Gravadora: Epic/Freebandz
Data de Lançamento: 18 de janeiro de 2019
Avaliação: 8/10

Gravadoras e músicos traçam estratégias elaboradas para trabalhar a promoção de um artista, mas poucos conseguem compreender como Future, um rapper de flow desacelerado, meio dopado até, conseguiu se tornar um dos mais queridos da atualidade.

Essa é uma questão que intrigou até o veterano Andre 3000, que acabou lhe dando ainda mais publicidade ao denominar seu som de ‘depressivo’ em documentário do Apple Music para promoção de seu novo disco: Future Hndrxx Presents: THE WIZRD.

Sabendo como funciona o jogo, Future respondeu que não se importava. Assim, foi fácil tirar do topo das paradas Billboard o parceiro 21 Savage.

Um Future ostensivo

Com THE WIZRD, sua persona mais ligada à ostentação e curtição de vida lhe deu um novo propósito artístico, em que opulência e bem-estar já estão dissociados ao uso de drogas e aditivos.

Diferentemente dos primeiros discos, muito associados ao consumo e tráfico de drogas, THE WIZRD aparenta ser um rolê mais saudável. Dinheiro, festas e carrões continuam compondo o cenário de suas músicas, com a diferença de que Future soa mais desprendido.

A aproximação do rap com a sociedade de consumo não só se estreitou nos últimos anos; com o trap, essa fusão tornou-se inevitável.

Future não segue uma corrente contrária; inclusive, ele é um dos músicos mais espertos ao fazer das repetições mecanizadas a cada verso um recurso para enfatizar o que tem pra dizer.

Técnica sofisticada

Em termos de discurso, Future tem pouco a acrescentar. Seus ganchos, porém, formam uma conexão matadora com os beats, gerando um forte poder de atração nas músicas.

Geralmente começa com uma produção defasada. Entra a voz de Future, obscurecida por autotune. As coisas entram em um fluxo estranho: cada verso possui dupla entonação, com o último gancho reforçando o penúltimo.

Nessa construção atmosférica, o silêncio é um componente tão valioso quanto a continuidade percussiva. O resto é puro magnetismo de Future.

Uma vez assimilada, essa técnica pra lá de sofisticada faz com que o ouvinte repita a torto e direito o refrão repetitivo de “Jumpin’ On a Jet” ou fique pasmo com o poder hipnótico de “Crushed Up”.

Os discos de Future são tão longos quanto qualquer mixtape de trap (coisa que os populares Migos e Young Thug também fazem). Entretanto, não se tem a impressão de ouvir variações de uma mesma música, como costuma acontecer com alguns trappers.

Aqui, cada música possui um enredo paralelo. “Krazy But True” parece estar em um cenário obscuro e fantasmagórico, enquanto Future diz que ‘morreria por você’ no que parece uma viagem psicotrópica. “Stick to the Models” parece estar ambientado em outro planeta para falar sobre boas noitadas de sexo (com boa coprodução de Metro Boomin).

ATL Jacob ajusta o que parece simples ao flow metronômico de Future. Basicamente, as produções têm, no máximo, três variações: o início, puxado pela tensão; o momento de conexão com os versos, em que a continuidade enfatiza o canto do rapper; e as variações e justaposições antes de fechar a ideia da canção.

Assim, a modulação sonora obedece mais às respostas de Future que à produção em si. Pegue “Call the Coroner”: um diálogo que lembra algo extraído da série The Wire impõe um drama cinzento, elevado pelo thriller sobre a vida no tráfico da composição. Em “Overdose”, a estrutura não muda muito; mas a abordagem e entonação de Future, ao usar o termo associado às drogas para uma ‘overdose de riqueza’, a torna mais cantarolável.

Rap star

A grande verdade é que Future é um rap star mais talentoso do que aparentava nos trabalhos anteriores. De certa forma, HNDRXX é o seu Ziggy Stardust, só que mais bem-humorado, rico e repleto de boas companhias: como o idôneo Young Thug, que colabora com sua entonação ao fim dos versos em “Unicorn Purp”; e o sério Travis Scott em “First Off”, mais um a entrar no jogo da opulência financeira.

Em seus próprios termos, Future convence os ouvintes a repetirem seus refrãos viciantes. Ele parece não fazer esforço, mas sua persona bem-sucedida, que deu ares de superar problemas anteriores com drogas, possui um carisma único.

Mas, não pense que THE WZRD não tem nada de sofisticado; o trap agora é pop, e o pop fisga ouvintes e novos fãs pela repetição e aparente despretensão. E isso, meu caro, tem de sobra neste álbum.

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