Gravadora: LLLP/XL
Data de Lançamento: 8 de maio de 2016
Nunca o Radiohead tinha ficado tanto tempo sem lançar um disco. Os hiatos estão cada vez maiores desde que boa parte dos integrantes decidiu tocar projetos paralelos – isso todo mundo sabe, mas desde que a banda de Thom Yorke lançou In Rainbows (2007) a teoria de que teriam esmorecido caiu totalmente por terra.
O álbum seguinte, The King of Limbs (2011), era parecido demais com que o vocalista já explorava em Atoms For Peace, por isso muitos ainda esperavam a resposta daquela pergunta básica: Quando o Radiohead vai voltar a lançar discos bons? (Para mim, por outro lado, King of Limbs é da safra boa da banda.)
A resposta veio com o 9º álbum, A Moon Shaped Pool.
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Algumas canções dele já eram conhecidas dos fãs: a acústica “Present Tense” já havia sido apresentada com formação do Atoms For Peace, em 2009; “Desert Island Disk” e “The Numbers” foram mostradas numa apresentação solo de Yorke em Paris, no final de 2015; e a última canção, a gélida “True Love Waits”, data de 2001, quando a banda lançou o EP I Might Be Wrong: Live Recordings.
A Moon Shaped Pool, na verdade, não é um disco que as pessoas afeitas ao Radiohead esperavam. Comparado ao anterior King of Limbs, é quase uma antítese: aqui, a banda se apega às minúcias, valorizando uma organicidade melancólica. Há menos guitarras, e mais piano e técnicas de estúdio.
Quando se fala em cordas, os violinos da primeira faixa, “Burn The Witch”, que nos remonta a “Airbag” (de OK Computer, 1997), marcam território, mas não dizem nada (na verdade, até confundem: quando os violinos ‘tomam’ o protagonismo novamente, em “Glass Eyes”, enfatizam ainda mais a dramaticidade em torno do disco).

Crítica: Radiohead | The King of Limbs
Portanto o verdadeiro ‘start’ do disco é dado com “Daydreaming”, que ganhou um vídeo com direção de Paul Thomas Anderson (veja no fim do texto). O piano monocromático coloca Yorke novamente na posição de estandarte da melancolia, enquanto os efeitos se dissolvem como o espalhar de uma neve que passa a cobrir uma área visualmente afetada pelo inverno.
“Decks Dark” poderia ser extraído de Amnesiac (2001), dando tônica a uma das principais adversidades do Radiohead: os vocais de Yorke.
Um ouvinte atento irá perceber menos interjeições ao entoar os vocais. Na própria “Decks Dark”, ele se apoia em backings, quando, outrora, certamente optaria por seus sussurros desajeitados.
Uma das mais ousadas do álbum, “The Numbers”, capta Yorke num momento de devaneio controlado: ele habita uma imensidão contida por violinos, pianos e guitarras distanciados, mas permanece firme. “The Numbers” é o take mais avant-garde do álbum, porque entrecruza as experiências de trilhas sonoras de Johnny Greenwood, os acordes eletrônicos soltos do Atoms For Peace e uma sublevação rítmica que balanceia como um pêndulo. Thom Yorke, no entanto, tá lá, relativizando tudo, no controle: ‘Abrindo em todos os canais/Pronto para receber/E nós não estamos à mercê/De sua luz trêmula ou de seus feitiços‘.
“Identikit” também contrapõe a imensidão ao fundo, mas nela a voz de Yorke desempenha função diferente: é o elemento que transforma a canção numa experiência metafísica. A negação (‘eu não quero saber‘, repete Yorke) é entendida como se tivesse no espectro espacial: a aproximação das guitarras junto aos efeitos domam a canção aos poucos, como se os satélites se aproximassem de um planeta pertencente ao plano das ideias. Não é viajeira não; o próprio Radiohead diz: ‘Peças de uma boneca de pano humana/Que você não pode criar/Não pode criar/Não pode‘.
Um fator importante para que A Moon Shaped Pool atraia mais que o antecessor está no ponto de partida reassumido. The King of Limbs ofuscou bastante o aspecto pop do Radiohead, enfatizando mais a eletrônica. Nem mesmo In Rainbows, um disco muito elogiado da banda, serve como parâmetro. As autorreferências estão mais em Kid A (2000) e Hail to The Thief (2003), mas só porque fazemos questão de aproximar as obras para determinar uma macrovisão da representatividade do Radiohead.
O fato é que as audições tendem a isolar A Moon Shaped Pool da discografia da banda. O grupo levou o processo conjuntural a um patamar que desafia as experiências anteriores. Temos aqui o Laughing Stock do Radiohead. Ou o In Utero.
Que não seja o último deles.
Outros lançamentos relevantes:
• Julianna Barwick: Will (Dead Oceans)
• Mahmundi: Mahmundi (Stereomono/Skol Music)
• Carla Bley / Andy Sheppard / Steve Swallow: Andando el Tiempo (ECM)
• Pat Metheny / Cuong Vu: Cuong Vu Trio Meets Pat Metheny (Nonesuch)
• Ravi Coltrane / Jack DeJohnette / Matthew Garrison: In Movement (ECM)
• James Blake: The Colour in Anything (Polydor)
