Na reta final de 2018, apresentamos a última coluna do ano com os melhores lançamentos recentes de jazz.
Este Groovin’ Jazz chega chegando com discos novos de gente consagrada, como a parceria entre Charlie Haden (lendário baixista falecido em 2014) e Brad Mehldau e um quarteto de peso liderado por Dave Holland.
Vale conferir a perspectiva de Yuhan Su sobre Nova York, cidade tão importante para a propagação do jazz, e as muitas homenagens do guitarrista Lionel Loueke às suas muitas referências africanas.
O excelente Radio Diaspora, dos brasileiros Romulo Alexis e Wagner Ramos, chega ao terceiro capítulo de forma surpreendente e o brasiliense Jota Dale Combo, experiente músico de estúdio, pediu ‘permissão’ para lançar Exu. A história está abaixo, assim como os demais álbuns que integram 10 dos melhores lançamentos recentes de jazz.
Antes, a playlist atualizada (siga o Na Mira no Spotify e acompanhe dezenas de outras seleções):

Long Ago and Far Away
Charlie Haden & Brad Mehldau
Gravadora: Impulse!/Universal Music Canada
Data de Lançamento: 26 de outubro de 2018
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Havia uma admiração mútua entre o baixista Charlie Haden e o pianista Brad Mehldau. Eles tocaram juntos pela primeira vez em 1996 e, no ano seguinte, lançaram Alone Together, com o lendário Lee Konitz no sax. Essa parceria viria a se repetir em Live at Birdland, em 2011, com a importante adição de Paul Motian. Mas, em duo mesmo, só houve um registro de Haden e Mehldau. Aconteceu em 2007, quando o diretor do festival alemão Enjoy Jazz convidou-os para tocar na igreja Christuskirche. Haden quis lançar de imediato, mas alguns entraves burocráticos mantiveram o registro na gaveta, aberta somente agora com o lançamento de Long Ago and Far Away.
São 6 belíssimos temas que devem ser apreciados com atenção. Nele, vemos Haden improvisar lindas melodias no baixo em escalas que se diversificam em curtos espaços de tempo. A segunda metade de “Au Privave” é exemplo de como décadas de experiência resultaram numa tremenda facilidade de comunicação com um instrumento majoritariamente encarado como apoio.
Os temas geralmente são iniciados por entradas dinâmicas de Mehldau. Haden cria subespaços musicais com seu baixo como talvez pouquíssimos tenham conseguido na história do jazz, e o diálogo firmado impressiona por atingir uma placidez criativa, com exuberância de sobra.

Uncharted Territories
Dave Holland / Evan Parker / Craig Taborn / Ches Smith
Gravadora: Dare2
Data de Lançamento: 11 de maio de 2018
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Dave Holland (baixo) e Evan Parker (sax) tocam juntos há mais de 50 anos, desde o início do Spontaneous Music Ensemble. Com o passar dos anos, cada um seguiu rumos diferentes, com eventuais colaborações ao longo de distintos trajetos musicais. Em Uncharted Territories, Holland testa formações em duo, trio e quarteto, reconfigurando as inúmeras possibilidades de construção harmônica entre bateria, cordas e metais.
Múltiplos resultados são colhidos no disco, que conta com eventuais colaborações de Craig Taborn (piano/eletrônicos) e Ches Smith (bateria/percussão). Mais de 2h de música podem afastar alguns desavisados, mas se você gosta de perceber as diferentes formas de atuação de um baixista num grupo de improviso, tem uma extensa gama de testes e inovações sonoras, resultando em grandes achados. Não esperava nada diferente de uma dupla com tantos acertos nessa longa jornada.

Flight
James Francies
Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 19 de outubro de 2018
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Com apenas 23 anos, o pianista James Francies chega com uma estreia pomposa com Flight. O saxofonista Chris Potter ajuda o jazzista de Houston (EUA) a enaltecer o que o jornal New York Times sabiamente chamou de “dinamismo líquido”, mas sua habilidade fica mais perceptível em momentos solo, como em “Leaps”. Quando busca um ritmo mais intrincado, como em “Crib”, a divergência de cordas de Joel Ross (vibrafone) e Burniss Travis II (baixo) gera uma fricção interessante, em que Francies admira só de passagem.
O jazz contemporâneo encara velocidade rítmica, efeitos sci-fi e integração bop em alta intensidade. Por buscar tudo isso, Flight acaba sendo mais uma tentativa de conectar todas essas frentes. Um tema como “Dark Purple” – obtuso, psicodélico, totalmente espacial – parece distante do cover para “Ain’t Nobody” (de Felix Jaehn), mas quando entram os efeitos à lá Thundercat, tudo fica mais coeso.

Exú
Jota Dale Combo
Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 24 de novembro de 2018
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Para lançar o disco de estreia Exú, o produtor e guitarrista brasiliense Jota Dale Combo precisou “pedir permissão às divindades” em um terreiro baiano, além de “botar uma cachacinha pra Exu”, um orixá que faz a ponte entre o humano e o divino, segundo o candomblé.
Ao lado dos instrumentistas Munha da Sete (baixo), Thiago Totem (bateria), George Lacerda (percussão), Marcos Cohen (clarineta) e Adil Silva (trombone), Jota criou uma narrativa que perfaz o trajeto entre o plano terreno e espiritual, usando como fio condutor a riqueza melódica da música brasileira como um todo.
“Cadeado de Madeira”, por exemplo, é tão alegre quanto um tema de festa junina e “O Sino da Igrejinha” traz ares nostálgicos com o alinhamento bem feito entre cordas, efeitos e metais num som celebrativo. “A religião serviu de mote, mas o viés do disco não é religioso. Ele contempla muito mais aquela visão do Villa-Lobos, de conhecer a música tradicional brasileira e, a partir dela, criar a sua própria música”, explicou Jota.

The Journey
Lionel Loueke
Gravadora: Aparté
Data de Lançamento: 28 de setembro de 2018
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O título deixa bem claro: The Journey é uma passagem por diversas culturas, estilos e expressões que influenciaram o guitarrista beninense Lionel Loueke. Impera a sonoridade desértica, as diferentes ramificações do blues do Mali e sons acústicos de regiões afastadas – vide “Mandé”, em que afina seu instrumento para extrair notas mais ocas, que dialogam com a intrincada dinâmica entre cordas e percussões.
Loueke toca, canta, faz scats e extrai solos e ritmos improváveis de sua guitarra – característica pela qual já é conhecido e admirado por feras como Herbie Hancock, Sting, entre outros. Um de seus principais parceiros é o percussionista brasileiro Cyro Baptista, responsável por refazer o misticismo do berimbau à lá Naná Vasconcelos em “Molika” (com grande atuação de John Ellis no sax-soprano) e contrapor um lado mais crooner-sensível de Loueke em “Gbê”, ao lado do trompetista Étienne Charles.
The Journey reúne diversos outros instrumentistas que ajudam Loueke a percorrer pelas variadas influências da música africana. O violinista Mark Feldman ajuda a trazer o crossover da música clássica em “Kába”, a bela “Hope” ganha contornos mais dramáticos com o clarinete de Patrick Messina e a dupla Massimo Biolcati (baixo) e Ferenc Nemeth (percussão) ajuda Loueke a criar um tipo diferente de blues em “Okagbé”. Por mais que a versatilidade impressione, The Journey é desde já considerado um grande disco pela comunicação que Loueke estabelece: uma comunicação com seus ancestrais, com músicos de diferentes escolas e com múltiplas culturas.

Universal Beings
Makaya McCraven
Gravadora: International Anthem
Data de Lançamento: 26 de outubro de 2018
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O protagonismo da bateria de Makaya McCraven é inquestionável. Por mais que trabalhe com ensembles variados – com sax, harpa, trompete, vibrafone, piano etc – ele faz questão de destacar seus pontos sonoros de conexão. Para um projeto ambicioso como Universal Beings, que reúne quatro bandas distintas, McCraven reforça a importância do elemento dinamizador do jazz.
Seja ele mais furioso (como no disco Chicago, com o robusto Shabaka Hutchings no sax) ou sutilmente eletrificado (caso das sessões de Nova York, com a improvável junção de vibrafone, violino e harpa), McCraven aponta direções obtusas, que às vezes acompanham as cordas (vide “Holy Lands”), apimenta o afro-beat (“Atlantic Black”) e até segue uma linha tridimensional (“Voila”).
De qualquer forma, uma coisa não muda: não se tem solos excêntricos de bateria. Universal Beings é mais um laboratório rítmico, uma aula de exemplos distintos de como o aspecto percussivo é essencial em qualquer ensemble.
Leia também: Makaya McCraven precisou de 4 grupos distintos – e muita inovação – para criar Universal Beings

The Other Side of the Air
Myra Melford’s Snowy Egret
Gravadora: Firehouse 12
Data de Lançamento: 2 de novembro de 2018
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As composições da pianista Myra Melford parecem thrillers macabros. A variedade de ritmos vem de uma escola dodecafônica, embora isso seja insuficiente para descrevê-la. Seus ostinatos parecem o tremeluzir de um bicho gigante e ágil de longas caudas, de impactos imensuráveis. Sua escola vai da meditação indiana à exuberância de Don Pullen e, para suas ambições sonoras, ela foi bem criteriosa ao formar o Snowy Egret em 2012, com Ron Miles (corneta), Liberty Ellman (guitarra), Stomu Takeishi (baixo) e o consagrado Tyshawn Sorey (bateria), importante parceiro na parte de desconstrução estética.
De fato, The Other Side of the Air é a expressão vanguardista de um quinteto que busca novas formas de pulsações. Começa um tanto retilíneo em “Motion Stop Frame”, talvez para gerar identificação imediata com o ouvinte. Aos poucos Myra vai ‘derretendo’ sua técnica, propondo repetições fora de quaisquer padrões – principalmente em “Attic”, um dos grandes destaques do disco.
A faixa-título é dividida em dois movimentos: no primeiro, sugere um minimalismo melódico com diversas interferências de cordas; já a segunda parte é mais fluida, prova de que Myra tem talento de sobra para ir do blues ao avant-garde, do terror ao pacifismo, sempre de forma gradual e criativa.

RD3
Radio Diaspora
Gravadora: Sê-lo Netlabel
Data de Lançamento: 20 de novembro de 2018
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Formado por Wagner Ramos (bateria/eletrônicos) e Romulo Alexis (trompete/eletrônicos), o Radio Diaspora chega ao terceiro álbum com menos colagens musicais e uma proposta mais orgânica, mais acessível que os atos anteriores. A proposta não mudou: “novamente está em jogo a celebração da herança afro-diaspórica em intensidades sonoras”, como o duo faz questão de enfatizar.
A primeira faixa, “Abdias”, retoma o processo de colagens, com uma voz repetindo a todo momento ‘zumbi está vivo’, com barulhos tubulares e solos esquizofrênicos de Romulo. Há duas homenagens de respeito: “Ecos de Naná”, com o berimbau tão ovacionado por Naná Vasconcelos; e “Felakutagem”, com o clavinet numa estrutura repetitiva, tal qual o afro-beat de Fela Kuti.
Romulo e Wagner aprimoraram a habilidade de prover cortinas sonoras implacáveis, testando ritmos assíncronos e uma diversidade enorme de efeitos – vide as descobertas sonoras resultantes de “Nego Solano” e “Foice à Face”. Para encerrar, o duo mostra capacidade de seguir uma linha mais soul, com intensos vocais de passagem, em “Negra Y No Morena”.

Bells, Ghosts and Other Saints
The Way Ahead
Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: 16 de novembro de 2018
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“Bells” e “Ghosts” são dois dos principais temas de Albert Ayler, saxofonista que trouxe um ar misterioso, criativo e espiritual ao free-jazz como nenhum outro. Claro que Ayler está vinculado à história do jazz norte-americano, mas o que os escandinavos do The Way Ahead propõem em Bells, Ghosts and Other Saints é dar um senso mais coletivo à impactante criatividade de Ayler.
Os saxofonistas André Roligheten e Kristoffer Alberts têm apreço por notas mais robustas. Não à toa, seus solos são como chuvas de pedras, intensificadas pelo trompetista Niklas Barnö e o vibrafonista Mattias Ståhl. Nesse sentido, a faixa-título soa como o manifesto mais coeso desse grupo – embora a essência seja totalmente fragmentada, repleta de escapes e ideias borbulhando.
A ebulição do grupo já surpreende desde o início: em “Eclipse”, Ståhl e Barnö criam um elo de sonoridade aguda, como chamamento aos demais instrumentistas. E, para quem acha que The Way Ahead está necessariamente atrelado ao passado, “Takefyrsthe” vem para mostrar que o grupo sabe como manter um clima atmosférico num formato de composição que lembra a fase atual de Henry Threadgill.

City Animals
Yuhan Su
Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 26 de outubro de 2018
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Vencedora do prêmio “Rising Star” em 2017 no vibrafone pelo público da revista DownBeat, Yuhan Su chega ao 3º disco, City Animals, impactada pelo movimento caótico de Nova York, onde assumiu residência após se formar na renomada Berklee.
Suas composições são ricas em texturas e trazem enredos otimistas que, acima de tudo, compreendem as muitas particularidades por trás de uma grande metrópole. “Feet Dance”, por exemplo, parece mapear a boemia de um local com tantas opções, enquanto a faixa-título traça os muitos caminhos percorridos por quem mora na cidade – ilustrados pela variedade de notas de Su, muito bem acompanhada pelo baixo de Petros Klampanis e a bateria de Nathan Ellman-Bell.
Complementado por Matt Holman (trompete, flugelhorn) e Alex LoRe (sax-alto), o quinteto de Yuhan Su conseguiu criar uma obra que permite uma observação mais filosófica do significado de viver em uma comunidade populosa. Tirando todos os clichês, há muito a se aprender, absorver e passar adiante. Nesse caso, City Animals estimula o afastamento para contemplar a ‘big picture’, antes de colocar os novos aprendizados em prática.
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