Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 18 de setembro de 2020

Sentir. Sentir é uma palavra forte, mas que gera resultados ambíguos. Você pode ouvir por horas o relato de alguém que passa por dificuldades simplesmente porque nasceu daquela forma. Se você nasceu homem e branco, dificilmente irá captar o peso daquele sentimento do interlocutor.

Ok, sentir é algo pessoal, mas é algo que pode ser provocado. Quando o privilegiado entende melhor o contexto do interlocutor, tem maior capacidade de gerar magnetismo com a dor e delícia do outro (sim, Caetano estava certo nos primeiros versos de “Dom de Iludir”).

Esse contexto pode vir com a informação: na leitura, na audição de um disco, na conversa com pessoas diferentes. E pode vir também na própria reflexão, no sentir. Não se trata de emular aquilo que você não é; mas de se mostrar perene, de praticar a escuta ativa, de se preparar. Isso também exige treino.

Novo disco do Carne Doce

O 4º disco do Carne Doce, Interior, adentra mais o campo da reflexão do que da informação – muito bem passada no anterior Tônus (2018). Aqui não é o grupo sendo reflexivo; trata-se do grupo sendo o agente dessa reflexão.

Isso é feito com letras mais subjetivas. Ao ouvir Salma Jô cantar, materializar uma pessoa é insuficiente. O álbum é melhor capturado quando nos deixamos vagar por sua poesia que tem um misto de sensorial e existencial.

Interior é mais subjetivo mesmo, a começar pela capa do disco, um pequi, fruta do cerrado brasileiro que esconde espinhos.

Para além do significado do título, Interior tem uma conotação espacial do ser humano. Não é Salma Jô falando dela em suas letras. É ela exercitando pontualidades, contemplações, momentos – como inicia muito bem na atmosférica “Temporal”: ‘Amanhã quando vier o temporal/Vai nos livrar do mal/E de toda vida toda, toda, toda‘.

Poesia do desconforto

Atingir esse estado de subjetividade leva um pouco mais de preparo. Por isso, a banda não tem receio de investir em intros mais longas e deixar que a beleza das melodias de João Victor (guitarra, sintetizador e programações), Macloys Aquino (guitarra e voz) e Aderson Maia (baixo) invadam lentamente o senso de percepção do ouvinte.

Em “Sonho”, por exemplo, esse preparo é importante para que Salma Jô divague sobre a existência – sempre endossando a condição humana.

De fato, o ser não é dissociado do sentir em Interior. O Carne Doce não nega o outro quando fala sobre o sentimento de “Saudade” e até se propõe abraçar o desconforto em “Hater”, mensagem que poderia ser direcionada a um nicho específico da população, mas que funciona melhor quando encarado como uma fraqueza inerente ao ser humano: falar mal do outro para se sentir bem.

Em entrevista ao jornal Correio Braziliense, Salma Jô explica que a influência para “Hater” veio do fenômeno nocivo do linchamento virtual e ajuda a entender a dicotomia do ser humano como um todo: “O ódio apaixona. Você às vezes se sente no espelho, como se o fato da pessoa te odiar fosse porque ela tem um problema de autoestima, e você tem um problema de autoestima. Elas te odeiam dentro de uma cena em que ela se identifica, esteticamente, politicamente. São sentimentos dúbios, estranhos, ambivalentes, tanto pensando no lado de quem é odiado quanto de quem odeia. Eu sei que já circulei dos dois lados”.

Nessa linha de raciocínio, “Hater” expande o significado de sentir do disco. Isso porque, em Interior, todos estão despidos.

As fraquezas, privilégios e sensações rodeiam um ‘universo espacial’ onde não há distinção de gênero ou de objetos. Só que, para sua construção, não dá pra negligenciar aquilo que formam os indivíduos arquitetos desse ‘universo’. O sentir é imaginativo, mas não está totalmente dissociado da realidade: esse é o grande contato que Interior proporciona.

Leia também: O rigor discursivo de Carne Doce em Princesa (2016)