Penúltimo álbum oficialmente lançado por Bob, Survival selou a proximidade do rei do reggae com a África

Difícil definir Bob Marley em um álbum só. O cara foi (é) o rei do reggae e da Jamaica, um ativista da paz universal, pai de doze filhos, um cantor de primeira e, obviamente, um grande revolucionário. Aliás, essa é a faceta mais evidente em um de seus últimos trabalhos de estúdio, Survival.

Bob Marley teve a ideia de conceber este álbum pensando na unificação dos negros africanos para confrontarem a repressão política e segregadora do apartheid. Na verdade, o compositor pensou em nomear o álbum de Black Survival mas, para não sofrer censura total no continente por parte dos poucos brancos que mandavam por lá, optou apenas por Survival.

O álbum é o primeiro de uma trilogia que revela, em minha humilde opinião, uma das fases mais áureas de Bob Marley. O próximo trabalho, Uprising, foi lançado em 1980, ano da turnê de independência do Zimbabwe; e Confrontation, seu álbum póstumo, foi lançado somente em 1983.

“Africa Unite”, o primeiro single, já é revolucionária logo por seu título. Para quem não sabe, o continente africano foi explorado pelos colonos justamente pelo conflito tribal entre os nativos. Os europeus alimentaram essa richa entre eles para poder dominar o território e explorar os recursos naturais com facilidade. Até hoje a maioria dos países africanos sofre com esse terrível ‘causo’ que tornou a África o continente mais pobre e segregado de todo o mundo. Quando Bob Marley canta “Africa Unite” ele clama por essa união, que carece de fortalecimento individual e coletivo: “Africa Unite/Because we’re moving right out of Babylon/And we’re going to our father’s land” (“Africa unida/Porque temos que sair da Babilônia/E estamos indo para terra de nosso pai“).

Bob Marley: “Africa Unite”

“So Much Trouble In The World” é apenas um prelúdio das desgraças que assolam o mundo. Não por coincidência, é a primeira faixa do álbum. Para Bob, só uma união muito grande pode evitar com que mais catástrofes aconteçam em esfera universal. Como aquela famosa frase: ‘live together, die alone’.

So you think you’ve found the solution, [Então você acha que encontrou a solução] But it’s just another illusion! [Mas é apenas outra ilusão!] So before you check out this tide, [Antes de checar esta maré] Don’t leave another cornerstone [Não deixe outra curva] Standing there behind, eh-eh-eh-eh! [Vegetando lá atrás, eh-eh-eh-eh] We’ve got to face the day; [Temos que enfrentar o dia] Ooh-wee, come what may: [Venha o que vier] We the street people talkin’, [Nós, as pessoas da rua conversando]

Yeah, we the people strugglin’. [Nós, as pessoas lutando]

Uma das músicas mais instigantes de Bob Marley, “One Drop” indica que a batalha e a união dos mais fracos é o caminho certo de Jah, porque, como ele mesmo canta em sua canção, ‘we no want no devil philosophy’ (‘não queremos essa filosofia do capeta‘).

Mas, de todas as canções, os marleymaníacos (como eu) hão de concordar que “Zimbabwe” é a música-chave de Survival. Ela foi composta para ser tocada no dia da independência do país-canção da Rodésia, colônia britânica comandada pela oligarquia branca no poder, e acabou se tornando um hino (mesmo que não seja oficializado) no Zimbábue, que se tornou independente em 1980. “Zimbabwe” não é apenas o claro exemplo da necessidade de enfrentar as agruras do sistema em um país que foi marcado pela tragédia separatista do apartheid, mas clama a luta, o esforço que deve vir do cidadão comum para lutar pelos seus direitos.

Survival é um verdadeiro ato de entrega às origens de Bob Marley à mãe África, uma contribuição histórica ao povo daquela região, ou, mais ainda, uma forma representativa do compositor em batalhar pelo lado que sempre esteve: ao lado dos jamaicanos, das origens africanas, da paz universal, do amor pelo outro. Essa é uma revolução da qual Bob Marley jamais reincidiu. Uma revolução, além de tudo, humanitária.

Post originalmente publicado (com pequenos ajustes) em O Atemporal, meu antigo blog.