Gravadora: EMI/Odeon
Data de Lançamento: 1973
O choro tem importante papel na obra de Paulinho da Viola, especialmente em Nervos de Aço. Lançado após o término de um relacionamento, não deixaria ter correlação com lágrimas escorridas. Quanto ao gênero, que aprendeu e desenvolveu com mestres como Pixinguinha e Radamés Gnatalli, graças às reuniões na casa de seu pai, o violonista César Faria: o choro também consta, mais especificamente na última canção, “Choro Negro”, o pranto derradeiro amplamente derramado ao longo das canções anteriores.
De tão triste, tão sentimentalmente existencialista que é, Nervos de Aço é o conceito esteta de um homem que entende o sofrimento emocional como etapa importante para superá-lo. A intensidade é tão grande, que parece não ter fim – por isso, assim, sem palavras, deixa que “Choro Negro” mostre o quão nebulosa, naquele momento, era a dor. A dor de perder o amor, a possibilidade de ser feliz. Não havia palavras.
[pullquote]Nervos de Aço é o conceito esteta de um homem que entende o sofrimento emocional como etapa importante para superá-lo. A intensidade é tão grande, que parece não ter fim[/pullquote]
Quando lançou o 6º álbum solo, Paulinho até poderia estar transtornado mas, reservado que é, não quis expor seu âmago. Por isso, então, que o título vem emprestado de uma composição de Lupicínio Rodrigues: ‘Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?/E por ele quase morrer?‘, canta.
A maioria das canções de tom lamurioso, em Nervos de Aço, foram compostas por outros músicos. Registrada na estreia da Velha Guarda da Portela, Portela Passado de Glória (1970), “Sentimentos” abre o disco mostrando a traumática experiência de um rapaz ‘resolvido a não amar mais ninguém’. Foi escrita por Mijinha.
“Não Quero Mais Amar Ninguém” vai mais a fundo, tentando dissociar o sentimento da condição humana. Fruto da parceria entre Cartola, Carlos Cachaça e Sérgio Porto, aqui a versão contou com a participação de Don Salvador tocando cravo. Em entrevista a Charles Gavin, Paulinho da Viola disse:
“Falando assim pode parecer uma banalidade, uma bobagem, uma coisa tão sem importância, mas [a canção] pra mim tem uma força que eu não sei explicar qual é. (…) É um verso que eu acho tão bonito, isso com a própria melodia, que começa assim: ‘semente de amor sei que sou desde nascença’. Esse outro diz: ‘às vezes dou gargalhada ao lembrar do passado’. Eu acho isso tão… Se você souber o que significa isso pra mim!”
A única canção de Paulinho em tom de tristeza é “Roendo as Unhas”, onde diz: ‘Meu samba não se importa se eu não tenho amor/Se dou meu coração assim sem disciplina’. Nela fica clarividente uma produção soberba: o trombone de Nelsinho pontuando e os entrecortes da flauta de Copinha, com arranjos de Lindolpho Gaya (o Maestro Gaya), marcaram uma soberania rítmica que nem o samba nem a mais sofisticada MPB adquirira naquele momento. Outro que institui essa modernidade no disco é Cristóvão Bastos. Observe o piano da faixa-título: sua transição de notas é tremeluzente, e ao mesmo tempo sutil, fugindo do controle como se fosse um simulacro das emoções humanas.
Denominar Nervos de Aço como um trabalho conceitual é equivocado. Explora a destreza, sim, mas não de forma atmosfericamente lúgubre. Mais versátil do que mostrou no anterior Dança da Solidão (1972), Paulinho da Viola transita por ritmos populares com a serenidade de quem encontrou nas ruas (e na desilusão) a maturidade, artística e sentimental. O andamento de “Sonho de Um Carnaval” flerta com a bossa nova, tendo como ponto de partida a toada. “Não Leve a Mal” é samba de terreiro, tomado pela cuíca de Marçal e outros instrumentos percussivos, como conga e cravo, celebrando a Portela.
“Comprimido” é um samba em que a síncope favorece a interessante crônica de um casal que brigava bastante. É Paulinho que comanda o clímax com sua voz. A cada pausa, aumenta a tensão – até o momento que ele revela se tratar de um suicídio, tema raramente abordado na música brasileira. Por fim, Paulinho faz alusão ao ‘samba do Chico, falando das coisas do dia a dia‘: sim, trata-se de “Cotidiano”.
Nervos de Aço é um título deveras adequado para um álbum, mas Paulinho revelou que não foi escolha dele – assim como Dança da Solidão, foi sugerido pelos produtores, que baseavam os títulos a partir dos singles que apostavam como ‘vitrines’ do trabalho. Sendo assim, para este carioca essa dinâmica até fazia sentido. Sem detalhar muito o que verdadeiramente sentia, Paulinho da Viola fez das composições alheias o retrato expressionista da alma doída de um rapaz de bem.
