão, os esforços de Karina Buhr urgem. Certa ou errada, não importa, temos que ouví-la. Há muito o que aprender.
Leia também: A experiência de ir a um show de Karina Buhr
