Gravadora: Liberty
Data de Lançamento: abril de 1970
Uma das características mais emblemáticas do kraut-rock é servir como resposta tardia aos efeitos da II Guerra Mundial de uma Alemanha arrasada. Funcionava mais do que revisionismo da ideologia preconceituosa do nazismo; diversas comunidades, na tentativa de se reerguer, surgiam mais ou menos como ‘experimentos sociais’. E, naquela Berlim ainda acinzentada pela fumaça arrasadora da guerra, podemos dizer que a Alemanha produzia tipos diferentes de comunidades hippie. Uma delas, no caso, era o Amon Düül.
No final dos anos 1960, o grupo formado por Chris Karrer, John Weinzierl, Peter Leopold, entre outros, era uma dessas comunidades de pensamento ‘livre’ – algo que se materializava em um tipo de som tão aberto quanto difuso, porque várias ideias de diferentes campos artísticos acabavam se confundindo.
Para um foco mais musical, surgiu o Amon Düül II, concentrado em materializar as muitas ideias sônicas em algo mais coeso. “Cometemos um grande erro em simplesmente adicionar o 2 ao nome”, disse John ao site The Quietus. “Isso levou a um desentendimento de que tudo se tratava de uma coisa só. Fico muito surpreso quando as pessoas pegam alguns daqueles lixos de discos (do Amon Düül) e dizem que são bons”.
Yeti: da psicodelia ao free
Pouco tempo depois de estrear como Amon Düül II com o disco Phallus Dei (1969), não demorou para que o público, ainda que diminuto, sacasse a forma diferente com que a banda mesclou sujeira, psicodelia e experimentalismo.
Com Yeti, então, a coisa foi ainda mais absurda.
A começar pela capa com um ceifador que parece envolto a uma labareda. A imagem é de Wolfgang Krischke, um dos membros originais da comunidade Amon Düül. Pouco tempo depois de tirar esta icônica foto, ele morreu de hipotermia ao viajar para a casa dos pais em um inverno rigoroso e se perder após tomar LSD.
Trata-se de um disco tão ou mais chamuscante que os solos mais frenéticos do então recém-falecido Jimi Hendrix.
Quando ainda mal se falava de rock progressivo, o Amon Düül II estava inserindo o rock dentro do contexto de free-jazz – tanto que muitas das sessões que compõem o disco realmente foram gravadas no improviso, vide a longa faixa-título, com mais de 18 minutos que parecem uma jornada melancólica num planeta caótico.
Amon Düül II: surreal, mas profissional
Urros, sons metálicos de guitarra, uma ininteligível dinâmica de instrumentos de sopro e baterias espaciais dão um bom panorama do que se trata Yeti.
A maestria está em como todas essas justaposições formam uma expressão única.
Quando o baixo de Dave Anderson é protagonista – vide “Halluzination Guillotine” – temos o enredo fantasioso de algo que não demora para borbulhar a mente do ouvinte.
Nos momentos em que assume o violino, Chris Karrer parece direcionar a música para um Oriente que desconhece: em “Flash-Coloured Anti-Aircraft Alarm”, ele pincela com violência um ambiente esfumaçado que, na descrição de John Weinzierl, é tão vívido quanto surreal.
“Archangel Thunderbird” destaca a voz empedrada de Renate Knaup, que atinge altos registros vocais com a destreza de uma entidade – enquanto riffs despedaçados de guitarra dão o contorno apocalíptico que formam a atmosfera obscura do álbum.
Em pouco mais de 5 anos de jornada antes de chegar a Yeti, o Amon Düül II foi do canto gregoriano à improvisação livre em suas explorações. Mas em nenhum dos registros anteriores conseguiu ser tão consistente e bem amarrado quanto neste álbum duplo.
Numa época em que o rock progressivo trilhava caminhos mais versáteis, o grupo alemão conseguiu trazer espontaneidade a seu estilo todo gótico-psicodélico. “A música, aqui, encontra um balanço entre noisy e harmonia, hard e soft rock, gótico e pastoral”, avaliou o crítico Piero Scaruffi, citando até o compositor de música clássica Wagner como paralelo.
Leia também: Ege Bamyasi (1972), do Can: uma das obras mais importantes do kraut-rock
