Gravadora: YBmusic/Natura Musical
Data de Lançamento: 6 de outubro de 2017
Dois anos depois de rever a obra de Dolores Duran, Nina Becker recebeu convite da marca Hermès para compor a trilha de um lenço comemorativo inspirado no Rio de Janeiro pré-bossa nova.
A obra paisagística de Burle Marx e o movimento do modernismo também serviram como referências para este trabalho, então Nina teve uma ideia: por que não se aprofundar neste universo para um disco próprio?
Mesmo com a interessante abordagem de Minha Dolores (2014), Nina não lançava trabalho inédito desde Azul e Vermelho, ambos de 2010 (com exceção do projeto Gambito Budapeste, de 2012, ao lado de Marcelo Callado).
Com o passado de tempos não vividos, Acrílico surge com uma sonoridade imagética. Por incrível que pareça, o disco, coproduzido por ela ao lado de Duda Mello, não tem nada a ver com nostalgia. Em “Despertador”, por exemplo, ela menciona ‘burros batem panelas‘, numa certa referência às manifestações políticas que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff no ano passado.
Mas, em tempos de tantas polarizações, Nina Becker está longe de propor qualquer tipo de abordagem política. A pincelada em “Despertador”, sob um som pós-tropicalista com incrível simbiose entre o piano de Rafael Vernet e a bateria de Tutty Moreno, parece um curta-metragem ambientado na correria do dia a dia. Na composição feita em parceria com Kassin e Pedro Sá (que toca guitarra no disco), Nina fala de ‘tantas roupas pra lavar’, o compromisso de ir à feira comprar frutas, o tempo lá fora… São coisas demais para focar em uma só.

Multi-Nina Becker
Multitarefa, em Acrílico, traduz-se também em multiplataforma. Além do disco, Nina prepara um projeto audiovisual do disco, com direção de Felipe Nepomuceno.
A ideia é trabalhar as cores preto e branco, de forma que, segundo o texto de divulgação, combine “de forma orgânica com a atmosfera solar do samba, do Brasil tropical e dos ritmos latinos”.
Essa abordagem não é assim tão óbvia. Para a canção “Na Quebrada”, composta por ela ao lado de Alberto Continentino (baixista no disco), há um misto de samba e rock torto que evoca tensão e muitos atritos.
Já “Caramelo da Nostalgia”, composta por Negro Léo, é um tipo de poema concreto que liga as intensidades da geração millenial ao clima caótico de uma cidade com muitas informações em todos os cantos.
O primeiro single revelado do disco, “Voo Rasante”, permanece como uma das grandes forças do disco, principalmente por trazer aquilo que Tutty Moreno sabe fazer de melhor: agilizar a cadência musical. Nina não entra em tensão; usa a força instrumental (e que força!) a seu favor, entrando num transe estético fervoroso (o que Vernet, Sá, Continentino e Tutty produzem aqui é de tirar o chapéu!).
Sempre que tem a oportunidade, Nina reforça sua técnica como cenógrafa na música. Em Acrílico, essa simbiose é mais perceptível de uma maneira estranha. As referências a cores, paisagens e personagens não são óbvias, mas não demora muito para o ouvinte perceber que existe uma construção por trás da obra que vai muito além de um olhar específico para um tempo.
Dentro de uma ambientação mais rica do que parece, Nina Becker erigiu sua melhor obra.
Outros lançamentos relevantes:
• Kelela: Take Me Apart (Warp)
• Linn da Quebrada: Pajubá (Independente)
• Pere Ubu: 20 Years in a Montana Missile Silo (Cherry Red)
• Amandinho: Ocultismo Oldschool (Transtorninho)
