Gravadora: Rocinante
Data de Lançamento: 6 de junho de 2019

Disco da Semana: Letieres Leite Quinteto | O Enigma Lexeu

A percussão é o que realmente move o maestro e compositor Letieres Leite. Pra ser mais específico, a percussão baiana, que norteia seu trabalho com a big band Orkestra Rumpilezz e sua nova formação, Letieres Leite Quinteto, que acaba de lançar seu primeiro disco.

O Enigma Lexeu é resultado de uma jornada que segue o percurso do jazz rumo a uma direção inexata.

O fato de os integrantes usarem panos e apetrechos que escondam o rosto serve de estímulo a uma criatividade conjunta, dentro de um modus operandi interdependente.

Disso, Letieres entende, e muito bem.

O quinteto é formado por Luizinho do Jêje (percussões), Ldson Galter (contrabaixo), Marcelo Galter (teclados), Tito Oliveira (bateria) e Letieres Leite assumindo sax e flautas.

Todos os elementos musicais são pontuados a partir da percussão, como se ela fosse a origem de tudo. O som é parte do que Letieres chama de “Universo Percussivo Baiano”, ou UPB.

Os demais instrumentos materializam as ‘transmissões rítmicas’, um desdobramento de seus estudos desde os anos 1980, quando começou a testar tanto com big bands, como com quinteto.

O Enigma Lexeu: universo próprio

Letieres Leite é cuidadoso com suas composições porque vislumbra a antropologia social da Bahia, a expressão de um povo que carrega o fardo histórico de muitas lutas e muita, mas muita vivacidade.

Nos 7 temas de O Enigma Lexeu, o ouvinte é transposto para um universo de linguagens, expressões culturais e diversidade artística.

Trabalhar com um quinteto está longe de limitar a amplitude musical de Letieres. Na verdade, ela atinge outros níveis de catarse.

Letieres permite um solo estupendo de flauta em “Patinete Rami Rami”, que brinca com a linguagem cíclica do hard-bop, deixando-a dissolver lindamente em um tema esvoaçante.

Ldson Galter é a principal âncora de “Mestre Moa do Katendê”, porque faz do grave de seu baixo um tipo de escala que se agiganta pela proposta rítmica dos teclados de Marcelo. Esta composição foi criada em 2005, quando Letieres quis homenagear seu primeiro mestre musical, Moa do Katendê, capoeirista e percussionista assassinado no dia de votação das eleições presidenciais de 2018. Nessa faixa, o sax de Letieres lamenta profundamente, enquanto as percussões fritam com fervor ao fundo, como se a música decidisse se intensificar como honra ao mestre.

Letieres Leite é vida

De todos os músicos presentes, Letieres destaca o trabalho de Luizinho do Jêje. “Quando ele traz as suas divisões é um aprendizado para mim. Não que os outros músicos não me tragam surpresas lindas, como uma célula, um ritmo ou um título, mas o Luizinho vem com a substância e faz a aproximação com a matéria-prima primordial para que eu possa criar as composições e os arranjos”, afirmou o bandleader.

A riqueza do trabalho percussivo mostra que ela representa muito mais que pulsação.

Em O Enigma Lexeu, ela transcende para os mistérios e a resolução da vida, dicotomia que coexiste a todo momento, como se fosse necessária para seguirmos nossa aventura e deixar-nos surpreender com as reviravoltas da vida.

A música de Letieres Leite se trata exatamente disso: de encontros e desencontros entre presente, passado e futuro; de tensões e paz; de celebração e amadurecimento; de diversidade e longevidade.

Por isso é tão difícil traduzir o que este compositor soteropolitano realiza. Seja com 5 ou com 25 músicos, sua música transborda emoções e novos aprendizados.

Outros lançamentos relevantes:

Bruce Springsteen: Western Stars (Columbia / Sony Music)
Shellac: The End of Radio (Touch & Go)
Konx-om-Pax: Ways of Seeing (Planet Mu)

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