Gravadora: Domino
Data de Lançamento: 24 de agosto de 2018
Avaliação: 8/10

Dev Hynes é o cara que melhor representa a música de Nova York hoje. Como toda metrópole, seu gigantismo tende a um isolamento que, à medida que tende a fazer com que a depressão se aproxime, também se apresenta como a oportunidade de criar uma conexão consigo e com a cidade. Sim, o lugar de origem e convivência entra na somatória de elementos que nos leva ao autoconhecimento – e, com o Blood Orange, Hynes preocupou-se em mapear sua ancestralidade da Serra Leoa, já no anterior Freetown Sound (2016).

Negro Swan é seu terceiro disco e, se alguém tinha dúvidas de que ele herdou o bastão na linha sucessória que conecta Curtis Mayfield, Prince, D’Angelo e Q-Tip, exemplos não faltam de sua inventividade.

A soul-music é o elemento que conecta “Saint” a um rap frenético que dá abertura para que o cool-jazz segure o terceiro plano da música. Nesse meandro, Dev vai e vem com a desenvoltura de quem ouviu e aprendeu com essas frentes da música negra.

Em “Chewing Gum” (com A$AP Rocky e Project Pat), a repetição do termo ‘diga o que você quer de mim’ endossa a pressão interna que criamos sempre que somos questionados por outrem.

Blood Orange: dramático e cristalino

Num clima mais noir, o Blood Orange parece absorver o que há de mais cristalino e dramático em “Jewelry”. O volume de elementos deixa seus vocais afastados na primeira parte da canção. Quando entram os graves e o monocromatismo do piano, Dev torna a música elegíaca. Ele não sustenta muito esse clima porque, mais uma vez, estamos falando do lugar como interferência. Afinal, todos sabem que nas grandes cidades a efeméride tem seu valor. Não temos tempo pra nada, muito menos pra ficar contemplando um músico se entregando ao máximo a um único recurso estético de sua música.

É por isso que é difícil captar o que interliga essa multiplicidade de ideias de Negro Swan. Percebe que as transições de todas as musicas – muitas delas curtas até demais – se dão de forma ligeira, às vezes abrupta?

Isso porque ele deve ter imaginado uma audiência pegando um trem lotado ou na correria pro trabalho todo dia. Sua proposta de rompimento leva em consideração o seguinte questionamento: que outra opção teríamos?

Por exemplo, em “Charcoal Baby”, ele usa o termo ‘charcoal’ (carvão) como se fosse parte da classe trabalhadora da era Trump (considerando que o atual presidente vê o carvão como algo rumo ao progresso, ignorando todos os estudos ambientais que comprovam o quanto ele é poluente).

Hynes propõe ‘quebrar às vezes’ como se estimulasse o cidadão a quebrar a rotina, fazer coisas diferentes – e parar um pouco de insistir em momentos que ele sabe que são forçados, só pra não se sentir sozinho.

Negro Swan e a importância da companhia

Em “Take Your Time”, ele faz o possível para que o indivíduo se sinta bem consigo mesmo: ‘Você não pode continuar se colocando pra baixo/Esperando sua dor de cabeça ir‘. A melhor solução pra isso é uma boa companhia e, para isso, ele conta com a ajuda de bons features. Em “Hope”, Puff Daddy diz se sentir feliz quando encontra Tei Shi. No final da música, Hynes aconselha ‘seguir essa maré‘.

Outro exemplo de como Hynes valoriza a companhia está em “Out of the League”, ao lado do jovem produtor Steve Lacy. A canção é um convite ao passeio, com synths e baixo dando a entender que se vislumbra uma cidade noturna, com luzes se apagando.

Existe uma alegria contida na música – na verdade, em todo o disco – porque parece que o próprio Blood Orange passa por um processo de cura da excessiva individualidade. É comum que ele peça desculpas entre as canções, que se preocupe em não se aprofundar demais em uma mood melancólica. São muitas pessoas a redor – e isso intensifica o medo da rejeição.

Leia também: Crítica do disco Freetown Sound (2016), do Blood Orange