Gravadora: Smalltown Supersound
Data de Lançamento: 19 de outubro de 2018
Disco da Semana: Neneh Cherry | Broken Politics
Os Estados Unidos já tinham um novo presidente quando Neneh Cherry começou a gravar o que seria Broken Politics, em fevereiro de 2017. Repetindo o que fez em Blank Project (2014), a cantora sueca chamou Four Tet para a produção das faixas.
Pode não parecer, mas as bases de Broken Politics são totalmente sintéticas: bandolins, percussões, violões… Tudo aquilo foi feito em computador, algo que pode desapontar devido à fluidez orgânica.
Mas, o foco do disco é outro. Broken Politics revela a perspectiva de Neneh Cherry sobre sociedade, imigração, desigualdade salarial, racismo… Suas composições são construídas a partir de um empirismo imaginado: é a pele dela respondendo a todas essas problemáticas.

A empatia de Neneh Cherry
Por isso, pode-se dizer, de cara, que Broken Politics tem a preocupação de ser o mais empático possível – embora não faça isso de um jeito simples.
Os versos curtos de Neneh Cherry são como pequenos haicais que se complementam, mas exigem boa capacidade de abstração do ouvinte para soarem efetivas. “Fallen Leaves”, por exemplo, fala de depressão num formato de composição que lembra uma Joni Mitchell em alto grau de desolação: ‘Eu acho que somos como estranhos/Eu nem sei/Puxe meu gatilho agora/E isso iria se afogar dentro de mim’.
Em “Poem For Daddy”, ela soa ainda mais melancólica sobre o tema: ‘Depressão é pior que o túmulo/Melhor morrer por uma causa nobre/Do que viver e morrer escravo’.
Todos esses temas são frutos de uma aprofundada observação de tudo que nos acontece. Seja na Europa, nos EUA ou no Brasil, vivemos tempos de constantes questionamentos sobre o que considerávamos conquistas sólidas da democracia: direito de ir e vir em um país, batalha contra o sexismo, igualdade social e racial, só para citar alguns.
Nesse caso, Broken Politics é a reflexão de um indivíduo incomodado com esse amontoado de perguntas erradas. “É muito sobre dizer coisas, mas também sobre ouvir, ouvir e digerir”, explicou Neneh ao jornal New York Times. “Mas acho que seria cautelosa em dizer quais são as respostas. Estamos tentando descobrir, como muitos de nós: como avançamos? Como alguém permanece esperançoso na vida agora?”
Por isso mesmo, ela não recorre a explanações. Ela tenta se colocar na pele em dezenas de adversidades – em algumas delas, fugindo da sua própria condição, como em “Kong”, em que se coloca na primeira pessoa como um refugiado ‘ainda de saco cheio para absolutismos’ e que prefere se arriscar em busca de uma vida melhor.
“Natural Skin Deep” é uma mensagem positiva de pertencimento. Mesmo que se trate de uma miscigenação nascida da violência (europeus escravizando africanos), Neneh reafirma: ‘meu amor segue adiante’, apesar de pouco saber de suas origens negras.
“Black Monday” fala sobre disparidade salarial entre homens e mulheres na pele de uma trabalhadora que precisa lidar com isso no dia a dia. É um tema consequente do que Neneh canta em “Slow Release”, sobre a lerdeza das mudanças. E algo difícil de ser debatido numa era chafurdada por notícias falsas, como canta em “Faster Than the Truth”.
Outros lançamentos relevantes:
• Yoko Ono: Warzone (Chimera Music)
• Cloud Nothings: Last Building Burning (Carpark)
• How to Dress Well: The Anteroom (Domino)
Leia também: Crítica do álbum Blank Project, de Neneh Cherry (2014)
