Gravadora: Dead Oceans
Data de Lançamento: 17 de agosto de 2018

Disco da Semana: Mitski | Be the Cowboy

Solidão, questionamentos sobre sexualidade e dificuldades de autoaceitação parecem bem complexos, mas têm sido recorrentes no rock alternativo – principalmente quando mencionamos as grandes compositoras de nossos tempos, mulheres como Sharon van Etten, Courtney Barnett ou Annie Clark (St. Vincent).

Mas, quando se evoca o nome de Mitski, por mais individuais que sejam suas letras, todas elas vêm com uma intrigante carga de tranquilidade.

Não que, aos 27 anos, ela se julgue madura demais para se relacionar com machistas ou autossuficiente para rejeitar amizades rodeadas de clichês. Ao versar sobre todos esses temas, em Be the Cowboy ela deixa no ar o que realmente está sentindo – mas não de uma forma facilmente identificável. Ou, pelo menos, de forma pouco óbvia.

Mitski: sentimentos enigmáticos

Em “Nobody”, por exemplo, ela fala sobre estar sozinha no Natal. Só que não captamos se ela está realmente triste com isso, se gosta de ficar sozinha, se isso é bom, ruim, deveras depressivo… Ela canta ‘eu só preciso de alguém para beijar’, mas sem revelar algum tipo de carência – algo que a guitarra funky e o clima quase EDM ajudam a ocultar.

Porém, na melancólica “A Horse Named Cold Air”, Mitski realmente exemplifica em uma canção o sentido de um ‘lago sem nenhum peixe’, relatando com tristeza o vazio ao seu redor. É o ambiente utilizado como válvula de escape para seus sentimentos.

E, quando a cantora busca alguém para se confortar, em “Lonesome Love”, não espere que ela preencha esse vazio interno. Pois, como ela canta: ‘Ninguém me fode como eu’ (sim, pensando naquilo mesmo). “Não que a personagem do disco seja ficcional, mas reconheci uma personalidade minha que é bem obcecada com controle e se sente como se tivesse poder – porque sou fraca e não tenho tanto controle assim”, explicou Mitski em entrevista à The Fader, mencionando alguns “exageros de uma parte específica” de si mesma.

Be the Cowboy: clamor ou niilismo?

Autossabotagem ou pura desconstrução, Be the Cowboy é um disco que às vezes parece um clamor feminista, às vezes um diário de uma mulher que se mostra despreocupada com tudo à sua volta.

Mitski compõe mirando as reações das pessoas a seu redor, como na industrial “Why Didn’t You Stop Me” ou no indie com cara de anos 1980 de “Old Friend”, onde ‘sentar pra tomar café e falar sobre nada’ pode ser um ponto alto do dia.

O órgão, na verdade, ajuda a intensificar esses ‘exageros’ apontados por Mitski. Em “Geyser”, ele dramatiza o tom da cantora, que evoca um amor com toda cara de ser platônico. Mesmo quando parece que o instrumento tá lá como apoio, como na catártica “A Pearl”, o órgão estende as chamas acesas pelas guitarras.

A serenidade retilínea de Mitski, em Be the Cowboy, é exemplo de como os males que tanto associamos ao século XXI – estresse, depressão, ansiedade, crise de personalidade, falta de sexo etc – estão mais que internalizados em sua personagem.

Ela se preocupa com a reação dos outros, mas de maneira quase niilista, como se fosse mais um modo de sobrevivência do que medo de se sentir sozinha. Claro que isso faz parte do ‘exagero’ citado por Mitski – um exagero que resulta em algo próximo à indiferença, porque, afinal, chamar atenção é o novo ‘normal’ em nossos tempos.

Outros lançamentos relevantes:

Animal Collective: Tangerine Reef (Domino)
Filipe Ret: Audaz (Tudubom Records/Som Livre)
Thee oh Sees: Smote Reverser (Castle Face)
Dorian Concept: The Nature of Imitation (Brainfeeder)
The Necks: Body (Northern Spy)

Leia também: A discografia de St. Vincent resumida em 6 minutos