O trompetista Ambrose Akinmusire, um dos mais talentosos da geração atual de jazz, quis fazer diferente em seu novo disco, Origami Harvest: protestar contra o racismo na América, de forma antropológica, como é comum ao gênero, mas testando suas habilidades de bandleader.
Orrin Evans, outro instrumentista excelente, também segue vias de superação em Presence, à frente da Captain Black Big Band.
Seria essa a única direção do jazz? Claro que não – embora trate-se de um caminho de extrema relevância. A excelente saxofonista Tia Fuller, por exemplo, propõe a busca de novas texturas, enquanto o Quartette Oblique, comandado pelo experiente Dave Liebman, trata de subverter clássicos de nomes como Miles Davis e Chet Baker.
A lista dos melhores discos recentes de jazz também vem com Phronesis, o disco de Full Blast (de Peter Brötzmann), gravado numa apresentação no Rio de Janeiro, a união entre bateria, acordeom e bandolim no álbum Folia de TReis, de Edu Ribeiro, e mais.
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Origami Harvest
Ambrose Akinmusire
Gravadora: Universal/Blue Note
Data de Lançamento: 12 de outubro de 2018
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Ao lançar The Imagined Savior is Far Easier to Paint (2014), o trompetista Ambrose Akinmusire sugeriu um encontro com pop e hip hop pelo torto caminho do avant-garde – ou seja, de forma imprecisa, mas original. Seu lado ‘conector’ é mais uma vez potencializado em Origami Harvest, só que mirando algo mais conceitual: sabemos tratar-se de um protesto pelas menções vocais (de Kool A.D.) ao jeito americano de levar a vida e, especificamente em “Free, White and 21”, relembrar diversos nomes que não tiveram o mesmo tratamento da justiça após serem assassinados por policiais.
Para um artista que já conquistou a relevância de ser um instrumentista ímpar, Ambrose tem investido menos nos solos de trompete (embora vejamos bons momentos, como em “A Blooming Bloodfruit in a Hoodie”) em busca de pinceladas mais abstratas, repletas de borrões, cores fortes e intensidade dramática. É Jackson Pollock brincando com as formas de Manet, abrindo mais uma das diversas ramificações do jazz como forte expressão de protesto.
Leia também: Por que Ambrose Akinmusire é um dos melhores trompetistas da atualidade

Big Heart Machine
Big Heart Machine
Gravadora: Outside in Music
Data de Lançamento: 24 de agosto de 2018
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O álbum de estreia do Big Heart Machine pode ser um bom caminho para entender os rumos das big bands atuais de jazz. Na sua estreia com o projeto, o saxofonista Brian Krock (jovem compositor que já trabalhou com Dave Liebman e Lalah Hathaway) criou uma narrativa que traz um pouco dos tons ‘pastorais’ de Maria Schneider, tenta encontrar o balanço de um Dave Douglas e não receia em expandir suas matizes para uma portentosa intersecção de metais.
Claro que, para isso, Krock conta com uma orquestra de 19 músicos, liderados pelo maestro Miho Hazama, e importante trabalho na produção de Darcy James Argue (da Secret Society e pupilo do renomado compositor Bob Brookmeyer). O resultado é um compêndio de músicas elegíacas: da narrativa dos 5 trechos de “Tamalpais”, passando pela grandiosidade nos arranjos de “Jelly Cat” ao suspense criado em “Mighty Purty”, Big Heart Machine conecta Ravel à música folk atual com riqueza de detalhes e ótimas performances do vibrafonista Yuhan Su, dos saxofonistas Charlotte Greve (alto e soprano, além de clarinetes) e Paul Jones (sax tenor, clarinete e flauta), além do trompetista Kenny Warren, destaques de um ensemble que ainda tem a evoluir, mas já se impõe como grande coisa.

Wonder Trail
Dinosaur
Gravadora: Edition
Data de Lançamento: 4 de maio de 2018
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Assim como o BADBADNOTGOOD, o grupo Dinosaur entra naquela categoria de grupos de jazz que agradam um público que não consome jazz. Isso vai além da variação estética, que engloba rock, noise, eletrônica e psicodelia. No caso de Wonder Trail, segundo disco do quarteto londrino liderado pela trompetista Laura Jurd, é estabelecida uma frequência difusa em que sintetizadores e teclados disputam o protagonismo com instrumentos mais ‘tradicionais’ do gênero, como trompete e baixo. É um disco que deve mais à influência de nomes como Kraftwerk e Yellow Magic Orchestra que Miles Davis ou Ronny Jordan, por exemplo – vide as estranhas inserções vocais em “And Still We Wonder” ou a pendular “Quiet Thunder”.
Laura Jurd compôs todos os temas de Wonder Trail e conta com a importante colaboração do tecladista Elliott Galvin, que funciona como principal motivação para as efêmeras explosões de Laura nos sopros. A jazzista disse que a música pop e folk também é clara influência no disco, algo que se percebe no andamento de “Old Times’ Sake” (provavelmente inspirada em uma trilha de game de 8-bit) e na vontade de se libertar das amarras de “Set Free”, em que até gospel entra como referência.
Destaque, também, para a combustão de “Forgive, Forget” e o estranho pacifismo de “Swimming”, que mescla solos reflexivos de trompete com barulhos que remetem ao synthpop mais esquizofrênico dos anos 1980.

Folia de TReis
Edu Ribeiro, Fábio Peron & Toninho Ferragutti
Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 7 de setembro de 2018
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O baterista Edu Ribeiro tinha uma ideia diferente de proposta rítmica quando decidiu unir o bandolim melódico de Fábio Peron e o acordeom abrangente de Toninho Ferragutti: a julgar pelo resultado desse encontro, em Folia de TReis, esse diálogo é um despejo de emoções que, na sua essência, tem na linguagem das culturas populares de várias regiões brasileiras seus vários pontos de encontro.
“A Física”, tema de Edu, tem a melancolia da música indígena, enquanto “Procure Saber”, de Fabio, remonta à alegria do frevo e do forró nordestino.
Cada músico contribuiu com três composições em Folia de TReis (com exceção de Edu, que tem uma a mais), porém o foco melódico dos instrumentistas expande o que chamaríamos de referências brasileiras. Temos o mais tradicional de nossos ritmos em “Choro Suspirado”, mas a complexidade da música ibérica pulsa forte em “Tá Sobrando Carisma”, uma aula de dinamismo. Os enredos de temas como “O Guarani da Palhoça” e “Alfredo” são storytellings alegres que lembram distintos personagens desse lugar tão multiétnico que é o Brasil.
Leia também: A Gata Café, de Toninho Ferragutti, na seção Grandes Álbuns (2016)

Rio
Full Blast
Gravadora: Quintavant/Trost Records
Data de Lançamento: 5 de outubro de 2018
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Peter Brötzmann é um ótimo ponto de partida para conhecer e se fissurar em free-jazz. Desde os anos 1970, ele encorpa como poucos cada nota dos ágeis solos que cria no sax alto e soprano. Mais que consolidada, essa força musical é tão bruta quanto criativa – algo que ele mostrou ao vivo numa apresentação no Rio de Janeiro em julho de 2016, na Áudio, encerrando a turnê com o Full Blast, power-trio que mantém ao lado de Marino Pliakas (baixo elétrico) e Michael Wertmuller (bateria).
Brötzmann chega em alta combustão do começo ao fim, intercalando entre alto e soprano. Pliakas e Wertmuller têm pés na escola mais noisy do jazz. Só que, para estimular toda essa energia, o trio opera da forma mais orgânica possível. Tem-se agilidade na mesma medida em que se tem uma alta rotação de notas e sentidos percussivos.
O solo de bateria que introduz “Rio Two”, por exemplo, é perpendicular, mas não demora para que Pliakas e Brötzmann criem um gigantesco campo sonoro repleto de uma raiva punk. O tema que encerra o álbum ao vivo, “Rio Five”, parece o interlúdio de uma batalha inevitável que está por vir. O agito se manifesta de diferentes formas: Wertmuller vem com um rufar assíncrono, enquanto Pliakas enche o clima de gravidade e Brötzmann, bem, soa como o líder de uma multidão revoltosa.
Leia também: Risc, do Full Blast, na seção Grandes Álbuns (2016)

Presence
Orrin Evans & Captain Black Big Band
Gravadora: Smoke Sessions
Data de Lançamento: 21 de setembro de 2018
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Orrin Evans é um dos pianistas mais modernizadores do jazz atual, mas sua atuação à frente da Captain Black Big Band pende mais para o lado estimulador que performático. Ele é a ponte para que o naipe de metais composto por 11 músicos chacoalhe de vez o cérebro do ouvinte, num modus operandi que liga a jungle-music de Duke Ellington às composições obtusas da contemporânea Maria Schneider.
O elo dos temas está ligado ao piano de Orrin. Ele começa tranquilo, com ataques moderados, até que os metais entram em diferentes propostas uníssonas, fragmentando-se aos poucos. Nessa dinâmica, Orrin preferiu tirar o baixo de cena e caminhar paralelamente com o baterista Anwar Marshall. O resultado é um som mais solto, com entradas imprevisíveis, mas que surpreendem por manter a intensidade lá no pico.
Leia também: Como Orrin Evans alinhou o virtuosismo como pianista e bandleader em Presence, de Captain Black Big Band

We Are All
Phronesis
Gravadora: Edition
Data de Lançamento: 14 de setembro de 2018
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O Phronesis não é bem o power-trio que você espera de jazz. O contrabaixo de Jasper Høiby tem tanto ou mais destaque que o piano de Ivo Neame. Eles costuram as melodias e formam um entrelace complexo (“Breathless” é um exemplo que salta). Às vezes parece que formam um só instrumento – algo que, aos poucos, absorve a bateria de Anton Eger.
No 8º disco, o grupo baseado em Londres propõe mesmo a ideia de união e equilíbrio, muitas vezes alterando as formas dos temas. “Matrix For D.A.” é essencialmente melódica, mas opta por seguir um caminho de constante desenlace, com um toque bem-humorado. “The Three Did Not Die” já começa rígida e segue cambaleando, mas de forma racionalmente estruturada. Isso porque o Phronesis não institui quebras bruscas – as quebras são a própria manutenção rítmica de We Are All, algo que se aplica muito bem à nossa passagem aqui na Terra: seguimos adiante, mesmo que por caminhos tortuosos.
Leia também: Parallax, 6º disco do Phronesis, na seção Groovin’ Jazz (2016)

Quartette Oblique
Quartette Oblique
Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 12 de outubro de 2018
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Ouça tudo que Dave Liebman lança. Tô falando sério! O que ele faz com sax-tenor e soprano não tem paralelos. É discutível se ele é o melhor ou não, mas uma coisa é certa: ele impacta. Chacoalha teu cérebro. Digo isso pasmo com a performance que ele apresenta com o projeto Quartette Oblique, que na verdade nem dele é; é do baterista Michael Stephans, que também reuniu o pianista Marc Copland e o baixista Drew Gress numa apresentação na Pensilvânia.
Sabe o que é melhor? Liebman não é o único destaque. Pela via do improviso, o quarteto não teve receio em subverter clássicos impagáveis do jazz. “Nardis”, de Bill Evans, surge mais abrangente, enquanto o standard “You and The Night and The Music”, famosa nas versões de Chet Baker e Frank Sinatra, ganha uma pincelada moderna com todo o requinte de Liebman no tenor.
Dois temas de Kind of Blue (1959) são acelerados pelo quarteto: “All Blues”, com uma levada diferente de bateria; e “So What”, que agiliza a melodia inicial e atinge um extremo que a torna irreconhecível – mas, como era de se esperar, sensacional.

Ancestry
Sunna Gunnlaugs Trio
Gravadora: Sunny Sky
Data de Lançamento: 6 de setembro de 2018
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A pianista islandesa Sunna Gunnlaugs tem a sutileza de um Ravel – característica que lhe garante certa autoridade melódica com seu trio. A chegada do trompetista finlandês Verneri Pohjola permite pincelar cores mais fortes em seus temas, que funcionam como belas paisagens montanhosas. O melhor exemplo está na faixa-título, em que a dinâmica piano-trompete se modula lentamente até que cada um entregue o melhor de si.
Em temas como “January” e “February”, temos planícies cheias de detalhes límpidos. “A Major Deal” multidimensiona as pretensões rítmicas de Sunna em uma das grandes performances do disco. Todos os 13 temas são cristalinos e criam forte identificação com ouvintes inquietos. À primeira vista, parece que ela foca em peças melancólicas quando, gradualmente, elas formam uma linha comunicativa que atiça diferentes sentidos.
Todas as composições são de Sunna, com exceção de “Wake Me Up Before You Go Go”, do Wham!, que transporta sua animação a um ambiente de quieta chapação. Pode acompanhar um uísque do bom ou uma cachacinha esperta.

Diamond Cut
Tia Fuller
Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 25 de maio de 2018
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A saxofonista Tia Fuller é experiente nos fraseados. Ela puxa um pouco do soul de Archie Shepp e o vigor expressivo de Vi Redd. Com mais de 10 anos de experiência como bandleader, ela tem se concentrado na banda de turnê de Beyoncé nos últimos anos, fortalecendo essas características em busca de transparência sensorial. Isso se materializa em sons identificáveis e com melodias originais, que vão do blues (“Crowns of Grey”) a um tipo de cool-bop que se desintegra aos poucos, vide “Queen Intuition”.
O grupo que acompanha a saxofonista em Diamond Cut é formado pelos experientes Dave Holland (baixo) e Jack DeJohnette (bateria), além de participações de Terri Lyne Carrington, que assume a produção do disco, e outros instrumentistas que se alternam. Eles constroem um pano de fundo que soa minimalista e, ao mesmo tempo, bem dinâmico.
“In the Trenches” opera sob o groove cíclico do baixo, com sopros que contornam e amplificam a estrutura rítmica. Já a balada “Delight”, em que Fuller toca o sax-soprano, parece a assimilação de um ambiente pacífico, sem interferência de pessoas, dispositivos ou bichos. É o mais próximo da pureza que Fuller consegue registrar – e isso inclui possíveis desvios, seja lá qual forem.
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