Ainda não é oficial, mas há rumores de que 2011 seja o último ano que os fãs contemplem um show bombástico do Rage Against the Machine. Tive o prazer de ver a banda que me ‘mostrou’ o que é rock no SWU 2010 – nem preciso descrever quão fantástica foi essa experiência.
Existe uma unidade no grupo que é impagável: Zack de la Rocha é o vocalista inquieto que vocifera contra as mazelas sócio-políticas; Tom Morello, o guitarrista que revolucionou a forma de tocar o instrumento unindo scratches e wha-whas, estruturando o barulho perfeito para as composições beligerantes do grupo; sem falar nos slaps criativos no baixo de Tim Commeford e a bateria sincrônica de Brad Wilk.
Qualquer esforço meu em busca de eternizar este grupo tão barulhento seria vã. Mas deixo minha contribuição comentando toda a discografia do RATM:
Rage Against the Machine
Ano: 1992
Gravadora: Epic
Avaliação: 10/10
Quem acompanha esta página, já deve ter conferido o post sobre este disco na seção Grandes Álbuns. Mas nunca é demais.
“Bombtrack” já demonstra todo o peso que está por vir em uma das obras mais celebradas de toda a década de 1990. O RATM surgiu com uma proposta diferente do grunge, que estava dominando (e de certa forma contaminando) toda a cena roqueira dos Estados Unidos.
Direto de Los Angeles, o grupo mostrou que é possível estabelecer um diálogo com outro ritmo que estava estourando: o rap.
As temáticas são políticas e mostram uma preocupação de passar ao ouvinte uma ideia mais conscientizada do que acontece no mundo.
“Take the Power Back” traz um baixo funkeiro e fala sobre não deixar os ricos dominarem os mais explorados; “Township Rebellion” cria referências imagéticas de uma revolução; e “Killing in the Name”, com suas letras censuradas, mostrou que o rock ainda pode ser a trilha perfeita para expressões idiossincráticas (essa característica se faz bem presente no rap).
Destaques: “Killing in the Name”, “Wake Up” e “Freedom”.
Evil Empire
Ano: 1996
Gravadora: Epic
Avaliação: 7.5/10
Demorou quatro anos para o RATM lançar outro disco. Mas a espera foi boa.
O grupo continuou seguindo a cartilha que colocara em mesa, ganhando mais um round da eterna batalha contra o establishment.
A sonoridade está ainda mais barulhenta que o debut. O grupo percebeu que sua grandiosidade veio mais rápido do que suas batidas, e não poupou energia para canções pesadas.
“People of the Sun” mostra a batalha dos mexicanos que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos em busca de novas oportunidades, “Vietnow” fala sobre a porcaria pop que transfigurou as rádios, “Revolver” fala sobre o poder fantasioso criado pelas armas de fogo…
Todas as letras vêm com aquelas pancadas que resultariam em um bate-cabeça interminável. Sem falar, é claro, da excelente “Bulls on Parade”, que exibe um dos riffs de guitarra mais memoráveis do Rage Against the Machine. Deste disco, também gosto da excitante “Down Rodeo”.
Destaques: “People of the Sun”, “Bulls on Parade” e “Revolver”.
The Battle of Los Angeles
Ano: 1999
Gravadora: Epic
Avaliação: 10/10
Quando soube que havia uma banda com ideais sócio-políticos avançados, o documentarista Michael Moore enxergou uma parceria possível, que resultou na gravação do videoclipe de “Testify”, a primeira faixa de The Battle of Los Angeles.
O terceiro álbum do RATM é mais consistente e coeso que os anteriores. As incursões sonoras estão mais criativas e os temas são ainda mais maduros. A banda se atualizou ainda mais nas referências políticas e veio com composições mais reflexivas e abstratas – ao contrário do tom ‘direto ao ponto demais’, perceptível nos trabalhos anteriores.
Tem referências ao livro 1984, de George Orwell (“Voice of the Voiceless”), além das imagens esvoaçantes de guerra criadas com “Sleep Now in the Fire”. Tom Morello arquiteta a melhor ambientação sonora possível em toda a sua carreira: “Born as Ghosts” serviria facilmente como trilha de Caça Fantasmas, “Calm Like a Bomb” faz os vocais de Zack de la Rocha surgirem após estouros de granadas e “War Within a Breath”, que poderia ser escrita por Chuck D, encerra o disco de forma magistral com seus riffs explosivos.
Aqueles que argumentam que este é o melhor álbum do RATM não estão errados.
Destaques: “Testify”, “Sleep Now in the Fire” e “War Within a Breath”.
Renegades
Ano: 2000
Gravadora: Revelation/Epic
Avaliação: 6/10
Este álbum é apenas um complemento na discografia do Rage Against the Machine. Todas as faixas são covers de músicas que ajudaram a formar o emblema da banda.
Não podia faltar uma interpretação à altura dos Stooges (“Down on the Street”) e Rolling Stones (“Street Fight Man”, a tal canção que reflete os períodos conturbados de 1967/68). O grupo acerta bem ao trazer o petardo do pré-punk com “Kick Out the Jams” (MC5) ou quando estabelece um diálogo com o hip hop nas faixas “Renegades of Funk” (Afrika Bambaataa) e “How I Could Just Kill a Man” (Cypress Hill).
Mas a melhor faixa de todo o disco é “The Ghost of Tom Joad”, que o grupo pegou emprestado de Bruce Springsteen. O RATM eternizou a composição que conta a história de um combatente revolucionário que tenta consolar a mãe depois de morto (‘look in their eyes, mom, you’ll see me‘).
Mesmo sem as composições beligerantes, o RATM deu adeus aos fãs com um disco bem produzido e inspirado – ainda que esteja longe de ser um de seus melhores trabalhos.
Destaques: “Kick Out the Jams”, “How I Could Just Kill a Man” e “The Ghost of Tom Joad”.
Leia também: Minha experiência no SWU 2010
