Entre as décadas de 1920 e 1950, o rádio desempenhou um importante papel de divulgador de música no Brasil (e no resto do mundo também). Era por ele que se tinha conhecimento do novo cantor das multidões (Orlando Silva), do sambista mais boêmio da praça (Noel Rosa), das modinhas de carnaval que iriam agitar até a chegada de fevereiro…

Diz-se que o último período de glória do rádio durou até a Bossa Nova, quando músicos como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Roberto Carlos se encantaram ao som da batida de violão de João Gilberto.

Esse ‘período de glória’ é algo que deve ser contestado. Porque o rádio continuou após o advento da televisão com os seus musicais, que ampliaram a visibilidade do Tropicalismo e da Jovem Guarda para as massas.

A TV deu continuidade a essa era divulgadora, mas o rádio não morreu. Ele continua influente e presente, apesar do jabá prosseguir corroendo a programação com lixos musicais (pelo menos é a realidade pernóstica das grandes rádios brasileiras).

Passou os anos 1980, e a TV brasileira deu uma recaída enorme na programação musical, salvo poucas exceções como o Programa Ensaio e, anos depois, a chegada da MTV, que praticamente moldou a formação e o conhecimento musical de muitos jovens que cresceram nessa década.

Agora, temos a internet. E, como mídia descentralizada, ela pulverizou toda a produção musical.

Mais de uma década depois, os broadcasters estão se reinventando para criar e consolidar um público por ela, colocando numa mesma linha fina blogueiros, fãs, simpatizantes, jornalistas experientes, especialistas e idiotas metidos a besta.

E onde a música brasileira se encaixa nisso tudo?

Apesar das muitas declarações de que, esteticamente, vivemos um de nossos melhores períodos de produção artística, o conceito de ‘reconhecimento’ é fechado em polos minúsculos, se comparados à dimensão que se tinha antigamente do que era um ‘artista de sucesso’.

Isso tudo é motivado pela facilidade: um computador em casa, uma ideia na cabeça e letras no papel, voilà, eis um novo artista na cena musical.

A quantidade desses produtores é tão grande, que cabe a irreflexiva pergunta: o que presta hoje em dia?

Isso está cada vez mais difícil de definir.

Com o passar dos anos, a indústria musical brasileira se distanciou da qualidade artística

Antigamente a legitimação de um artista era pautada pelo casting de uma gravadora. Se ela era grande o bastante e apostava o suficiente nesse artista, tínhamos o novo ‘grande músico’. E independia da qualidade musical porque, para os locutores, isso era avaliado por quem divulgava o artista. Logo, os contratos eram firmados exclusivamente com a emissora de acordo com a capacidade que esse artista tinha de conquistar multidões, em um pré-julgamento cujos principais pontos estavam centrados na possibilidade de faturar. Se é bom ou ruim, de qualidade ou não, pouco importa. Dá dinheiro? Então, venha.

Apesar do brasileiro ser um dos maiores usuários de internet pelo mundo, pouco faz para seguir seus gostos musicais. O rádio e a TV contavam com a passividade do espectador. Logo, ele não precisava ‘pesquisar profundamente’ para encontrar o que gosta.

Na verdade a dinâmica pouco mudou de hoje para 50 anos atrás. Antigamente os singles davam o ditame da aceitação pública, algo que voltou há pelo menos uns 10 anos pra cá. Veja só: aqui, Naldo e Anitta atingiram o topo dessa forma. Alguns funkeiros bem-sucedidos não têm um álbum cheio até hoje.

Os gostos são tão divididos que muitos se declaram ecléticos por ter artistas variados na biblioteca do iTunes (ecletismo que, muitas vezes, se comprova superficial).

Tendo noção de toda essa dinâmica, a pergunta persiste: o que realmente presta hoje em dia? Como um artista de qualidade chega ao auge da carreira?

Os paradigmas fonográficos são bem diferentes de outrora. Talvez a força de vontade de cada artista tenha que ser maior nos dias de hoje. Além de criar a música, é ele quem deve ir atrás de divulgação, publishers, contatos com a imprensa, shows, aparições em rádio e TV. Esse é o caso do iniciante.

Se parece ruim, olhe só como seria há uns 30 anos: se ele não passasse no teste da gravadora, responsável por tudo isso, simplesmente não decolava. (Muito provavelmente alguns talentos possam ter sido descartados por conta dessa dinâmica.)

Por outro lado, o artista brasileiro demora mais para conquistar respaldo por vias independentes. Pegue um Emicida: ele estourou em 2009, gravou com produtores norte-americanos em 2011 e criou um selo próprio, o Laboratório Fantasma, que chegou a ter faturamento de mais R$1 milhão em 2012. É um sucesso relativizado, que nem se compara a Anitta, por exemplo, que surgiu no ano passado com o disco Show das Poderosas (embalado pelo single homônimo) e vendeu mais de 100 mil cópias só na primeira semana.

Com o passar dos anos, a indústria musical brasileira se distanciou da qualidade artística. Tirando um medalhão ou outro, que ainda permanece firme e forte em alguma grande gravadora, são raras as investidas em prol da música (o projeto Natura Musical é uma delas).

Assim, o parâmetro de ‘bom momento musical brasileiro’ depende mais de uma curadoria do que nunca. E é aí que reside o problema: também não existe interesse de estimular essa curadoria musical.

DEPENDER DOS INDEPENDENTES?
Sim, os blogs tomaram conta de grande porcentagem de produção de conteúdo sobre música, mas como confiar em qualidade quando se percebe que, na maioria deles, não há senso crítico confiável?

E bem mais provável um neófito entrar em uma dessas páginas pelo Google, navegar e descobrir que um som não difere muito do outro. Num julgamento rápido, pode-se deduzir que a música de hoje não passa de cópia do que foi há décadas atrás (exemplos de bandas que reciclam o que já foi feito maciçamente, do rock a MPB, são inúmeros).

A qualidade não garante permanência e a barreira para a continuidade de uma cena prevalecer só faz aumentar

Também pode acontecer o contrário: um neófito pode cair em um blog legal e se deparar com análises críticas contundentes. Mas, sejamos sinceros, isso é bem mais difícil de acontecer, por questões bem simples: não há estímulo para que se escreva sobre música com a qualidade que ela merece. Os poucos exemplos o fazem por pura vontade e amor, porque dificilmente conseguem rentabilizar.

E a parte de rentabilizar é importante, sim. Ao informar, você está prestando um serviço. São essas informações que darão um panorama geral da cena musical num futuro, próximo ou não, quando algum acadêmico, historiador ou jornalista quiser entender o que aconteceu nos anos 2010. Sem falar que até mesmo um comunista concorda com a máxima de Tio Sam: Time is money.

PULVERIZAÇÃO AUTOMÁTICA
O amadurecimento tem que surgir nos dois lados: de quem produz música atualmente e de quem produz conteúdo sobre música. E nem estamos entrando em critérios artísticos ou qualitativos.

Os tempos atuais demandam pressa e, consequentemente, pulverização automática. Dá-se muita atenção ao ‘novo músico que estabeleceu novos critérios’, mas não se dimensiona o quão longe ele pode chegar. Porque, na rapidez excessiva e no montante quase infinito de novo material, em questão de meses esse ‘novo músico’ pode estar ultrapassado.

Assim, fica difícil para uma cena musical ter durabilidade.

Isso é comprometido mais pelo modus operandi que se instaurou em blogs, sites e até mesmo parte da crítica especializada (que parece querer competir com esses produtores independentes), do que com a realidade artística em que vivemos.

A pressa é inimiga não só da perfeição, mas de qualquer senso de qualidade.

NOVO ARRISCADO x VELHO ESTÁVEL
Se pensarmos que temos hoje, na música brasileira, artistas do porte de Céu, Cidadão Instigado, Bemônio, Wallace Costa, Lucas Santtana, Vivendo do Ócio, Rodrigo Campos, Romulo Fróes, Júpiter Maçã, Cadu Tenório, Nação Zumbi, DEDO, Felipe Cordeiro, Satanique Samba Trio e milhares de outros, só um doidivanas diria que estamos em um momento ruim no quesito musical.

O problema é que mesmo os artistas parcialmente renomados passam por dificuldades para se estabelecerem na cena musical. Você pode ter o respaldo de blogueiros, críticos, especialistas e outros músicos e, mesmo assim, não conseguir se sustentar de música. A qualidade não garante permanência e a barreira para a continuidade de uma cena prevalecer só faz aumentar.

Sem o interesse ‘macro’ de quem pode financiar música, o que acontece é que perpetua-se aquilo que já foi consagrado um dia. É muito mais fácil encontrar alguém que goste de Cazuza ou Guns’N Roses do que um que goste de Nação Zumbi e Vespas Mandarinas (e, se gostar de todos, vai dizer que os dois primeiros são bem melhores).

E esses ‘macro’ publishers, que preferem pagar milhões para trazer Axl Rose e Metallica ao invés de balancear o lineup de grandes festivais com artistas pertencentes à nova cena, indiretamente sustentam aquele argumento enfadonho de que ‘boa era a música de antigamente’.

É muito fácil cultuar o antigo e deixar o novo pra lá. O novo sugere riscos e boa parte do empresariado não quer peitar o público a fim de buscar novos artistas musicais e quebrar velhos paradigmas justamente porque não interessa. Por que mexer naquilo que não é preciso?

Salvo iniciativas ousadas, que na maioria das vezes não têm financiamento, são poucas as tentativas de registrar o que acontece neste exato momento na música brasileira, seja independente ou não.

Temos funk carioca, Paula Fernandes, sertanejo universitário, nova MPB… Mas tem mais, muito mais por aí, que não é tão fácil de descobrir ou interpretar através de meros cliques. Quer dicas? Vá atrás da Música Torta Brasileira, da nova produção eletrônica, da nova cena afrobeat tupiniquim…

E esse ‘ousado’, ‘underground’ e ‘experimental’ precisa de investimento para encarar o público à altura.

Se as pessoas vão gostar ou não, elas que têm que decidir, não um ou outro empresário de entretenimento, blogueiro, jornalista, especialista ou idiota metido a besta.