Gravadora: Sire
Data de Lançamento: 3 de agosto de 1979
A partir de 1980, os Talking Heads inseriram o rock no formato de world-music, inspirados pela música africana, caribenha e, mais tarde, até mesmo a brasileira. Antes disso, porém, o grupo liderado por David Byrne linkava punk e new-wave numa estrutura que, para o que a banda se tornaria, era simples demais.
Por isso o single “I Zimbra”, adaptação da poesia dadaísta de Hugo Ball cheia de sílabas nonsense, é um importante ponto de inflexão nas pretensões de Byrne.
A onipresença da percussão, as guitarras swingadas de Robert Fripp (King Crimson) e a letra incompreensível de Byrne romperam de vez com qualquer expressão anglo-saxã que imperava no final dos anos 1970. Os solos de guitarras e sintetizadores soavam alegres, percepção que se mantém com a ótima performance que a banda preparou alguns anos depois para o inesquecível Stop Making Sense (1984).
Em contraste com a suposta euforia da world-music recém-assimilada pelos Talking Heads, pairava também o espectro do kraut-rock, influência vinda do produtor Brian Eno, que não poupou esforços para fazer a banda sair da zona de conforto – e dos sons límpidos.
More Songs About Buildings and Food (1978) deu um breve desvio, mas foi com Fear of Music que a banda se tornou idônea, mesmo enaltecendo repetições (dentro da lógica afro-beat) tanto a partir de uma insistência rítmica, quanto em sua lógica discursiva. Isso funciona tanto na alienante “Mind” quanto na estranha “Animals”, que brinca com a irracionalidade dos bichinhos.
A repetição conceitual de Fear of Music
O aspecto repetitivo apresentado em Fear of Music subverte a lógica de canções que parecem óbvias. Quanto a isso, o crítico Jon Pareles, em resenha para a Rolling Stone na época do lançamento, chamou de “reino da paralógica”, numa “franqueza quase infantil”.
Byrne e Eno propuseram esses loopings de forma pouco ortodoxa. Numa primeira audição, “Paper” pode parecer besta e sem graça. Experimente ouvir três, quatro vezes: ela gera um efeito diferente, como se resolvesse sonoramente aqueles enigmas de contemplar uma imagem e ver elementos escondidos – algo testado de forma mais sombria em “Drugs”, com um leve appeal do rock industrial, que ainda começava a florescer.
“Cities” é genialmente ancorada no baixo de Tina Weymouth, que dá liberdade para Byrne passear por cidades como Londres, El Paso e Birmingham pós-Revolução Industrial. A repetição do refrão dá ideia de aceitação, de consequência e até mesmo contestação.
Para gravar “Electric Guitar”, Tina disse que Byrne tinha apenas uns rascunhos no papel. “Nós não tínhamos terminado a canção, mas isso não tinha importância porque seria pedaços sem música ou contexto. Eu disse para ele ir frente, porque era muito estranho. Então, ele começou a cantar aquilo como se fosse um retardado”, disse a baixista.
Mais uma vez: uma composição boba, mas com um background rico que lembra bastante as doideiras sci-fi de Eno em Before and After Science (1977).
Talking Heads: artefato de dubiedades
Na cabeça de produtores mais radiofônicos, pelo menos duas canções teriam bons apelos para um resultado, digamos, mais retilíneo.
Uma é “Life During Wartime”, new-wave que poderia muito bem ir para as pistas, não fosse sua composição sendo um guia (que parece bem-humorado de cara, mas revela-se sombrio) de como viver em tempos de guerra.
A outra composição ‘palatável’ de Fear of Music é “Memories Can’t Wait”, que tornou-se um dos maiores hinos pós-punk do final dos anos 1970. Quase uma década depois, o Living Colour mostrou da melhor forma possível como ela soaria se tivesse o viés mainstream: excelente. Mas a versão de Fear of Music é mais cerebral, sinistra, cheia de efeitos que simulam lapsos temporais… Ou seja, mais conceitual. Melhor que soasse dessa maneira, mesmo.
Fear of Music é repleto de dubiedades que podem se resolver ou confundir ainda mais conforme as repetições. “Air”, por exemplo, é sentimental e ao mesmo tempo desesperadora. Ao afirmar, em “Heaven”, que o ‘paraíso é um lugar/onde nada acontece’, Byrne naturalmente contradiz a melodia ingenuamente pacificadora mantida pelo piano.
O álbum é ímpar mesmo na marcante discografia dos Talking Heads. Seu poder de impacto é tão grande que levou o escritor Jonathan Lethem a dedicar um livro inteiro para o disco, falando sobre como a obra ajudou-o a enxergar o mundo de forma diferente, em tom estritamente pessoal:
“É um diagrama de conexão com apenas um ponto. Um artefato que o convida a considerar seu possível encontro futuro com um artefato subsequente. Presumir dizer mais significaria trair o espírito do não-sei-ainda que ainda envolvia, para o menino na sala [no caso, o autor], meramente toda a área de tudo que é mais importante: cidades, drogas, sexo, música, memórias, vida”.
Expondo contrastes estéticos e subvertendo o que posteriormente se tornaria ‘lógico’ no pós-punk, Fear of Music é o momento em que os Talking Heads se afastam de vez do estrito universo do rock. E, sabe como? Fazendo rock. Um rock esquisito, frenético, imperfeito e incopiável.
Leia também: Remain in Light: o disco em que o Talking Heads expandiu de vez a new-wave (1980)
