Versatilidade é algo imperioso na música brasileira de uns anos pra cá, mas são poucos que conseguem domar suas influências com todas essas expressões externas de forma original.
Trap e bass ainda são dois dos mais perseguidos subgêneros por novos artistas – tanto que até o falecido Sabotage teve sua voz entrecruzada com os dois ao mesmo tempo em uma das canções aqui citadas.
Dizer que 2016 foi um ano conturbado é redundância, mas isso não se refletiu tanto na nossa seleção das melhores músicas.
Por mais que a internet facilite a produção e divulgação de singles numa velocidade nunca antes vista, provavelmente observaremos melhor o impacto de eventos como impeachment (golpe?), corrupção generalizada e crise de identidade de movimentos políticos no ano seguinte.
Ora, como absorver tudo isso assim, facilmente, e ainda sair com uma puta canção? É preciso calma, algo que precisamos aprender a lidar.
Mas, aviso de antemão: alguns artistas conseguiram passar essa mensagem, seja em forma de revolta ou de reflexão social. Os resultados aparecem abaixo.
Do funk de protesto de MC Carol ao lado romântico de Mano Brown; do rock inconformado do FingerFingerrr ao rap inovador de B.K.; da quentura do BaianaSystem à frieza de Clima, confira as melhores músicas nacionais de 2016. Antes, claro, playlist:
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Confira as 30 melhores músicas brazucas do ano:
Abayomy ft. Otto
Gravadora: Independente
Álbum: Abra Sua Cabeça
‘O samba é guerreiro’, diz o cantor que gravou um disco chamado Samba Pra Burro (1998). O Abayomy é um dos grupos nacionais que têm renovado a abordagem do afro-beat, e a perspectiva do samba, na voz de Otto, obviamente tem um viés entortado, rude. Samba, aqui, é uma referência. A música, porém, cobra de cada um a imponência de cravar seu nome na história – algo que o mundo, que costuma estereotipar tudo, não reconhece de prontidão. Isso pouco importa. Subjetivamente, a canção diz ‘faça valer, tenha coragem, siga adiante’. A potência sonora do Abayomy reforça o teor da mensagem.
Valciãn Calixto
Gravadora: Independente
Álbum: Foda!
A primeira faixa de Foda! é um misto de punk-rock com ritmos caribenhos e um som urrado, com uma estética que inclui o brega paraense. É uma fuzarca que sintetiza uma preocupação latente do piauiense Valciãn Calixto em expor os diversos problemas do mundo. ‘Com qual propósito, eu não sei’, vocifera o músico, deixando que riffs pesados intercalem com efeitos eletronizados a potência que faz com que a música soe encorpada.
FingerFingerrr
Gravadora: Rosa Flamingo
Álbum: Mar
A faixa que abre o primeiro disco do FingerFingerrr é um punk pé-na-porta, bate-cabeça, meio Ratos de Porão, meio Fugazi. O refrão é bem simples e identificável com qualquer um: ‘Eu só ganho/Eu não tenho’. Pelos riffs de guitarra e pela levada de bateria/baixo, dá pra imaginar que não é lá tão bom ficar numa situação de depender dos outros. A bravura da canção é um lembrete de que nem tudo de material que possuímos diz sobre a gente ou sobre os outros. Ter não faz ninguém ser.
Liniker ft. Aeromoças e Tenistas Russas & Tássia Reis
Gravadora: Pomm_elo
Álbum: Remonta
Liniker e Tássia Reis deveriam lançar um disco juntos. Sério: a simbiose entre os dois funciona muito bem. “BoxOkê”, contou Liniker, foi fruto de uma troca de ideias entre os dois. Há uma mistura de rap, funk e uma expressão feminina sobressalentes – mesmo quando o assunto é batom e impressionar a paquera. A música é contagiante e reforça o peso da interessante cena transexual brasileira, em que Liniker é certamente protagonista.
Rapha Moraes & The Mentes
Gravadora: For The Records
Álbum: Corações de Cavalo
O membros de Rapha Moraes & The Mentes levaram a sério o lance de se conectar com a natureza. No clipe desta canção, eles se prendem numa floresta distante de todas as vicissitudes humanas. ‘Não dá pra domar o perfume da mata/Nem domesticar a força das águas’, diz Rapha, com a ciência de quem já morou em locais afastados (ele é de São Luiz do Purunã, interior do Paraná). É um rock sincero em sua espiritualidade, com um teor ritualístico que propõe ao ouvinte afastar-se da conturbação das grandes cidades e das redes sociais.
Mahmundi
Gravadora: Stereomono/Skol Music
Álbum: Mahmundi
A faixa que abre o álbum homônimo de Mahmundi é telescópio para um passado que não vivemos. A cantora carioca trafega por aquelas melodias serenas dos anos 1980, com uma pegada de reggae latente. Apesar da calmaria preponderante, ela se adequa ao ritmo corrido das grandes cidades e se diz disponível a mudar para encarar o mundo de um jeito mais pacífico e menos estressante. Eis um ‘hit’ que pode fazer bem a muitos estressados de plantão.
Metá Metá
Gravadora: Independente
Álbum: MM3
Juçara Marçal usa poucas palavras para descrever a cena antropofágica de “Corpo Vão”. Os versos, curtos, recriam a cena de uma cabeça sendo cortada, para que uma transição aconteça no corpo – transição espiritual, diga-se. Quando ela diz que o ‘oco voraz vai engolir o mundo e regurgitar’, a impressão é que o mundo vai engolir a si próprio para se transformar. O fato é que cada indivíduo é um mundo, e todo esse contrabalanço, que entorta nossas ideias, nos ajuda a criar uma nova visão. A morte é metafórica, porque representa uma ideia. Pois, como ela canta, ‘o vão faz o torto voltar a ser regra’. Viva a subversão.
Ed Motta
Gravadora: MustHaveJazz/Membran
Álbum: Perpetual Gateways
O tribunal do Facebook pode julgar Ed Motta, mas o fato é que ele lançou um álbum abrasivo, e um de seus melhores takes é “A Town in Flames”. As viradas de bateria de Marvin ‘Smitty’ Smith e a força dos metais dão um gás tenebroso à canção. Acha que isso intimida o cantor? Nada! Ed Motta deixa a suavidade de lado e soa enérgico e cheio de vida. Sua voz é o puro sinônimo de um groove vigorante, estimulado por um hard-bop dos bravos.
Cãos
Gravadora: Independente
Álbum: Cãos (EP)
Encontre via BandCamp
A banda curitibana Cãos mistura punk e pós-punk naquela pegada incisiva de Second Come e Echo & The Bunnymen. O grupo tem vários EPs na rede, mas o que cravou mesmo foi o autointitulado, com destaque para “Cinismo”, que poderia muito bem ter o título trocado para niilismo. Olha como ela já começa: ‘Como você se sente/Sem perspectiva/Sem futuro pela frente?’. A produção é tosca, as guitarras são valvuladas no último volume… É o pós-punk do-it-yourself, que nos faz refletir sobre um ano em que o vazio é o único refúgio para tantas tragédias e más notícias ao nosso redor.
Di Melo ft. BNegão
Gravadora: Independente
Álbum: Imorrível
Quarenta anos depois do sintomático álbum homônimo de Di Melo, a primeira coisa que percebemos é: sua voz não mudou nada com o tempo! Em “Dioturno” percebemos como o vigor do funk/R&B soa majestoso com ele no comando. Suas canções são frutos da simples observação do cotidiano. Nesta canção, porém, ela ganha pinceladas tão coloridas quanto a capa do disco. BNegão fica ali, no background, enquanto a canção se desenrola tal qual um filme que vai adquirindo cor acinzentada, para dar mais drama às imagens. Quando BNegão entra, o distanciamento já foi colocado, e Di Melo tergiversa, sussurra, e aos poucos a dinâmica dos dois é erigida. Aí já não se trata mais de soul, funk, R&B: a canção evolui para algo tribal e conclui como um filme citadino, com final ambíguo.
Mano Brown ft. Leon Ware
Gravadora: Boogie Naipe
Álbum: Boogie Naipe
Produtor de nomes como Marvin Gaye e Michael Jackson, Leon Ware deu a Mano Brown um arsenal impecável para o soul-romântico-setentista de uma das principais faixas de sua estreia solo, Boogie Naipe. Baixo como protagonista, notas soltas de teclado ao fundo, graves controlados… Os holofotes são direcionados a um rapper – antes tido como sisudo – que tomou a aura de cantor e decidiu dar voz ao sentimento, algo que já estava encravado há muito tempo, desde que “Mulher Elétrica” caiu na rede há alguns anos (por volta de 2009). Brown disse que foi ‘burro e inexperiente’ e projeta: ‘cresceremos juntos essa longa e estranha caminhada’. Trata-se de uma sinceridade jamais vista nos versos intempestivos dos Racionais. Brown abriu seu coração ao mundo e mostrou ser mais complexo e interessante do que imaginávamos.
Dexter ft. Edi Rock
Gravadora: Atração/Oitavo Anjo Produções
Álbum: Flor de Lótus
Dexter saiu da prisão há três anos, mas o clamor do retorno veio com esta canção, “Tô de Volta”, que abre a segunda parte de seu disco, Flor de Lótus. Sua agressividade é amenizada pelos metais – uma agressividade que expressa mais alegria do que revolta. A voz rouca de Edi Rock fortalece uma canção arrebatadora, prova inconteste de que o cenário do rap ficará estremecido (do lado positivo, claro) com o retorno de Dexter. ‘Traz a sua arma que eu levo a munição’. Se prepara que o armamento musical é pesado.
Clima
Gravadora: YB Music
Álbum: Monumento ao Soldado Desconhecido
O músico Clima, parceiro do paulista Romulo Fróes, disse que a harmonia não é uma preocupação tão latente em suas músicas; ele é mais antenado na percussão e na estrutura da canção, e dá pra perceber como isso soa ritmicamente bem para ele em “Alguém Responde para Mim”. A levada do frevo junto a uma bateria meio acid-jazz – de maneira suave – dá um dinamismo enriquecedor à canção. Clima questiona a todo tempo a natureza, deus e seu lugar no mundo com agilidade tão grande, que faz com que cada pergunte soe retórica. Vale mais questionar do que ir em busca de respostas vagas.
Martinho da Vila
Gravadora:
Álbum: De Bem com a Vida
Aos 78 anos, Martinho da Vila foi um dos grandes confortos musicais de 2016. De Bem com a Vida fez da alegria o protesto contra as disparadas de mau humor nas redes sociais. “Samba Sem Letra” carrega a simplicidade que acompanha o compositor de Duas Barras há cinco décadas. O samba, a maravilha, é a representação de um sonho perfeito de Martinho: ‘Sonhei com alguém/Delírio, atração’, rememora. Podem passar anos, décadas, séculos: o samba é nossa joia garantida. O fato de um de seus maiores expoentes vivos continuar nos agraciando… É algo a se comemorar.
Dona Onete
Gravadora: Natura Musical
Álbum: Banzeiro
Tire o tênis e prepare-se para a dança porque aqui é carimbó bom que só a moléstia! Aos 77 anos, Dona Onete continua instigando as melhores danças de lá do Pará. Nesta canção, “Faceira”, ela trouxe o sax-alto encorpado de Daniel Serrão para o gingado das pistas. Difícil é parar de se mexer ouvindo essa bela joia, mais uma prova de que devemos incorporar mais a música paraense em nossas vidas.
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Sabotage ft. Tropkillaz
Gravadora: Independente
Álbum: Sabotage
Se Sabotage estivesse vivo, certamente teria evoluído bastante como compositor – e estaria trazendo para o seu trabalho essa variedade estilística tão em voga na música brasileira de agora. Do seu álbum póstumo, “Mosquito” seria o melhor exemplo disso, porque sugere um passo além, uma experimentação entre rap, dub e trap com bastante peso. O Tropkillaz já remixou alguns trabalhos do Sabotage (Zegon, que faz parte do duo, já trabalhou com o rapper em vida). Ou seja, não se trata de uma transição estranha. Além do mais, “Mosquito” é a música de Sabotage onde o vemos rimar com mais fluência e destreza.
Rashid ft. Xênia França
Gravadora: Independente
Álbum: A Coragem da Luz
Rashid aliou seus versos afiados em uma produção mais versátil. A Coragem da Luz é o primeiro álbum do rapper e conta com diversas participações importantes, que vão de Criolo a Max Castro e Mano Brown. A faixa mais marcante, porém, vem de Xênia França (do Aláfia), que parece ser fruto de um chip interno da consciência de Rashid. “Laranja Mecânica” é breve, mas tão rascante que seu impacto é imediato. A associação do termo do livro de Anthony Burgess é com a já afamada geração Z, com ‘zero de conexão com o que é vivo’, nas palavras de Rashid. ‘De dedos que não tocam peles, apenas telas/Vazio como um pendrive novo e a causa vã’. É a máquina dominando todos os nossos desejos – e a nova geração que floresce.
BaianaSystem
Gravadora: BS
Álbum: Duas Cidades
Ninguém canta melhor o presente e o futuro das cidades que o BaianaSystem. O perrengue diário e a fugacidade do fim de semana pulsam em cada bass e em cada verso embolado do grupo de Salvador. “Bala na Agulha” é imbuída de uma dicotomia que alia o físico ao espiritual, e a correria do dia a dia com o sentimento de pertencimento. ‘Dance devagar/Dentro do meu peito’, canta Russo Passapusso. O mais interessante da música é que a dicotomia não é demarcada: o grupo vê o indivíduo como um ser coletivista, portanto, essas conexões são arraigadas não somente nos cantores, mas em cada um de nós. Há certos deveres: trabalhar pra viver. Ninguém te prepara pra isso. ‘Então passa a bola/Eu não aprendi na escola’, é a lição. Isso não pode ser visto como um desvio na busca de sua própria dignidade.
Caê
Gravadora: Ori
Álbum: A Nave de Odê
Não adianta nada querer mandar em tudo e ter o poder em mãos, se não se tem autocontrole e calma para a alma. A música meio Lenine, meio Gilberto Gil, com forte injeção elétrica – creditada ao EWI de Thiago França – indiretamente reforça a importância da conexão com a nossa alma. Caê Rolfsen – agora apenas Caê – fala de misticismo como algo que precisamos encontrar por nós mesmos. Nesse caso, sua música é uma espécie de conselheira, que usa a sonoridade viajandona como inspiração para deixar-se levar, sentir, vibrar para, então, agir, com prudência, inteligência e sensibilidade.
Ogi & Quebrante
Gravadora: Independente
Álbum: Single
Ouça no YouTube
A percussão de Romulo Nardes em contraposição aos efeitos do baixo eletrificado do duo Quebrante criaram um ambiente volumoso de bass sound – mas nada que Ogi não pudesse invadir e arrebentar de forma ostensiva, como nos provou com seu último disco, RÁ! (2015). Acrescentam-se a “Retalhador”, ainda, as guitarras de Kiko Dinucci e a bateria de Bruno Buarque. E o resultado é tipo um hip hop de big band – a ‘infinita munição’ e o ‘infinito poder’ foram dados a Ogi, e o que ele extrai disso é instigante e inspirador. Que ele traga parte de experimentos como este em seu já aguardado 3º disco.
Carne Doce
Gravadora: Tratore
Álbum: Princesa
À frente do grupo goiano Carne Doce, Salma Jô tornou-se a porta-voz indie do feminismo. No segundo disco do grupo, ela demarca essa posição a partir de coisas corriqueiras do cotidiano. Na faixa-título, ela tenta estabelecer um diálogo com outra mulher, a princesa, que representa todas aquelas que veem o feminismo como uma contraposição ruim à ideia de machismo. ‘Princesa, meu jeito vulgar vai te conquistar/Eu enxergo com as mãos/Esqueça, deixa pra julgar quando eu terminar/Cê vai ter outra opinião’, diz o refrão. A longa sessão instrumental mostra que essa visão de Salma é um mantra filosófico – algo com que ela se sente tão naturalizada, que quer repassar às outras. A abordagem do feminino contido em “Princesa” é mais subjetiva, prova de que o discurso do Carne Doce ganhou uma bela lapidada no álbum novo.
B.K.
Gravadora: Pirâmide Perdida
Álbum: Castelos & Ruínas
A faixa-título do novo álbum do carioca B.K., membro do Néctar Gang, elenca as diversas contradições que formam nossa sociedade disforme. Chegar ao topo é difícil, ‘temos muito que lutar/Que o de cima força pra tu não subir, e o de baixo pra te puxar’, diz o rapper, lembrando que um ‘perdedor não é exemplo pra ninguém’. “Castelos & Ruínas”, a canção, faz parecer que ainda vivemos em uma sociedade verticalizada, com hierarquias dos que dominam e os dominados. E, sabe qual é? Ele não está errado. ‘Quero saber o que o mundo tem pra oferecer, o que que a vida tem pra oferecer’, diz o refrão. Também seguimos em busca dessa resposta, nesse mundão injustiçado e selvagem.
Attöm De
Gravadora: Independente
Álbum: Single
Bem-vindo ao mundo em que reina a solidão. Onde o calor é praticamente nefasto, diante do suor coletivo que escorre em vagões de metrô lotados de pessoas. A agressividade do Attöm Dë, grupo de rock de São Caetano do Sul (SP) que une psicodelia ao punk com visceralidade, fala de nossos cotidianos com a crueza que o tema merece. Somos ‘feitos de trouxa’ e achamos bonito. A razão, ou pelo menos a procura dela, perdeu-se no vácuo, e nos tornamos entregues às ‘ilusões de grandeza’, dando espaço para que oportunistas tomem o poder e ajam conforme seus próprios interesses. Eis uma canção que deixa bem claro o quanto estamos fodidos.
Tássia Reis
Gravadora: Independente
Álbum: Outra Esfera
‘Tão solta quanto o vento indica’, diz Tássia Reis em uma canção que deveria ter a pecha de amorosa. Ela fala de relacionamento, mas sua forma de expressar isso acompanha todo um histórico de mulher independente, que não precisa de nenhum homem para se mostrar feliz, e está aí para batalhar a favor do feminismo. ‘Voando por onde se quer e vai querer/Ninguém manda na sua vida/É lacre ou um jeito novo de viver?’, diz o refrão. É o suficiente para entender o que desapego significa para esta mulher de Jacareí (SP).
Douglas Germano
Gravadora: Digitalize
Álbum: Golpe de Vista
Um dos maiores compositores de samba da atualidade, Douglas Germano não costuma lançar discos com a periodicidade de parceiros como Metá Metá e Vicente Barreto. Mas, quando tem disco dele, pode esperar que é coisa boa. A faixa-título é o melhor exemplo de inteligência rítmica imposta à melodia e às letras em sua obra. Sabe aquele som “Mistério do Samba”, do Mundo Livre S/A? Digamos que “Golpe de Vista” é um complemento desse diálogo, já iniciado com “Samba da Minha Terra”, de Dorival Caymmi (e popularizado por João Gilberto e Novos Baianos). ‘O meu samba não faz cerimônia/O meu samba não pede pra entrar’, canta Germano. Não que faltasse a um paulistano relacionar o samba às negações, mas o fato é que a aura misteriosa sempre coube muito bem ao ritmo. Germano é esperto o suficiente para criar essas conexões, sem soar datado ou redundante.
Tom Zé
Gravadora: Independente
Álbum: Canções Eróticas de Ninar
Momento constrangedor: conversar com o seu filho sobre aquele assunto com quatro letras: S-E-X-O. A contradição é que o sexo está em tudo que falamos, todas as brincadeiras que fazemos: ‘Puras figuras de linguagem/Na libidinagem’, diz, certeiro, Tom Zé. A segunda faixa de Canções Eróticas de Ninar é só mais uma prova de que não sabemos como lidar com o sexo, por mais que ele seja tema central em nossas vidas. No serviço, no quintal, na cozinha: em todos os ambientes vivemos com a putaria como pano de fundo, mesmo que seja pra tirar sarro do outro. A conclusão é chacal: ‘Toda conversa, vira-e-mexe, no sexo desce’. Nem sempre pelo lado positivo, porém.
MC Carol ft. Leo Justi
Gravadora: Heavy Baile
Álbum: Bandida
Olhe para a conturbação política de 2016: talvez nenhuma música seja tão verossímil a esse triste retrospecto que essa bomba de MC Carol. Ela relembra o caso de Amarildo – que foi morto por policiais e teve seu corpo escondido – e crava: ‘Não existe justiça se o assassino está fardado’. O que a morte de Amarildo e a prisão de diversos bandidos têm a ver com a delação premiada? Simples: se você é rico, tem vários direitos e regalias que muitos pobres, mesmo inocentes, não têm. A mídia é culpada: ‘Na televisão, a verdade não importa/É negro, favelado, então tava de pistola’, dispara a cantora. A Polícia Federal pode ter mais autonomia, a Lava-Jato tá prendendo corruptos a rodo… Mas a diferença no tratamento de um meliante pobre e um indivíduo que causou rombo de milhões nos cofres públicos é latente. Não dá nem pra dimensionar o prejuízo de um indivíduo pobre e um indivíduo que terá acesso ao recurso de delação premiada.
Meno del Picchia
Gravadora: Independente
Álbum: Barriga de 7 Janta
Encontre via site oficial
O perfil que Meno del Picchia traça na faixa-título de seu 3º álbum não costuma prender a atenção das pessoas que se movimentam para ir ao trabalho, estudar ou simplesmente dar um passeio. Trata-se de um carroceiro ‘recolhendo sonhos/Perdido no asfalto‘, catando o lixo espalhado ao léo e sendo completamente ignorado. Certa vez a jornalista Eliane Brum disse que o mendigo representa aquilo que não queremos ver, e o exercício proposto por Meno na canção é sugerir o oposto. Em nenhum momento ele põe a culpa nas pessoas que ignoram o carroceiro. O que ele faz é jogar os holofotes para a sua história e seus perrengues. Quando ele diz ‘se alguém te atropelar a culpa é sua‘, não exime a própria culpa de fazer parte de uma realidade excludente. Mesmo porque ele não sabe o que realmente o individuo passa, sofre e vivencia; faz uma ideia – ideia que deveríamos prestar atenção para repensar nossas atitudes.
Iara Rennó
Gravadora: YB
Álbum: Arco
Este take do álbum ‘feminino’ que Iara Rennó lançou este ano, Arco (o outro, ‘masculino’, é Flecha), tem uma musicalidade estranha. Apenas um trio – Iara nas guitarras, Mariá Portugal na bateria e Maria Beraldo Bastos no clarinete-baixo – é necessário para um som hibridizado, cheio de ecos, que geram uma sensação de confusão interna a partir do simples ato de acordar.
“Sonâmbula” é a subversão da canção pop, ou até que qualquer outra canção tida como criativa em nossos trópicos. Ela ulula, brinca com falsetes, entrecorta os riffs. Parece uma cação boba, mas é mais que isso: é a destreza sobressalente.
Síntese
Gravadora: Matrero
Álbum: Trilha para o Desencanto da Ilusão: Vol. 1
Primeiro entra uma melodia setentista romântica. Em seguida, um som orquestrado, meio trilha Blaxploitation. Vem, então, a letra de Síntese, que se diz ‘arquiteto do inverso’. É incrível como a sucessão de elementos de “Desconstrução”, ao mesmo tempo que difere da produção atual do rap, crava muito bem no ouvinte.
Trata-se de um universo denso, e as rimas de Síntese incorporam toda essa multiplicidade de informações que pipocam em nossas telas de celulares em suas rimas. Sim, porque o próprio Síntese é a materialização perfeita de todas essas mensagens espalhadas ao vento.
O que o difere, como percebemos em “Desconstrução”, é a sagacidade e, principalmente, a coerência de tudo que diz. ‘O afago do sufoco é o trago de cada outdoor’, canta, fazendo alusão ao conforto que buscamos diante de tanto perrengue na vida. Porque a desconstrução não é apenas um exercício por parte do cantor. Ela está em nossas vidas, e o fato de estarmos diante de tantas conturbações só prova que às vezes é necessário virar as coisas do avesso para compreendermos melhor a realidade.
