Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 22 de março de 2018
Avaliação: 9.5/10

O mar que cura. O mar que quebra as fronteiras. O mar que dá acesso. O mar que tranquiliza, nos faz refletir e nos leva de encontro a nós mesmos.

Dorival Caymmi permanece como a maior autoridade musical quando se usa o mar como alegoria. Canções Praieiras (1954) fala de vida, morte, cotidiano e esperança no arquétipo do pescador, sua jangada e sua relação com o mar – para fecharmos no exemplo mais conhecido.

André Abujamra, por outro lado, levou mais de 11 anos de pesquisas, encontros musicais e viagens pela Jordânia, Índia, Rússia, França, Japão, entre outros países (13 no total), para entender como a alegoria do mar interliga culturas, ritmos e expressões diferentes.

Com todo o cuidado de entregar uma mensagem coesa e acessível (o que não a torna menos profunda), André usa a experiência de ter tocado do afro-beat ao rock experimental para testar seus próprios conhecimentos em Omindá – A União das Almas do Mundo Pelas Águas.

André Abujamra: em busca da naturalidade

Trata-se de um disco elegíaco que ultrapassa as barreiras linguísticas e estéticas. Do iorubá, passando por inglês, francês, por dialetos africanos e, claro, português, a mensagem é bem transparente: precisamos romper as fronteiras.

A execução de Omindá prova que essa comunicação pode ser mais simples do que imaginamos. Porque, nas suas 15 faixas, a música se aplica como sentido, um processo mental que permite a comunicação empática entre pessoas de diferentes lugares geográficos.

Por isso mesmo, não dá pra restringir essa comunicação a poucos gêneros. Em “Leviatan”, ele permite que Xis e Oki Kano (japonês que faz world-music de um jeito peculiar) invoquem o monstro do estado que serviu de alegoria para a teoria política de Thomas Hobbes (aqui, o maior exemplo da água como presença da morte).

O piano monocromático de “Saudade” revela o momento mais bossa de Abujamra, até que a orquestração se eleva e a canção é tomada por um plano que nos remete à música balinesa – momento em que a francesa Zaza Fournier contribui com o que acredita ser ‘saudade’, esse termo tão nosso, brasileiro, que não encontra tradução terminológica em outros idiomas.

Antes de todos esses encontros, Abujamra faz questão de explicar que a origem é tão importante quanto a chegada, em “Real Grandeza”. É uma posição que se põe em pé de igualdade com o outro, em tempos em que a xenofobia é utilizada como arma defensiva diante das diversas crises humanitárias espalhadas pelo mundo.

Em seguida, entra a faixa-título, em que Maria de Medeiros diz: ‘que todas as dores sejam lavadas pelo mar/que as lágrimas tristes virem pérolas’. Após um solo dilacerante de guitarra, surge a entrada triunfal de André: ‘que povo bonito de ouvir e olhar/é como a orquestra das ondas do mar’.

“Povo Bonito” é um termo em que André acredita tanto, que dedica uma música inteira para explorar as facetas dessa beleza, ao lado do russo Sasha Vista.

O elo de todas as músicas que compõem Omindá é a comunicação transnacional, mas a grande onda dessa verdadeira celebração da água e do mar é a relação com a nossa naturalidade humana. André não precisa bater na mesma tecla óbvia do quanto estamos distantes uns dos outros por conta da tecnologia, das redes sociais etc. O mar tem o poder de explicar o inexplicável, em tempos em que a subjetividade tem sido tão questionada por distintos polos sociopolíticos. É contemplar, banhar-se e filosofar.

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