Gravadora: Jazzman
Data de Lançamento: 1963 / 22 de janeiro de 2016 (relançamento)

O pianista e bandleader Chris McGregor nasceu e cresceu na África do Sul, mas só ficou conhecido por sua carreira no Reino Unido a partir da segunda metade dos anos 1960.

Ele era branco e conhecia música clássica, mas também sofreu com o apartheid em seu país de origem: isso fez com que ele e membros da sua orquestra Blue Notes procurassem o exílio na Europa.

Discos com as big bands Brotherhood of Breath, além de trabalhos em trio e septeto, mostraram a versatilidade de seu repertório, que incluía métodos composicionais à lá Duke Ellington, blues e expressões artísticas sul-africanas, como amaXhosa. “Seu ponto de partida era sempre baseado nas pessoas”, disse o irmão do compositor, Tony McGregor. “Quando compunha, arranjava as partes da música tendo uma pessoa específica em mente. Mesmo quando os títulos delas não refletiam isso, as canções eram sobre pessoas”.

Chris McGregor morreu aos 53 anos, em 1990, por conta de um câncer. Apesar de dedicar canções a Nelson Mandela (“Dakar” é uma delas), não chegou a testemunhar o fim do apartheid em seu país, mas sabia o quanto ele era nocivo: “Naquela época, na África do Sul, os negros não eram donos de absolutamente nada”, disse, em entrevista à revista francesa Jazz Magazine. “Eles não tinham nada que os permitisse criar um poder econômico negro – apenas a força do trabalho. Não tinham a própria terra, e o montante que tinham não era nada mais que o suficiente para servir de suporte à população”.

Após sua morte, gravadoras como Cuneiform e Fledg’ling têm relançado algumas obras do pianista. Apesar dos ótimos Very Urgent (1968) e Bremen to Bridgewater (1971), nenhuma tem o peso histórico do potente registro com a The Castle Lager Big Band, The African Sound, gravado nos dias 16 e 17 de setembro de 1963, na África do Sul.

O disco é uma raridade porque foi lançado somente naquele país. Marca a estreia de McGregor como bandleader e mostra um breve rascunho das influências que ele abraçaria a partir dali.

Esse senso de união é preponderante em The African Sound porque havia preocupação maior em constituir uma cena jazzística do que se destacar no contexto musical como um todo

A banda era composta por 17 músicos, negros e brancos, que incluíam seus colaboradores de longa data Mongesi Feza (trompetista) e Dudu Pukwana (sax-alto e clarinete).

“Fiquei satisfeito naquele momento porque as possibilidades eram tremendas”, contou Chris em encarte de uma edição de 1991, lançado pela Teal Records com poucas unidades. “Mas tenho que admitir que ainda parecia um sonho pra mim”.

The African Sound tem 6 faixas no total. Todas elas evoluem gradualmente, partindo de um pressuposto melancólico que se agiganta, como se a música fosse ‘batendo’ nos instrumentistas um a um até ganhar corporificação massiva. Bons exemplos são “Kippie” e “I Remember Billy”.

Duke Ellington é uma influência sobressalente por conta do impacto da brass section, formada por dois sax-tenores, dois sax-altistas, três trombonistas e quatro trompetistas, recorrendo a efeitos semelhantes às chamadas jungle sounds exploradas por Ellington nos anos 1930, 40 e retomadas no clássico ao vivo At Newport (1956).

Um grande exemplo dessa massa jazzística está em “Eclipse at Dawn”, onde o clarinete de Kippie Moeketsi, o sax-alto de Pukwana e o trompete harmon-mute de Feza conduzem uma alternância híbrida regimentada pela força das notas. “Eu a escolhi [no repertório] porque me parecia levemente mais fácil aos solistas. Pela pressão do tempo tivemos necessariamente que nos concentrar mais no conjunto que nos solos”, disse Chris.

Esse senso de união é preponderante em The African Sound porque havia preocupação maior em constituir uma cena jazzística do que se destacar no contexto musical como um todo. Vale lembrar que o país havia se tornado uma República poucos anos antes, em 1961, quando o primeiro presidente do país, Charles Robert Swart, dava impulsão a um falso nacionalismo sob as cortinas da segregação racial.

G. Álbuns: Duke Ellington | At Newport (1956)

Em outras palavras, a preocupação com o coletivo tem mais sentido do que se imaginaria em The African Sound. Essa decisão musical soa mais acertada principalmente quando se tem em conta que Chris McGregor não trabalharia com todos os músicos daquela orquestra novamente.

“Durante muitos anos quis ouvir uma big band composta por brilhantes estrelas de jazz da África do Sul, e meus rascunhos eram cheios de projetos pessoais e composições que valiam uma aventura dessas, frutos de cerca de cinco anos de audição e envolvimento com essa amável música que era o jazz sul-africano”, escreveu McGregor.

Um ano depois, porém, tanto McGregor, quanto Pukwana, Feza, entre outros, participaram da turnê que os levou ao festival Antibes-Juan-les-Pins Jazz, na França. Decidiram ficar por lá mesmo, impulsionados pela ótima recepção da crítica musical.

Depois, eles foram para a Inglaterra, “literalmente chacoalhando a cena jazzística de Londres, ajudando a criar um clima excitante em que outros jovens músicos pudessem desenvolver suas próprias ideias sobre liberdade musical”, segundo a crítica britânica de jazz Val Wilmer. Nos anos subsequentes, Chris McGregor se soltou mais, assimilando free-jazz, gêneros locais e arranjos mais ousados, mas só agora temos dimensão do quão acertado foi seu primeiro passo.