Gravadora: Escho
Data de Lançamento: 4 de maio de 2018
Avaliação: 9/10
Um dos maiores desafios para as bandas de rock é diminuir as trincheiras de seus subgêneros. Se é new-wave demais, a banda deveria ficar nos anos 1980. Se é punk, legal pela pegada ágil, mas nada criativo. Metal, então, se não for headbanger, cai fora!
Enquanto essa gana pela classificação divide público e crítica, o Iceage desfila com desenvoltura por tudo quanto é movimento em seu quarto e melhor disco: Beyondless.
Já na segunda faixa, “Pain Killer”, o grupo dinamarquês convida a sensual-gótica-pop Sky Ferreira num som massivo em que guitarras e metais disputam a predominância fritando ao fundo, daquele jeito que os nórdicos gostam de fazer quando inventam de ser catárticos. Isso depois de urrar ‘não podemos parar de matar’ já na música que abre o disco, a punk “Hurrah”, biografia de um soldado que diz lutar não por um país, mas em resposta ao espírito autodestrutivo do ser humano.
Beyondless e o lobo do homem
Beyondless reúne o melhor da fase dos anos 1990 do Swans (“Under The Sun”, com violinos fritados), o charme de Nick Cave & Bad Seeds (“Plead The Fifth”) e fragmentos das muitas doideiras do Coil.
Mas não é esse o melhor caminho para entender o Iceage. Mesmo quando soa nostálgica em “Catch It” (o clipe induz a isso, é verdade), a banda consegue manter o ouvinte ligado em suas interconexões. De repente, o que soava arrastado na primeira metade da música se transforma num volumoso disparar de energias, com o baixo de Jakob Tvilling Pless e a guitarra de Johan Surrballe Wieth formando uma gigantesca chama musical. Se o Muse alguma vez ousou fazer algo parecido, está muito distante do que o Iceage parece ter feito naturalmente.
É difícil ser autoindulgente e, ao mesmo tempo, divertido e sexy. Para o Iceage? Fichinha. Em “The Day The Music Dies”, o som pendular dá a entender que admirar o apocalipse não é uma ideia assim tão ruim. Entretanto, isso não fica óbvio na composição do grupo. Ao dizer que ‘o futuro não começa e o presente nunca termina’, o vocalista Elias Bender Rønnenfelt alerta que a forma com que lidamos com o tempo não impede o elemento-surpresa. O apocalíptico, aqui, está no ‘dia em que a música morrer’, exemplo de como a essência da vida (a música, no caso do Iceage; talvez a sua família, para você) está prestes a ser arruinada. Pelo quê? Bom, aí já foge do propósito da canção.
Também operando uma espécie de tique-taque melancólico, em “Thieves Like Us” a banda prova que termos complicados não são barreiras para expressar situações, digamos, peculiares: ‘Ouça a razão enquanto eu expresso minhas especulações com o cérebro de uma boneca inflável’.
Mas, o que liga a crônica de um soldado em campo de batalha à filosofia estapafúrdia de “Thieves Like Us”? A cereja do bolo está em “Take It All”: ‘E todo mundo é criminoso/Todo mundo é criminoso, cada pedacinho de você é criminoso/Porque o mundo é um crime’.
O que é mais hobbesiano que toda essa noção? Por mais sombrio, decepcionante e distópico que seja, não passamos de lobos de nós mesmos. Não que Beyondless venha reafirmar o que Thomas Hobbes disse no século XVIII. Para o Iceage essa noção é um axioma, e os inúmeros exemplos e argumentos das 10 ótimas canções do disco provam isso, cada uma à sua maneira.
Leia também: Horse Rotorvator (1987), do Coil, na seção Grandes Álbuns
