
Bob Marley canta no histórico show da Independência do Zimbábue, naquele fatídico 18 de abril de 1980
Na biografia Catch a Fire, Timothy White afirmou que Bob Marley já previa que morreria aos 36 anos ainda antes de sofrer o atentado em 1976 na Hope Road, ou mesmo antes de descobrir que tinha câncer. Longe de ser um profeta do rastafarianismo, Bob sabia que carregava uma missão. Talvez ele tenha percebido isso após o impacto de um dos seus mais importantes registros, Survival, lançado em 1979.
Infelizmente, ele sabia que o tempo corria, e que não tinha muito tempo. Bob não podia dar o luxo de ficar parado vendo o preconceito assolar a sua mãe-África. Afinal, após sua passagem pela Europa no meio da década de 70 (não coincidentemente após o atentado na Jamaica), viu que o reggae agora estava um contexto internacionalizado. E, com isso, o fardo era ainda maior. Os escravizados, os negros, as minorias, mesmo os mais abastados, aqueles que tiveram mais oportunidades de conhecimento; todos eles precisavam ouvir sua mensagem, o que ele tinha para dizer.
Bob Marley chegou a flertar com o afrobeat em “Could You Be Loved” e o ethio-jazz em “Forever Loving Jah”, gravadas em seu último disco, Uprising
Nos últimos anos de vida, Bob se viu como um militante do continente africano, chegando a tocar a canção “Zimbabwe” no dia da Independência do país em uma data que ficou cravada no legado do artista: 18 de abril de 1980. Dera Thompson, uma espectadora americana que estava no dia do concerto, chegou a declarar emocionada: “Era como se dissessem: ‘nós vencemos, o Zimbábue é nosso de novo! Não podíamos acreditar que era verdade. Houve 21 salvas de canhão, e nós a sentimos… Esse foi o maior momento de nossas vidas”.
O Zimbábue passava por complicações políticas com uma guerra civil após a independência da Rodésia do Norte, território da Zâmbia. Os partidários da União Nacional Africana do Zimbábue (ZANU) partiram para a luta armada. Há especulações de que Bob teria ajudado a estreitar relações que permitiram o fornecimento de armamentos aos rebeldes do país, que lutavam contra os ingleses. A trégua só veio em 1980, quando a ONU e a Grã-Bretanha reconheceram oficialmente a independência do Zimbábue.
Ainda assim, o tempo fora muito curto para Bob expressar a grande influência que a África teve em sua carreira. Segundo o jornalista e historiador Roger Steffens, em entrevista a Gabriel Rocha Gaspar, “ele estava definitivamente olhando além. Ele explorou todos os tipos de música ao longo de sua carreira. Não tenho dúvida de que ele exploraria o afrobeat de Fela Kuti, bem como outros ritmos africanos e internacionais”.
Uprising, o último disco gravado por ele na carreira, traz algumas dessas referências: em “Forever Loving Jah”, percebe-se um pouco da presença do ethio-jazz de Mulatu Astatke, com a cuíca de fundo e o órgão seguindo em um ritmo similar às guitarras-base do reggae. Como também lembrou Gabriel Rocha, “Could You Be Loved” tinha uma raíz funk e afrobeat na guitarra, sem deixar de lado a pontuação regueira.
Bob Marley também teve uma grande decepção quando visitou a terra de Haile Selassie I, aquele que fora responsável por fazer sua mãe Cedella Booker acreditar, com sua mera aparição, na abstrata ideologia rastafári quando ele veio em visita oficial à Jamaica, em 1966. Quando foi à Etiópia, durante a turnê de Survival, percebeu a imensa negligência do ditador, refletida na miséria evidente nas ruas do país. A dinastia de Selassie tem grande valor simbólico na cultura rastafári por ser herdeira direta do Rei Salomão.
Também há rumores de que Bob queria explorar a bossa nova e outras vertentes da música brasileira. É que ele chegou a visitar o país pouco antes de conceber Uprising, e encheu a mala de instrumentos de nossa música: cuíca, pandeiro, berimbau etc. De fato, tudo isso começou com suas incursões na África. Aqui no Brasil, ele chegou a visitar os morros cariocas e demonstrou interesse em gravar com Luiz Melodia. Afinal, conexões entre as músicas brasileira e africana não faltam. Mas essa história vai ficar para outro post.
