Gravadora: Virgin
Data de Lançamento: 20 de abril de 1998

Mezzanine é a obra máxima do Massive Attack, mas não pode ser considerado um disco de trip hop – mesmo se tratando do grupo que criou o trip hop.

Inclusive, Robert 3D Del Naja chegou a discutir com Andrew “Mushroom” Vowles durante a concepção do disco. 3D defendia uma abordagem com mais groove, em busca de um tipo de intensidade que fugisse da estrutura de um gênero que começava a se viciar.

Por isso, há um trabalho mais elaborado de mixagem, de extensões vocais e até mesmo de longas pausas, para que a dramaticidade fosse a mais orgânica possível e as influências, mais abrangentes.

É trip hop porque tem a assinatura do Massive Attack. Mas também é hip hop, jazz, reggae, pós-punk, progressivo…

As tretas de Mezzanine

Neil Davidge, produtor convidado para fazer com que o terceiro disco do Massive Attack saísse, contou que os membros estavam meio desencontrados nas sessões. Às vezes Mushroom aparecia, depois saía; então, vinha Daddy G, contribuía com algumas ideias, e sumia… “Desde o começo, tivemos os dias divididos entre os diferentes colaboradores do grupo”, disse Neil à FACT Magazine.

Enquanto Mushroom tinha uma característica mais metódica, de planejar o que fazer, 3D buscava mais espontaneidade dentro do estúdio.

Mas a grande rusga surgiu quando a banda estava prestes a decidir o que fazer com “Teardrop”. 3D, G e Davidge ficaram maravilhados quando Liz Fraser, vocalista do Cocteau Twins, mandou sua demo da canção – o resultado tornou-se a clássica versão que conhecemos hoje, com Liz operando como o ponteiro emocional de um relógio enigmático, ajudando o Massive Attack a levar sua primeira canção ao Top 10 do Reino Unido.

Por ter trabalhado nos primeiros rascunhos da canção sem 3D e G, Mushroom acreditava ter mais ‘propriedade’ sobre a canção. Ao ouvir a versão de Liz, disse não ter gostado muito. Então, sem ninguém saber, ele mandou a demo da composição para Madonna. Davidge disse que recebeu uma ligação do manager da gravadora dizendo que Madonna tinha adorado a versão, perguntando qual seria o ‘negócio’ com essa versão de Liz. “A merda foi jogada ao ventilador”, disse Davidge. “Desse ponto em diante, Mushroom e 3D já não apareciam no estúdio ao mesmo tempo”.

Tanto que, depois de ter lançado Mezzanine, não demorou para que Mushroom saísse do Massive Attack.

Massive Attack: decisões certas

Apesar do modus operandi confuso, Mezzanine tornou-se grandioso por um conjunto de decisões acertadas.

Liz Fraser, claro, era um desses exemplos. E a prova de que 3D e G captaram a pertinência da cantora foi convidá-la para mais duas canções do disco: em “Black Milk”, temos a versão mais derretida de uma Liz romântica; e em “Group Four”, o take mais longo do disco, ela faz um tipo de dueto filosófico com 3D, refletindo sobre solidão e apreensão. ‘Meu sexto sentido pacificamente é colocado em minha respiração/E escuta/Me mantém longe da minha dor/Meus ouvidos sabem que meus olhos estão fechados’, canta Liz.

Outra decisão acertada foi convidar a lenda do reggae Horace Andy, que abre o disco com a sensacional “Angel”, uma variação do hit “You Are My Angel”, do próprio Horace. Isso porque ele recusou a ideia inicial do Massive Attack, que havia sugerido uma linha “Straight to Hell”, do The Clash (Horace não queria cantar ‘hell’, por ser um cara religioso).

A pós-produção de “Angel” fez dela uma referência em reverberação sonora – sem esquecer do trabalho do guitarrista Angelo Bruschini. Essa transfiguração era a ‘cara’ do que o Massive Attack pensava para o disco. “De repente, tínhamos esse tipo de club-dark-ambient-soul-romântico, com guitarras pesadas e a bateria tocando. Acho que “Angel” é uma faixa que mostra realmente a progressão pela qual o álbum passou em termos criativos”, analisou Davidge.

Claro que um músico tão valioso para o disco seria aproveitado em outros momentos. Os efeitos de dub criados para “Man Next Door” foram ideia de Daddy G, que tinha em mente a música “I’ve Got to Get Away”. “A banda conhecia apenas a versão de Dennis Brown da música”, contou Horace. “Então, cantei a versão original de John Holt”. Bom, a excelência da canção fala por si só.

A terceira música com participação de Horace Andy é “(Exchange)”, praticamente uma extensão de “Angel” – funciona como se ele estivesse viajando em um sonho, impressão enaltecida pelas melodias soltas com momentos dimensionais.

Inovador aos 21

Mezzanine também valoriza o trabalho dos integrantes do Massive Attack enquanto vocalistas. “Risingson”, a primeira composição pronta do disco, sugeria um experimento de soul com eletrônica.

A sexy “Inertia Creeps” cativa por simular, sonoramente, o enredo de uma boa transa. Já “Dissolved Girl”, com voz de Sara Jay, fala de ‘um pouco de amor para diminuir a dor’. Alguns meses depois, a música surgiu nos primeiros minutos de Matrix, no momento em que Neo (Keanu Reeves) está de fone de ouvido.

Passados 20 anos, Mezzanine inspira mais por sua força criativa que estética. A forma com que trabalha reverbs, as direções apontadas para a soul-music, o caldo com hip hop, psicodelia e eletrônica e, claro, a intensidade emocional em cada uma de suas 10 faixas influenciou um legado que vai de Burial a Kanye West.

Em 2019, o grupo vai rodar turnê para comemorar os 21 anos de Mezzanine. Incrível como, durante todo esse tempo, o disco ainda soa inovador.

Leia também: Blue Lines (1991): detalhes sobre o disco de estreia do Massive Attack na seção Grandes Álbuns