Gravadora: Monstro Discos
Data de Lançamento: 27 de julho de 2018
Avaliação: 9/10
O que pode ser mais político que subverter o nome de um quadro do Faustão numa capa de disco que mostra o estudante Matheus Ferreira da Silva agredido na cabeça por um cassetete em protesto?
De fato, não é uma abordagem de surpreender por parte do Mundo Livre S/A, um dos mais articulados grupos musicais quando o assunto é refletir sobre a contemporaneidade.
Em seu 8° disco, a banda pernambucana liderada por Fred Zero Quatro aborda, mais uma vez, o caos político brasileiro de forma caótica.
Para se ter uma ideia de como ele visualiza esse cenário, ouça o início de “Eletrochoque de Gestão”. Nela, a voz do presidente Michel Temer, que introduz a canção, soa como a de um monstro acuado no momento de sua notável declaração em que diz ‘não renunciarei‘ após o escândalo gravado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista.
A tônica da música, porém, é correlacionar o cinismo do mercado financeiro – principal patrocinador de Temer, acreditando que ele chegaria à Reforma da Previdência – com o cinismo individual do cidadão médio, representado em primeira pessoa por Zero Quatro: ‘Minha santa/Vamos seguir a receita/Consagrada para minha indigestão‘.
Mundo Livre S/A: “liberdade e dinheiro, sob o signo da ironia”
“Eletrochoque de Gestão” é mais um exemplo de como o sarcasmo tem sido o melhor recurso explanatório de nossos tempos. Zero Quatro já deixou isso bem claro: “A Dança dos Não Famosos é mais um disco da Mundo Livre S/A que, naturalmente, discorre sobre liberdade e dinheiro, sob o signo da ironia”.
Ele cita “Jungle’s Investment Grade: Maldito Seja o Selo” como a abordagem de “um fato histórico omitido desesperadamente pela mídia corporativa de finanças”. Com apenas 1 minuto de duração, ela destila acidez ao sintonizar os teclados eletrificados de Léo D. à livre percussão de Pedro Santana.
Quando Zero Quatro surge para falar de uma nova era disruptiva, as anteninhas do ouvinte já estão ligadas – clima propício para a entrada de “Meu Nome Está no Topo da Sagrada Planilha”, que brinca com a religiosidade fake daqueles que são pegos na ladroagem política.
Mencionar inúmeros santos nomes em vão é só mais um elemento que constitui o corrupto que se apega ao que há de mais fervoroso em nossa brasilidade. É o que conecta o pastor com uma legião de fiéis ao demagogo que se sente no direito de decidir sobre o que a mulher deve fazer com seu corpo. Achou ruim? ‘A luz da criação me abastece/Quem quiser vai reclamar com o meu sócio lá de cima‘, sugere o compositor.
A Dança dos Não Famosos: amor e ranço
Mais de 7 anos separam A Dança dos Não Famosos do antecessor Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa (2011), disco que apontava uma direção mais eletrônica por parte do Mundo Livre S/A.
Não que isso seja algum tipo de ruptura. Afinal, orgânico e sintético, irônico e verossímil, enfim, onde muitos enxergam dicotomia Fred Zero Quatro vislumbra a oportunidade de realçar a essência da banda que mantém desde 1984.
Dentro disso, proximidade familiar e ranço político se misturam, porque faz todo sentido ter uma canção como “Special Manguechild”, dedicada ao filho caçula (“Eu concluí a letra no dia em que David Bowie morreu, meu filho me viu chorando, foi devastadora para mim aquela morte”, disse o cantor a O Globo), e “O Passo do $angue: Na Vidraça”, com vozes de manifestantes das ruas inspirando uma reflexão sobre o cidadão médio que não dimensiona a responsabilidade de espalhar fake news.
Para uma banda que jamais teve receio de subverter as muitas turbulências sociopolíticas das últimas três décadas, A Dança dos Não Famosos aparenta ser um tiro pragmático. Se antes a sordidez de Fred Zero Quatro perdia-se nos muitos exemplos transgressores da política e do entretenimento, agora sabemos que a mira se estende ao que há de mais patriarcal em nossa sociedade.
Não é um aviso, tampouco mero sarcasmo com nossa incapacidade de reerguermos sócio, econômico e politicamente.
A Dança dos Não Famosos deixa muito claro que aquilo que mais nos faz rir (até de nervoso), na real, também é o nosso principal embuste.
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