Gravadora: Seroma
Data de Lançamento: 5 de novembro de 1975
A carreira de Tim Maia sempre foi permeada de altos e baixos. O preto, gordo e cafajeste formado em cornologia tinha um vozeirão que deixava até Roberto Carlos com inveja. Também pudera: não fosse o tijucano, o rei jamais teria aquele passaporte inicial para o sucesso, que veio com seus contatos com Carlos Imperial.
Depois de gravar seu terceiro disco de inéditas, Tim Maia estava a puro vapor afinando a banda Seroma em um local improvisado que teve a audácia de meter os bedelhos nas construções (que depois acabou ferindo sua irmã. Tim prometeu jamais se aventurar novamente em seus palpites arquitetônicos).
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Segundo o jornalista e biógrafo Nelson Motta, autor do irreverente Vale Tudo: O Som e a Fúria de Tim Maia, depois de umas dosagens de mescalina, Tim foi visitar o violonista Tibério Gaspar e viu em sua mesa um livro que falava que os seres humanos eram “originários de um planeta distante e perfeito” e que estávamos ‘exilados na Terra’, onde a única salvação era a ‘imunização racional’.
Os músicos de sua banda achavam que era mais uma de suas muitas ‘viagens’, mas o soulman brasileiro levou tudo a sério: deixou de beber, ficou caretão, só usava roupas brancas e exigia que todos os instrumentistas fossem adeptos da seita de Manoel Jacintho.
As bases de seu quarto disco já estavam prontas para ser gravadas na Polydor. Só que, quando o músico resolveu que iria rechear aqueles vibrantes sons que lembravam Stevie Wonder, Marvin Gaye e Curtis Mayfield de pregação ao livro Universo em Desencanto, ficaram putos da vida.
Musicalmente, a banda de Tim Maia atingiu o ápice da sonoridade funky: o samba-soul swinguado de “Bom Senso” exibe o tijucano em uma de suas melhores performances vocais. Neste período, é bom lembrar, sua saúde estava ótima já que não estava comendo carne e evitando os excessos a todo o custo (o único excesso era a pregação devota. Ele não podia ver ninguém que já mandava colocar roupa branca para tirar o ‘magnetismo’ e indicava-o para comprar um exemplar do livro Universo em Desencanto).
Tim Maia em sua essência gospel pode parecer uma contradição. Só que, musicalmente, por mais chato e perfeccionista que o músico fosse, ele jamais atingiria aquela ponderação linda entre os contrabaixos e as guitarras de “Rational Culture” ou “Que Beleza (Imunização Racional)”.
O disco duplo, um dos grandes sonhos do cantor, trouxe riqueza e imensa contribuição musical à black music que florescia no Brasil nos anos 70 – principalmente com Jorge Ben e a Banda Black Rio.
As expressões de música brasileira se encontram com a black music norte-americana no xaxado soul de “Quer Queira Quer Não Queira”, o swing latino das danças cubanas entram em um groove delicioso em “Guiné-Bissau, Moçambique e Angola”. Esses países, que falam a língua portuguesa, são citados porque o conhecimento de Manoel Jacintho só foi disseminado no nosso idioma. Tanto é que, como Nelson nos mostra na biografia, Tim Maia chegou a enviar um exemplar para John Lennon e recebeu uma foto dele pelado como resposta, chamando-o de louco e afirmando que não entendia o português.
Depois do fiasco de vendas e da pouca aceitação da crítica e do público, Tim Maia saiu gritando aos sete ventos que Manoel era um farsante e aproveitador e mandou queimar os poucos exemplares do álbum, que era distribuído de porta em porta. Por isso, Racional hoje é um objeto de disputa nos vinis: uma relíquia repleta de sonoridades mágicas. Não importa o que Tim Maia diga nas letras, a essência aqui é a música em sua excelência.
Confira o vídeo da primeira apresentação de uma música do disco na televisão:
