Gravadora: Epic
Data de Lançamento: 19 de junho de 2012
Avaliação: 9.5/10

Fiona Apple gosta e sabe falar de dor.

Em “Every Single Night”: ‘É aí que a dor chega/Como um segundo esqueleto/Tentando se encaixar sobre a pele’.

“Daredevil”: ‘Não deixe eu me arruinar/Talvez eu precise de uma dama de companhia‘.

“Valentine”: ‘Sou uma amorosa, mas fora de alcance/Uma naturza-morta de pêssego‘.

“Jonathan”: ‘Beije-me enquanto eu calculo e calibro o amor de Deus’. Hã? ‘Não me faça explicar‘.

Isso que me ative às quatro primeiras canções do disco.

Falar de tudo isso é um prazer para Fiona. A dor faz parte da vida, e te ensina a lidar melhor com ela.

Não é nada surpreendente para quem já conhecia a cantora desde os tempos em que ela mostrou-se uma adolescente rebelde de conteúdo com o marcante vídeo de “Criminal”, lá pelos idos de 1997.

Aos 34 anos, Fiona não sente saudades da juventude: já chegou a declarar em entrevistas que não tem vontade de conhecer ninguém com menos de 40, que prefere passar a maior parte do tempo em casa evitando as pessoas.

Seu quarto disco, The Idler Wheel…, não poderia vir de uma pessoa com característica diferente. É um ônibus de excursão de uma cidade assombrada.

The Idler Wheel…: receios e solidão

Durante o passeio, Fiona já te previne dos medos – vide a estranha capa do disco, que mostra o interior moribundo e confuso de seus sentimentos. Tê-los é natural. Se superar, ótimo, você é um sobrevivente. Se ficar preso, também não tem problema. Nada é maravilhoso, e essa ausência de beleza é exatamente o que a cantora tenta passar para os ouvintes.

A escolha de como chegar a isso foi muito sábia. The Idler Wheel… é um disco acústico, feito para deixar as vísceras expostas para quem quiser julgá-la. Foi feito sem pressão, ao tempo da cantora explorar melhor a si mesmo e evitar qualquer invasão marqueteira (“não quero pôsteres de singles ou shows”, disse).

Ela chamou o seu baterista de turnê Charley Drayton e pediu para que ele criasse algumas linhas para suas composições.

O disco foi construído ao longo de sete anos (seu último álbum, Extraordinary Machine, é de 2005), de forma paciente. O que mais impressiona é que ele não aparenta ter todo esse cuidado. É cru: pianos de ritmo cruzado, bateria que flutua entre o acid-jazz e o blues e até a própria coxa de Fiona dá a sua cadência.

A falta de delicadeza é a grande graça deste belo registro. Em “Regret”, as baterias intensas lembram Phil Selway e Fiona evoca o refrão com uma naturalidade assombrosa: ‘Fugi com minhas penas de pomba branca/Para absorver o mijo quente que vem da tua boca/Toda vez que você me encontra‘.

Tem também a resignação de “Left Alone”: ‘como posso querer que alguém me ame/Quando tudo que faço é implorar pra ficar sozinha?‘.

O mais fantástico de The Idler Wheel… é saber que tudo o que Fiona Apple diz pode ser aplicado a qualquer um. É uma reflexão às misérias de nossas vidas, que são tão válidas quanto as glórias.

Soa excêntrico, fúnebre e tenso demais? Sim. E isso é mais normal do que você pensa.

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