Gravadora: Boom Jah
Data de Lançamento: outubro de 2017 (Europa) / agosto de 2018 (Brasil)
A flutuação rítmica de afro-beat, MPB e cumbia no 5º disco de Da Cruz, Eco do Futuro, é dotado de uma polifonia toda brasileira, reforçada pelo canto em português sobre política, luta de classes e como ser mulher numa sociedade conservadora.
Começar o disco com uma música como “País do Futuro” põe o Brasil em protagonismo, mas o fato é que a cantora Mariana da Cruz é uma paulista de Paranapanema radicada na Suíça há mais de 10 anos.
Foi pulando de Campinas para a cidade de São Paulo, até fincar de vez o pé na Europa via Lisboa, por volta de 1999, que Da Cruz percebeu que o português é a língua perfeita para criação musical.
“Não é fácil criar um mercado com a língua portuguesa no ambiente musical internacional. Mas o que devo fazer? É a língua mais bonita do mundo, como já dizia Saramago, e não vamos mudar isso”, certifica-se a cantora, que começou pela bossa nova até desenvolver um estilo que aproxima a música africana da eletrônica, graças à parceria com o produtor Ane H, pioneiro do industrial/electro na Suíça.

Da Cruz: brasileira cidadã do mundo
Da Cruz compõe elencando e, ao mesmo tempo, ironizando problemas – principalmente mazelas sociais.
O afoxé de “Sinha Mandou” reforça o preconceito contra trabalhadores de profissões braçais que são desestimulados a estudar.
“Negra Sim” segue a linha mais baile funk e um discurso mais direto: ‘Sou negra sim que chegou para cobrar/Agora espera, espera, espera’, reforçando a liberdade de expressão que tentam minar por sua pigmentação.
Eco do Futuro é a expressão de uma cidadã do mundo politizada, mas que ainda tem o Brasil como palco. Isso vai além de um comprometimento histórico; na era globalizada, um feed de rede social às vezes é pedacinho de nossa nacionalidade, porque nos mantém em contato com familiares, pessoas de nossa nacionalidade e nos atualiza de discussões pertinentes ao nosso país de origem. Músicas como “Visitar América” ou “Babilônia SP” selam essa conexão.
A contribuição de Da Cruz, nesse cenário, é seu chão em terras gringas. Dizia o antropólogo Stuart Hall que a imigração sempre esta atrelada ao retorno pra casa, por mais simbólico que isso seja. Em Eco do Futuro, a cantora traz todas as discussões, cenários, apreensões e histórias de vida para explorar aquilo que está além de nossas linhas territoriais.
O não dito em suas letras também importa: o sentimento coletivo de revolta contra as instituições culturais e a polarização que atinge picos de agressividade em anos eleitorais contribuem para uma radicalização de discursos que torna a vivência com o vizinho por vezes complicada.
Sabe aquela história de ‘vou sair do país se tal candidato ganhar?’ Vamos dizer que Da Cruz está a largos passos dessa posição. Ela é o Brasil; a língua portuguesa, seu vínculo mais forte; e a música, a expressão de sua identidade e pertencimento.
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