Gravadora: Merge
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
Avaliação: 8.5/10

“A maioria das músicas de protesto são terríveis”, disse ao jornal New York Times o vocalista Mac McCaughan, quando questionado sobre o motivo de nunca ter seguido este caminho com a banda que lidera, Superchunk. “Ela é pedante, quase presa ao coro”.

Provavelmente McCaughan tinha em mente o punk rock da era Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

Mesmo que tenha demorado mais de 30 anos para o Superchunk falar de ‘escolhas terríveis’ e da ‘nuvem de ódio’ dos tempos que definem a era Trump, é a essência sonora que conta para o 11º disco da banda: What a Time to Be Alive.

What a Time to Be Alive

Portanto, não chega a ser correto dizer que McCaughan e seus companheiros – Laura Ballance (baixo), Jon Wurster (bateria) e Jim Wilbur (guitarra) – estejam se contradizendo, ou juntando-se a dezenas de bandas que se desembestaram a criticar o conservadorismo (algo que sim, deve ser feito, mas de maneira mais sofisticada e original, para não parecer casuísmo).

As letras do Superchunk costumam ser diretas, e a banda amadureceu o suficiente para saber como dosar as repetições.

Quando os refrãos precisam ser repetidos ostensivamente, as guitarras flamejam o necessário para multiplicar a urgência da mensagem, como em “Cloud of Hate”, talvez a letra mais direta à administração Trump.

São nos pequenos detalhes que vemos a banda da Carolina do Norte (EUA) criar narrativas interessantes a partir de enredos que parecem adolescentes, mas na real são tão simples como não queríamos que a nossa vida fosse.

Por exemplo, a faixa-título, que abre o disco, começa um enredo de personagem levantando, escovando os dentes – quando, na verdade, impõe uma crítica à rebeldia que tanto manifestamos na adolescência e começo de vida adulta: ‘A escuridão era tudo o que você queria/E agora ela apenas flutua pela superfície’.

As guitarras de McCaughan e Wilbur operam num senso enérgico em busca de rupturas. Nem sempre elas são racionais, como dá a entender “Break the Glass”. Quando a bateria fica a cargo de criar toda essa combustão, o Superchunk sabe como controlar a impulsão, e o resultado, como ouvimos em “Dead Photographers”, é um punk-rock que estimula ir atrás de escapismos, por mais que pareça tarde.

Superchunk e a combustão controlada

Para perceber a grandiosidade de What a Time to Be Alive, é preciso compreender que a saga aventureira do hard-core do Superchunk vai além da estética. Com versos curtos, McCaughan soube definir a juventude na década de 1990 como poucos. Hoje, ele sabe que boa parte de sua base de fãs é mais velha – mais consciente, com família pra criar, mas sem muito saco pra lidar com a complexidade que o jeito da banda de fazer rock sempre fez questão de escapar.

Eles miram os mesmos pulhas burocratas quando dizem ‘todos estes homens velhos não morrem tão cedo’, em “I Got Cut”, uma das críticas mais duras ao sistema excludente de saúde dos Estados Unidos (que não tem nem algo comparado ao SUS brasileiro, por exemplo).

Gostando ou não de protesto, McCaughan não conseguiu evitar falar sobre as destrezas dessa onda de conservadorismo que tomou conta da sociedade norte-americana.

Seu público pode não estar acostumado com essa abordagem. Todavia, What a Time to Be Alive tem impulsão e originalidade suficientes para elevar-se como a obra mais pungente da banda em muitos anos. Que fã de hard-core acharia isso ruim?

Leia também: Crítica do disco I Hate Music (2013), de Superchunk

***

Confira nosso vídeo especial falando sobre o punk:

Inscreva-se no nosso canal e acompanhe os nossos vídeos.