Gravadora: RCA
Data de Lançamento: 9 de novembro de 1993

Assisti a muitos filmes de samurai e fumei o suficiente para esquecer o enredo da maioria. Na verdade, eu não estava nem aí pro enredo. Queria ver as batalhas sangrentas, aqueles movimentos de câmera que focam no olhar do personagem principal antes da próxima apunhalada.

A emoção da vitória era maior para os espectadores do que o dever cumprido para os personagens. Trata-se de uma emoção duradoura; você cresce, acha os diálogos idiotas, mas ainda pira ao testemunhar o triunfo da espada, os braços do inimigo se quebrando e o olhar perdido do grande vilão da história.

É uma pena que esses filmes não tenham envelhecido tão bem. Hoje em dia são rasos, previsíveis e toscos. Mas, eles deixaram um legado: o espírito e a emoção da luta. E, quando o Wu-Tang Clan captou isso em seu disco de estreia… Foi certeiro!

Enter the 36 Chambers é um disco que evoca essas emoções com uma potência vulcânica. Imagino a voracidade de 9 caras até então desconhecidos: Masta Killah, Ghostface Killah, Inspectah Deck, GZA, Raekwon, Ol’ Dirty Bastard, U-God, Method Man e 4th Disciple, todos sob a tutela de RZA, a mente principal em produção, bases, arranjos. É como se ele fosse o diretor de um filme com um casting de feras desconhecidas.

Segundo o biógrafo do grupo Alvin Blanco, GZA, por ser o mais velho, ensinou RZA a rimar por volta de 1980 – e RZA ensinou Ol’ Dirty. De certa forma, esse ciclo se sustentou até o grupo topar se reunir.

Mas foi o produtor quem teve a visão e bateu no peito para seguir adiante – muitas vezes de forma controversa. Ele prometeu: “se vocês me derem 5 anos da sua vida, prometo que em 5 anos levo vocês para o topo”. Não se pode dizer que RZA falhou.

Wu-Tang: clã de talentos

A estrutura de 36 Chambers é a de um longa-metragem. Começa com o diálogo de Shaolin & Wu-Tang (1983), filme de Gordon Liu que ilustra conflitos de diferentes escolas de artes marciais. Vem, então, “Bring Da Ruckus”: Ghostface chega bombástico num background meteórico de percussão e scratches. É uma avalanche que impressiona o ouvinte de cara. Chega Raekwon, Inspectah e, por fim, GZA, concluindo de forma avassaladora.

A seguinte, “Shame On a Nigga”, apresenta Ol’ Dirty Bastard, que tornou-se uma das figuras centrais por sua voz gangsta-anasalada: ao mesmo tempo em que trazia a leveza do humor, por outro tinha o peso intrínseco de uma revolta inexplicável.

RZA disse que foi importante o grupo ter surgido em Long Island, que ainda não tinha uma cena própria de rap: “Um grupo de 9 caras com base em matemática, xadrez, HQs e barulhos de espada jamais surgiria na cena artística de Manhattan. Somente numa ilha remota algo como o King Kong cresce em sua total capacidade”.

Enter the 36 Chambers: peso imprevisto

Mesmo como vocalista, RZA se apresenta bem. Ele conduz “Clan In Da Front” de forma incendiária na primeira parte, como se versasse sob fumaça. Na segunda, puxa o clã para o agito ao fundo.

Em cada som um membro vai se destacando: sob um baixo soul, “Can It Be All So Simple” mostra a excelente dinâmica entre Ghostface e Raekwon.

A seguinte, “Da Mystery of Chessboxin’”, tem uma das melhores intros (‘um jogo de xadrez é como uma batalha de espada: você precisa pensar antes de mover’) e mostrou o apreço de GZA por um game que passou a ser mais apreciado na comunidade hip hop.

Temos a sensibilidade da soul-music nas melodias (vide “C.R.E.A.M.”), a batalha meio horror-show de “Wu-Tang Clan Ain’t Nuthing ta Fuck Wit” e o peso de thriller sônico na pedrada “Protect Ya Neck”, single que apresentou o Wu ao mundo

Sonoramente violento, 36 Chambers foi efetivo no propósito de colocar no jogo tantos MCs talentosos. Numa era em que Dr. Dre dominava o mainstream com The Chronic (1992) e a MTV começava a se sintonizar com o rap reproduzindo o clipe de “Hip Hop Hooray”, de Naughty By Nature, o Wu-Tang Clan quebrou todos os polos possíveis do gênero.

Ninguém estava preparado para o gigantismo de 36 Chambers – tampouco para o que ele se tornaria, transformando o Wu-Tang Clan em uma marca mundialmente admirada.

Seja como for, o tempo passa, e permanece inexplicável a sensação que 36 Chambers passa. É vívido, intenso, uma chama que se fortalece a cada audição. Foda demais!

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