Falar de Prince é complicado, principalmente para quem não viveu a década de 1980. O músico não fez parte de minha formação enquanto adolescente, mas posso dizer que o baque foi arrebatador mesmo depois dos anos 2000, quando finalmente me deleitei com o álbum Purple Rain (1984).

G. Álbuns: Prince | 1999 (1982)[/pullquote]

Na verdade, tinha mesmo que ser Purple Rain, a grandiosa coda que encarna o lamento e desembarca num solo aterrador de guitarra.

Para quem começou ouvindo muito rap, para depois conhecer os clássicos do rock, aquela exasperação não fazia muito sentido. Insistir naquela canção não foi nada trabalhoso; na verdade, ela tinha um apelo próprio. A batidinha seca de bateria, os fragmentos de solos flamejantes, até que… Prince te cativa completamente, e a canção se agiganta: você nem percebe que ela tem quase nove minutos!

De tanto que ouvi a faixa-título, demorou um tanto até se entregar aos demais singles do disco: “Darling Nikki” e sua proposta afrofuturística, o funk-rock flamejante de “Let’s Go Crazy”, aquele solo inesquecível de “When Doves Cry”…

Me senti vivendo meus próprios anos 1980.

Depois de muitas recomendações de amigos e publicações, conferi Sign ‘O’ The Times (1987).

O álbum é uma pedrada, mas precisa de um bom repertório para ser processado. Me lembrei de quando ouvi There’s a Riot Goin’ On (1971) pela primeira vez: como o Sly Stone deglutiu o funk daquele jeito, denotando cansaço?

O efeito Sign ‘O’ The Times é contrário: teria Prince encontrado novo frescor alguns anos à frente? “Ele vai pra trás e pra frente entre o R&B e o rock como uma criança empinando de forma arrebatadora. Isso tem mais virtuosismo que a palavra com G”, escreveu Josh Tyrangiel, na TIME. O ‘G’ é de gênio.

Aquilo me bagunçou, mas deixou tudo mais interessante. Alguns anos depois, comprei um DVD com repertório baseado em Sign ‘O’ The Times e tudo fez muito mais sentido: em canções como “Play in The Sunshine”, “The Ballad of Dorothy Parker” e a excitante “U Got the Look”, Prince soou andrógino, sexual, irado, convincente, esperto, impressionante. Era Stevie Wonder, Ziggy Stardust, Ohio Players, James Brown: tudo ao mesmo tempo!

Prince era um acúmulo de adjetivos, e mesmo mais de 20 anos depois de seu lançamento pude perceber que a ousadia na música negra quebrou todas as trincheiras naquele momento.

O DVD termina com “It”, um canto rasgado com efeitos esparsos que levam o ouvinte pra sabe-se lá onde. Prince foi longe demais, mas porque domava as rédeas de tudo o que fazia.

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A ótima impressão dos discos anteriores me colocou em choque com o que Prince produziu musicalmente nos anos 2000 pra frente. Já estávamos na era da internet, algo que deixou o músico bagunçado: ele não queria que empresas como Google e Apple ganhassem dinheiro com suas canções, pelo menos não sem um acordo comercial firmado.

Parece birra, talvez até seja, mas Prince queria que tudo passasse por ele. Era mais ou menos como o nosso ‘rei’ Roberto Carlos. Mas essa é a única comparação possível entre eles.

Após a trilha sonora do Batman, de Tim Burton, a era de Prince passou por uma reformulação bem singular: sua excentricidade artística, cujo auge remonta a Sign ‘O’ The Times e ao seguinte Lovesexy (1988), atingiu de cheio a esfera pessoal. Por conta disso, suas brigas com a Warner por controle da obra impactaram diretamente nos fãs: chegou a trocar o nome por um símbolo e exigiu ser chamado de “The Artist”.

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Crítica: Prince | HITNRUN Phase Two

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Os anos 1990 revelou o obscuro conteúdo de The Black Album, que o músico tinha pedido para a gravadora engavetar por achá-lo ‘do mal’. É uma pancada: começa com um funk que parece ter ido composto num terreiro (“Le Grind”). “Superfunkycalifragisexy” não esconde a sutura de On The Corner (1972), um sobressalto ousado que Michael Jackson jamais se aproximaria a chegar perto.

Os últimos discos do Púrpura infelizmente padecem da ousadia, do experimento e do teor ‘expressionista’ dos trabalhos de outrora. Isso não quer dizer que sejam ruins: HITNRUN Phase One (2015) tem algumas músicas bem boas, como “Shut This Town” e “HardRockLover”.

“Baltimore”, o single que presta homenagem aos negros vítimas de abordagens racistas de policiais, foi um grande opus em sua carreira, talvez a última grande coisa que concebeu antes de falecer, em 21 de abril de 2016.

Ele se foi, mas a jornada para explorá-lo é bem extensa. Assim como Frank Zappa, há diversos bootlegs e lançamentos não-oficiais ainda não catalogados.

Como ele era bem restritivo em relação à sua obra, resta saber quem cuida de seu legado, já que Prince não tem herdeiros. Continuemos explorando.