Lembro que caí no gosto assim que vi o clipe de “Um Bom Lugar”, quando passou pela primeira vez no Yo!, lendário programa da MTV nacional que, naquele tempo, tinha Thayde como apresentador. Como era bem chegado ao rap, comprei uma camiseta com a figura do Maurinho (vulgo Sabotage) e andava com camaradas que sabiam cantar quase todas as músicas de Rap É Compromisso.

Único disco de estúdio do promissor rapper, Rap É Compromisso pode ser considerado um ‘avant-rap’, um passo adiante no cenário. Em primeiro lugar, importante dizer, foi um dos primeiros discos de rap a expandir as trincheiras com outros gêneros. Para comprovar, vide a participação de Chorão em “Cantando Pro Santo”, algo que até então era inconcebível para o rap. (Tudo bem que isso só foi possível porque o cantor caiu nas graças do rap. Não há nenhum elemento que ligue ao rock do Charlie Brown Jr., mas não deixa de ser um passo adiante.)

Mas a grande ruptura do disco é mostrar que o rap podia romper com aquela estética ‘espreme que sai sangue’ – expressão que o próprio Sabotage usava. De início, o disco iria se chamar Sabotage Brooklin Sul, mas, talvez porque era muito mais apropriado, ficou como Rap É Compromisso.

A faixa-título é quase um manifesto. Além de valorizar a importância do gênero para as periferias, mostra uma faceta descontraída de um cara que ‘bola logo esse fininho’ e traça uma narrativa bem objetiva para falar de personagens recorrentes do gueto: caras que caem para o crime, pessoas que ganham dinheiro, uns que não sabem o que fazer etc. Os backing vocals de Negra Li, com uma base funk quase dançante, dão um tom ‘esperançoso’ para as periferias.

Na verdade, o próprio Sabotage preferia ver o lado bom de ser pobre do que procurar motivos para descontar nos outros. Isso fica latente em “Um Bom Lugar”, onde novamente ele fala do Brooklin utilizando expressões como ‘honrar’, ‘provar’, ‘humildade’ e muitos outros para reforçar a ideia positivista.

Com a propriedade de conhecer o lugar que mora, Sabotage traz rimas cantadas, de fácil assimilação, tal qual um trovador das favelas. Nesta canção, Black Alien surge com sua voz impactante e chega a rimar ‘PhD, THC no país de FHC’ em uma de suas melhores construções poéticas. (Lembro que tentava entoar de qualquer jeito essa rima dele, mas nunca conseguia!)

Um dos grupos responsáveis pela ascensão e gravação do primeiro disco do Sabotage foi o RZO. O produtor do disco foi DJ Cia, que trouxe muita música de salão para que as composições de Sabotage surfassem numa maré prolífica. Sandrão e Helião ajudaram em algumas rimas e cantam em “Respeito É Pra Quem Tem”, uma das marcas registradas de um artista que valorizava sua capacidade de cantar para multidões.

Rap É Compromisso é um dos poucos discos que você pode apertar o play com segurança, do começo ao fim.

“Cocaína”, que começa com um sampler dos Racionais, traz a participação de Sombra e Bastardo, do SNJ, e fala das maleficências da droga; “A Cultura” fala da importância de valorizar o rap, com participações de Rappin’ Hood e Potencial 3; “País da Fome” tem uma base mais gélida e fala sobre como a falta de um prato de comida na mesa afeta o ser humano, trazendo inúmeros exemplos que talvez ele já deve ter presenciado.

Sabotage representava a novidade, mostrando que o rap pode quebrar a sisudez e atingir novos públicos. Em pouco tempo, ele também estava gestando sua carreira como ator, participando de filmes como O Invasor e Carandirú.

Quando recebemos a notícia, em 24 de janeiro de 2003, que o rapper foi assassinado, não foi apenas os fãs, parentes, conhecidos e admiradores de seu trabalho que lamentaram sua partida repentina. A música, o rap, a cultura nacional sofre com essa perda até hoje.