Gravadora: Drag City
Data de Lançamento: 19 de maio de 2015
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Jim O’Rourke é um nome associado à vanguarda, mas nem tudo que este guitarrista faz pode ser considerado de vanguarda.
Simple Songs é uma dessas contravenções estilísticas, e isso sugere uma nova perspectiva: como a música pop, tradicional seria tratada por um músico versado em jams experimentais de guitarra com Oren Ambarchi, pelo post-rock de Gastr Del Sol e por uma das fases mais estranhas do Sonic Youth?
A prévia foi dada com Bad Timing (1997), primeiro de uma série de álbuns acústicos pela gravadora Drag City que culminaria em Eureka (1999) e Insignificance (2001). A estrutura é pop, o que não quer dizer que seja convencional; pense na abertura que O’Rourke deu ao Wilco em Yankee Hotel Foxtrot (2002), com pitadas de Paul Weller, sem negar diálogo com a banda britânica James. Arranjos? Sufjan Stevens, em seu melhor, é referência – assim como a meticulosidade de Steely Dan.
Disco complexifica o que parece devidamente pacífico e simples para o ouvinte
As marcações rítmicas de Simple Songs são diferentes de tudo o que você conectaria a O’Rourke. O violão acústico de “These Hands”, por exemplo, impacta mais que a letra, que diz que ‘sua mão não é sua amiga’ – frase totalmente associável ao aspecto técnico da música, mais que sentimental.
“Friends with Benefits” é uma conversa franca com o ouvinte. Jim O’Rourke nos trata como amigos, no momento mais Jeff Tweedy do disco. A segunda faixa, “That Weekend”, joga riffs esparsos de guitarra num padrão orquestral que alterna a predominância com a soul music; o ritmo de piano parece dar vida à Zac Evron. De tão cativante que o instrumento é, soa bem oportuno que “Half Life Crisis” se apoie integralmente nele; as batidas em cluster garantem aspecto percussivo ao piano. Sofisticado? Nada… O’Rourke está se deslumbrando num cabaré particular que ganha conotação festiva, apesar da letra deboche: ‘Porque você não quer admitir/Você não é a mesma estrela de antes‘.
Marc Bolan e Nick Cave também são nomes facilmente associáveis a Simple Songs, mas há muitos outros flashes no disco: “Hotel Blue” nos leva a um momento The Band, enquanto “Last Year”, que mostra uma busca por um amigo imaginário ‘tentando achar o último voluntário‘, tem resquícios de Jeff Buckley.
A principal jogatina de Jim O’Rourke em Simple Songs é complexificar o que pareceria devidamente pacífico e simples para o ouvinte.
Por tratar-se de um álbum acústico, este olhar é importante, principalmente no aspecto musical. As composições têm tom de ironia, mas se destacam, principalmente, por abordar a solidão de forma benévola. Como diz em “End of the Road”, ‘até mesmo o capitão precisa de descanso‘.
O músico não cita dependência tecnológica ou menciona uma sociedade multitarefada, que não tem tempo pra ninguém. Simple Songs é um disco humano; sua profundidade reside mais nas notas de guitarra, violão e piano que em suas letras que, na maioria das vezes, imaginam um lugar distante. É bom ficar sozinho, sim, e a técnica de O’Rourke, que nos entrega mais quando toca que quando canta, nos mostra que é possível trazer nova abordagem ao momento mais propício para se refletir sobre a vida.
