
01 Swing Bass Series 2 (Eu Não Vivo Sem Meu Baixo)02 Grito Em Hora Redonda03 Trago Boas e Más Notícias, Don04 Quem Disse Que Não Havia Monstro05 Garotas Que Erraram06 O Futebol07 Atropelamento e Fuga
08 Ana Lógica
Gravadora: Baratos Afins
Data de Lançamento: 1987
Adquirir via Locomotiva Discos
Em seu último show na desconhecida banda Nº 2, em 1984, Alex Antunes – lenda viva do jornalismo musical no Brasil, também conhecido como Pedreira Antunes – conheceu um nissei que tinha uma mecha de cabelo colorida e operava o som da casa.
Nessa conversa, Alex descobriu que Akira Tsukimoto se interessava por música eletroacústica e, na época, fazia experimentos com tapes, algo parecido com o que o guitarrista Robert Fripp fazia com os seus Frippertronics (para referência, ouça o álbum God Save The Queen/Under Heavy Manners, de 1980).
O nome curioso da banda veio porque duas amigas de Pedreira não quiseram sair com ele do Nº 2. Segundo Alex, aquilo era um erro e, por conta disso, sua próxima banda se chamaria As Garotas Que Erraram.
Akira estranhou uma banda formada por dois homens ter esse nome, então, concordaram em batizar a banda como Akira S e as Garotas Que Erraram, fazendo o japonês adotar o “S” pela pronúncia de seu sobrenome.
Naquele momento, a banda era o baixo frenético de Akira, a voz desesperada de Antunes e os tapes. Depois de algum tempo, outros músicos integraram a banda. Edson X – que também foi da banda GUETO – entrou para tocar bateria em um show e ficou. Corina Crawford acabou saindo da Nº 2 e assumiu os teclados. Futuramente, Anna Ruth, na mesma situação, assumiria a guitarra na banda.
É importante citar que as formações do Akira S e As Garotas Que Erraram foram bastante diferentes. Durante certo período, a banda chegou a ter dois baixistas e nenhum guitarrista, baterista humano, eletrônico, ou os dois. Mas guitarristas, percussionistas e outros instrumentistas também participaram do grupo – entre eles, os guitarristas Giuseppe “Frippi” Lenti e Miguel Barella (Voluntários da Pátria) e o baterista André Jung (Ira!). (Em uma passagem curiosa, Barella viabilizou a participação do baixista da banda alemã Can, Holger Czukay, em uma gravação da banda paulista.)
Antes de seu único álbum homônimo, a banda teve um importante momento em sua trajetória, que foi participar da coletânea Não São Paulo (1985), organizada pelo selo Baratos Afins – no mesmo estilo No New York (1979), elaborado por Brian Eno.
[pullquote]Akira S & As Garotas Que Erraram (1987) é um caldeirão onde entram porções de new wave, pós-punk e funk, confeitados com as letras marginais de Alex Antunes e servido com os grooves do baixo de Akira[/pullquote]
No disco entraram as faixas “Sobre As Pernas”, com uma notável influência do Joy Division, “Kkbalah” e “Swing Basses Series I – Eu Dirijo o Carro Bomba”.
As faixas “Eu Dirijo o Carro Bomba” e “O Futebol” ainda entrariam nas coletâneas de New Wave brasileiro, Não Wave (Alemanha) e The Sexual Life Of The Savages (Inglaterra), lançadas na Europa, em 2005.
Fazendo uma análise bem resumida e subjetiva, Akira S & As Garotas Que Erraram (1987) é um caldeirão onde entram porções de new wave, pós-punk e funk, com pequenas doses de gêneros musicais brasileiros, além de uma mistura dos ingredientes do Joy Division e da fase mais ligada aos delays, loops e outras parafernálias eletrônicas de Robert Fripp, confeitados com as letras marginais de Alex Antunes e servido com os grooves do baixo de Akira.
À receita também pode-se adicionar os experimentos com instrumentos como o Chapman Stick – mistura de guitarra e contrabaixo, comum no rock progressivo –, guitarras sintetizadas e o acessório e-bow – aparelho que transforma o timbre da guitarra em sons de violinos, flautas e outros instrumentos.
Na noite em que criaram o projeto, Akira e Antunes compuseram a primeira música que entraria no álbum de estreia. O vocalista já possuía uma letra e, misturando-a a alguns efeitos das fitas, nasceu “Atropelamento e Fuga” (também gravada pelo grupo Skowa & A Máfia). Nela, não há como esquivar das linhas de baixo ágeis e funkeadas de Akira – ou da voz esganiçada de Alex – e prestar atenção nas diversas camadas de efeitos da música que, em alguns momentos, chegam a oscilar como som de sirene.
Os graves da faixa são muito presentes e parecem ter exatamente as notas certas; a bateria acompanha; a melodia é bem linear e possui poucas – mas significativas – variações.
Em “Swing Bass Series 2 (Eu Não Vivo Sem Meu Baixo)” tudo parece dobrado. Há um baixo tocando harmônicos, enquanto outro abusa dos slaps. Também parece haver duas baterias: uma máquina de ritmo, com um bumbo sem pausas e sons de palmas; e uma bateria comum.
Em “Quem Disse Que Não Havia Monstro”, o teclado possui timbres característicos e o baixo aparece com som de fretless, ou seja, sem trastes. É uma das melhores letras de Antunes.
Vale também destacar “O Futebol” e “Garotas Que Erraram”. A primeira começa com gravações de narração de um jogo, misturada a uma percussão de samba. Apesar do peso, há viradas carnavalescas. A segunda é uma das mais experimentais do disco, com linhas poucos variáveis de baixo, bateria e guitarra como pano de fundo para depoimentos que, ora parecem o discurso de uma garota que perdeu sua virgindade, ora o discurso de uma psicóloga sobre sexo.
Se São Paulo fosse Nova York, e tivesse uma cena no-wave, pode ter certeza que Akira S & As Garotas Que Erraram seria sua obra mais representativa.
