Gravadora: Neighbourhood Recordings
Data de Lançamento: 8 de março de 2019
Disco da Semana: Dave | Psychodrama
Com apenas 20 anos, não há nenhum rapper atual que se compare a Dave. Este britânico do sul de Londres carrega uma história familiar de peso: caçula, viu seus dois irmãos mais velhos irem para a prisão.
Por conta disso, sua mãe fez tudo para que ele ficasse somente dentro de casa, algo que pode ser doloroso para quem tinha apenas 11 anos.
Não que ele mostre-se isolado. Em seu primeiro disco, Psychodrama, ele revela maior preocupação com o outro, pesando seu empirismo em versos acompanhados de notas soltas de piano ou percussões fragmentadas.

Dave: entre individual e coletivo
O rap atual, principalmente o norte-americano, tem valorizado batidas mais cruas e melancólicas. Nesse meandro, os palavrões são elementos atrativos de uma cadência que fala de rolês, dinheiro, mulheres peladas e drogas.
O peso da música de Dave, porém, é mais denso. Desde que surgiu com “Question Time”, criticando duramente David Cameron por levar adiante o referendo que levou ao Brexit, o jovem rapper tem se articulado para abordar dores individuais e coletivas sob diferentes prismas.
Para isso, ele não recorre a palavrões. Além de abordar problemas relacionados ao que é ser negro na Europa (“Black”), Dave amplia a discussão para falar sobre crise identitária por conta da imigração (ele é parte nigeriano) e insegurança pessoal e social.
O termo Psychodrama carrega tanto uma preocupação individual, quanto coletiva: psycho, claro, pela facilidade de chegar à paranoia com o volume de confusão ao nosso redor; e drama por contextualizar sua história de vida e o que testemunhou como parte importante de uma conturbação social noticiada por muitos, mas realmente acompanhada por poucos.
Psychodrama: motivação
Dave disse que a ideia inicial do disco surgiu quando um de seus irmãos, Chris, passou por terapia na prisão.
Para uma canção em particular, “Drama”, ele interpõe um diálogo com as vozes do irmão, que fala sobre as dificuldades de viver sempre na correria. Depois, vem a voz de Dave em uma narração urbano-poética, em que relembra sinceramente como foi encarar (e vivenciar) o sofrimento de uma pessoa com quem viveu a infância.
“Não é a mesma coisa que ter um amigo que estava na prisão. Por ser meu irmão, o impacto que isso teve na minha mãe e em todos nós, o impacto em tudo que era bom…”, disse Dave em entrevista ao jornal The Guardian. “Nunca quis soar como se estivesse falando sobre a prisão, e estivesse chorando ou atordoado. Mas, definitivamente, teve o efeito massivo de um nocaute em todos nós. Foi uma jornada dura para todos os envolvidos”
Pois é justamente essa a dor que Psychodrama catalisa para dimensionar a gravidade do que é ser negro, imigrante e pobre em um continente que colonizou e escravizou seus antepassados.
Outros lançamentos relevantes:
• Howe Gelb: Gathered (Fire Records)
• Leo Welch: The Angels in Heaven Done Signed My Name (Easy Eye Sound)
• Branford Marsalis Quartet: The Secret Between the Shadow and the Soul (Okeh)
Leia também: Após sair da prisão, Freddie Gibbs busca liberdade artística em Freddie (2018)
