Metallica, da dir. p/ esq., na formação de …And Justice For All: Lars Ulrich (bateria), James Hetfield (vocal/guitarra-base), Kirk Hammett (guitarra solo) e Jason Newsted (baixo)

O Metallica estava numa situação complicada em 1988: em turnê do disco Master of Puppets, o baixista Cliff Burton morreu em um acidente no ônibus. James Hetfield lamenta até hoje ao dizer que Cliff estava em seu lugar no ônibus, o que pode ter iniciado uma série de tormentos que levou o vocalista do grupo em colapso ao se entregar às bebidas.

…And Justice For All, além de ser a melhor saída para evitar que a tragédia desviasse o peso consistente da banda, é algo mais: é o disco mais coeso e ambicioso que o Metallica já gravou na carreira. A sonoridade instrumental é praticamente uma orquestra sinfônica da destruição que retrata uma sociedade cada vez mais decadente. ‘Você vê o que eu vejo?/A verdade é uma ofensa/Seu silêncio por sua confidência’ reclama os vocais clarividentes de Hetfield em “Eye of the Beholder”.

Para contornar a saída de Cliff, a banda chamou Jason Newsted, que mal tem suas linhas audíveis no disco. Se é um erro crasso ou não, fica difícil responder. Entretanto, a complexidade das músicas não aponta para a falta do instrumento, muito por conta da excelente sincronia de guitarras entre o solista Kirk Hammett e a base mantida por Hetfield. Mesmo na instrumental “To Live is To Die”, que deve ter servido de inspiração para as jams mais vigorosas do Macaco Bong, os riffs de guitarra ondulantes são consistentes o suficiente para sofrerem a interferência do baixo. Lars Ulrich traz o básico essencial, sobrepondo a verve do ‘músico que gosta de tocar’ perante a técnica.

“Blackened”, que inicia o disco, já mostra os rumos diferentes do grupo. Ao invés de seguir a cartilha do heavy metal pesado que pautou os três primeiros trabalhos da banda, vemos que o Metallica pende para um rock mais orquestral. É como se …And Justice For All tivesse todos os preceitos para se tornar uma ópera-rock: temas sobre destruição, arranjos cromáticos e composições mais complexas. Se o grupo já era conhecido por músicas longas, aqui eles resolveram levar tal característica mais adiante: o álbum tem faixas que beiram os 10 minutos, como é o caso da balada “…And Justice For All”, que tem a estética parecida com a “One”, e a instrumental “To Live is To Die”.

Ainda que a MTV tenha contribuído com a promoção do disco ao repetir o vídeo de “One”, com sons de helicópteros de início que supõem uma guerra iminente, os suspiros de grandiosidade da banda vêm com a sequência “Harvester of Sorrow” e “The Frayed Ends of Sanity”. Não que elas apresentem algo de novo. Mas, em termos de composição (tanto letras como arranjos instrumentais) e de tempo, a primeira é bem digesta por ser límpida e pragmática. Já “The Frayed…” é totalmente ao contrário: é um thrash metal que expira ares de seriedade. Serviria como trilha de um filme de terror cult naqueles momentos de ação que surpreendem o espectador com fórmulas alternativas de provocar o desastre. Sem falar que é nela que está os solos mais inspirados de Kirk Hammett.

…And Justice For All é, também, um álbum de transição. Entretanto, se parecia que veríamos uma banda cada vez mais consistente com o passar dos anos, o posterior álbum preto provou totalmente o contrário. Talvez fosse por conta da saída do produtor Rasmussen, que deu lugar a Bob Rock no disco de 1991. Não que o Metallica tenha piorado: mas, justiça seja feita, gostávamos mais do Metallica quando a palavra pop era um termo distante da banda.